Artigo

Uma carta para meu filho sobre o fim do Brasil

Querido Oliver, quando você ter capacidade de entender essas palavras espero que não seja tarde.

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Gabriel é jornalista da rádio Brasil de Fato Paraná / Arquivo pessoal

Querido Oliver, quando você ter capacidade de entender essas palavras espero que não seja tarde. Hoje, o lugar onde nos vivemos, a lama tóxica que toma conta dos vales e das casas só não é mais sufocante, que o cheiro intenso das queimadas que engole as florestas e toma conta de tudo.

O céu está preto, a chuva que cai do céu é escura. O dia virou noite às três da tarde. A ignorância se espalha mais rápido que o sarampo que voltou a ser epidemia e deixou de ser apenas memória. Comemora-se assassinatos como um gol em um estádio lotado. Os corações estão secando na mesma proporção que os açudes do São Francisco. Emprego virou luxo.

Direitos trabalhistas regridem na mesma proporção em que a empatia foi dando lugar a ignorância e a brutalidade. A confusão se transformou mãe de todos os valores. Até mesmo o futebol perdeu sua alegria para dar lugar a estádios vazios e esquemas táticos barriga-dura. O Brasil saiu do transe para caminhar para morte. Aqueles que acreditam em salvação se prostraram diante da catástrofe.

Mas ainda há esperança, e ela se renova e resiste todos os dias, há aqueles que não se calam, que não se iludem, que não se dobram. Pesa nos seus ombros não só a sua própria sobrevivência, mas a daqueles que virão. Meu filho enquanto escrevo essas palavras você tem dez meses. Você nasceu no dia do primeiro turno das eleições. Como se o Divino estivesse mostrando para mim que em meio a tanta ignorância a vida se renova e resiste.

Filho, eu espero que minha geração aprenda com seus erros a tempo da sua não pagar por eles. Espero que vocês não confiem em políticos populistas e extremistas que servem aos gananciosos e sedentos por lucro e sangue, mas sim na própria capacidade de vocês em mudar o mundo. Espero que tenha florestas para você e sua geração possam respirar ainda ar puro, que a água não seja podre ou privada. Que nos oceanos ainda haja vida. Que os empregos não sejam a base do açoite, que haja corações justos, felicidade, e motivos para se orgulhar do passado e se acreditar no futuro.

Nesse momento estamos perdendo filho, resistimos, mas estamos perdendo. Os justos estão presos. Os canalhas são os que aplicam a lei. As fraudes chegaram ao poder. Mas sabe filho, é justamente nas derrotas que tiramos os ensinamentos e plantamos as sementes que brotarão as vitórias e o amanhã. Ele nos pertence meu pequeno.



Venceremos, acredite nisso.

Do seu amado pai, hoje com 27 anos de idade.

Gabriel.

Edição: Laís Melo