Coluna

Pra começo de conversa: a construção do socialismo real na Venezuela

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26 de Agosto de 2019 às 15:02
"Recebi com muita alegria o convite para escrever uma coluna no Brasil de Fato RS sobre a Venezuela" / Foto: AVN/Telesur
Análise mais cercana do processo de luta, organização e resistência de seu povo

Recebi com muita alegria o convite para escrever uma coluna no Brasil de Fato RS sobre a Venezuela. Essa alegria se mistura com o peso da responsabilidade de tratar de um tema tão caro para nós, militantes da causa revolucionária e socialista. Tratar de um país que constrói ha duas décadas um rico processo de transformação, carregado de uma beleza criadora e repleto de contradições inerentes aos processos políticos e sociais em construção, e ademais sob ataque constante dos EUA e dos países a ele submetidos, exige uma grande responsabilidade em relação ao processo e também ao que me move enquanto militante, que é a luta por uma sociedade substantivamente emancipada.

Meu primeiro contato com o processo revolucionário na Venezuela se deu quando eu ainda era uma estudante de história na Universidade Federal de Viçosa, no interior de Minas Gerais. Militante do movimento estudantil, em meio a discussões sobre os rumos das lutas sociais e políticas na América Latina no amanhecer do século XXI, me deparei com o documentário A Revolução não será televisionada, que trata do golpe de 2002 na Venezuela. Este documentário, produzido por dois cineastas irlandeses, registrou os acontecimentos do desenrolar deste fracassado golpe de Estado. Tal fracasso, resultado de uma poderosa reação imediata do povo venezuelano, consolidou a forte liderança de Chávez, mas, sobretudo, demonstrou o poder da luta de massas e seu papel na consolidação do processo bolivariano na Venezuela. A vitória da mobilização popular sobre a tentativa de golpe possibilitou que Chávez radicalizasse sua aliança com a base popular, rompendo com setores da burguesia e atuando de forma definitiva no controle da renda petroleira. O filme conta e mostra esta história com uma força e de uma beleza cativante.

Voltar o olhar para este processo me trouxe uma esperança mobilizadora, e me fez começar a olhar de uma outra maneira para nosso continente e a pensar sobre a real possibilidade de um processo de transformação mais profundo. Cá estávamos nós, no primeiro mandato do presidente Lula, carregados de sentimentos contraditórios, que iam da conquista de políticas sociais e espaços de atuação política à dura percepção de que as transformações estruturais estavam cada vez mais distantes, na medida em que o governo se alicerçava na conciliação de classes e na manutenção da política econômica voltada aos interesses do capital financeiro.

A cada notícia que tinha do processo na Venezuela, de sua radicalização, mais percebia que a América Latina trilhava novos caminhos. Assim, em 2005, aqui em nossa caliente Porto Alegre, durante o Fórun Social Mundial, Hugo Chávez anuncia, pela primeira vez, o socialismo como horizonte da revolução bolivariana. Suas palavras contagiam a militância jovem na qual fazia parte. Enquanto movimento estudantil, passo integrar a construção dos Estágios Interdisciplinares de Vivência (EIV) de Minas Gerais, organizados por algumas entidades do movimento estudantil e pelo MST, que se articula com organizações estudantis de vários países, como Colômbia, Argentina e Uruguai. Me alimento novamente da percepção de que os processos da luta popular estavam além de nossas fronteiras. A Venezuela nos inspira. Revolução e Socialismo nos aparecem novamente como um horizonte concreto, em marcha sob os pés da classe trabalhadora, dos movimentos sociais populares, dos povos originários, mulheres, jovens, negros e negras, camponeses e camponesas. Em nossos debates, de jovens estudantes, construímos uma identidade coletiva, ao som de Chico Buarque e Mercedez Sosa, onde percebemos esse grande povo latino americano, no qual somos parte, como sujeito de uma história em construção, que avançava a passos largos, pintando com nossas cores, diversas, vibrantes, os processos ainda por inventar, ora olhando para trás, para nosso passado colonizado, ora para longe, com as teorias e experiências revolucionárias de outras latitudes, mas compreendendo que agora era este continente quem se tornava o espelho da luta dos povos do mundo.

Mas mesmo com um grande entusiasmo, a experiência na Venezuela ainda me parecia distante, como um belo filme que, enquanto estou ali, assistindo-o, me identifico, me sinto próxima e parte. Mas quando ele acaba, a sensação de pertença se dissolve paulatinamente, e a luta cotidiana, com nossas pautas específicas, afastam nossos anseios daquela experiência tão importante, deixando a cargo de seu povo, que a construa e, em outro momento, possa, quem sabe, nos ensinar. Assim, quando me dou conta, me percebo novamente somente na minha brasilidade, imersa na nossa cultura própria, escrita, falada, cantada e recitada em português, e nos nossos próprios dilemas.

Mas este (re)conhecimento latino americano me encontra e me conforma em várias ocasiões: nos EIV (Estágio Interdisciplinar de vivência), que continuou sua articulação com o movimento estudantil de vários países da América Latina; no Curso de Teoria Política Latino Americana da ENFF (Escola Nacional Florestan Fernandes), que participei em 2008, já formada e fazendo parte das fileiras do MST; na Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho, brigada do MST que atua na Venezuela desde 2006, na qual fiz parte entre novembro de 2013 e janeiro de 2016; e agora, num estudo mais sistemático realizado por meio do mestrado no programa Desenvolvimento Territorial da América Latina, da UNESP, onde estudo o papel das Comunas venezuelanas na construção do socialismo.

Viver a experiência da construção do socialismo real, concreto, de carne, osso e sangue, com seus cheiros, sabores, cores e dores, ações, construções e contradições, não apenas consolidou em mim, de maneira permanente, uma identidade latino americana, mas me fortaleceu a convicção da necessidade da luta revolucionária, coletiva, organizada, popular, massiva, socialista e internacional pela emancipação humana.

E com este desnudar para o que me move, nesta relação com a Venezuela, construída como parte da minha própria história, que está baseada no sonho, na esperança, na vivência concreta e na reflexão crítica que, humildemente, inauguro minha coluna nesta importante ferramenta. Pretendo aqui não somente compartilhar com os leitores do Brasil de Fato esta experiência, seus aprendizados e as reflexões que se derivam, mas trazer uma análise mais cercana do processo de luta, organização e resistência de seu povo. Um povo que está sob um ataque permanente, um ataque que busca restaurar o poder das oligarquias entreguistas e submissas aos interesses dos EUA, e que faz de tudo para nos cegar e nos manipular, para que não conheçamos o que se passa neste país hermano, de nuestra pátria grande, e que tem tanto a nos ensinar sobre nossos próprios sonhos.

Edição: Marcelo Ferreira