Coluna

Jornalismo, profissão impossível

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05 de Setembro de 2019 às 16:10

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Glenn Greenwald teve que reiterar regras básicas do bom jornalismo para profissionais bisonhos / Foto: Reprodução/TV Cultura
O Roda Viva chegou ao limite: joga contra sua própria natureza

Certa vez Sigmund Freud, criador da psicanálise, destacou quais eram as profissões que ele considerava as mais difíceis. Ele radicalizou, muito mais que trabalhosas, há três tarefas que são impossíveis: governar, educar e curar. São, todas elas, é bom prestar atenção, profissões que têm a palavra como instrumento e a liberdade como objetivo principal.

Esses ofícios indicam as principais tarefas humanas e, paradoxalmente, as que menos garantias dão às pessoas que a elas se dedicam. Ser um político capaz de contribuir para a emancipação humana, um professor comprometido com o saber e um psicanalista que aponte caminhos para realização possível, são apostas no que a humanidade tem de melhor. E, sobretudo, em sua capacidade de contribuir com as gerações que se seguem.

O pensador vienense dizia que eram profissões impossíveis exatamente porque nada estava garantido nessas três áreas. Você pode fazer tudo como manda o figurino das regras estabelecidas e mesmo assim não conquistar nem o progresso social, nem a sabedoria e menos ainda a felicidade individual.

O desafio é enfrentar todos os problemas com coragem, reconhecer a complexidade de cada projeto humano e compreender as demandas do inconsciente. Não há palavra, mesmo revestida de poder, que venha carregada de eficácia absoluta. Ouvir é, de certa forma, discordar. Por isso as profissões da liberdade e da palavra são impossíveis para Freud.

Quem acompanhou a entrevista de Glenn Greenwald ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, deve ter saído convencido que, no Brasil de hoje, há outra profissão que corre o risco de impossibilidade: o jornalismo. Também um ofício da palavra, que visa a liberdade e trabalha com a possibilidade de intervir de forma civilizadora em seu tempo, o jornalismo foi atacado de todas as formas durante a entrevista.

Criador da página Intercept, e reconhecido em todo o mundo pela consistência de seu jornalismo investigativo e denúncia de abuso dos aparatos de Estado, ele tem levado adiante a mais importante série de reportagens da história da imprensa brasileira contemporânea, conhecida como Vaza Jato. No entanto, Glenn não foi provocado a falar do resultado de seu trabalho, mas parecia ter sido convidado para receber ataques pessoais – o que é grave – e ataques à sua profissão – o que é gravíssimo em um programa que se diz jornalístico.

Pouco mais de 10% das perguntas foram relativas ao mais grave caso de quebra das regras do Estado de Direito no país – com as denúncias de conluio, ambição e corrupção na condução da operação Lava Jato por parte do ex-juiz Sérgio Moro e integrantes da força-tarefa do Ministério Público. Os entrevistadores, representantes da chamada imprensa profissional, deixaram o conteúdo de lado para se dedicar à forma como as informações chegaram ao jornalista.

Há uma regra de ouro no jornalismo em todo o mundo e em todas as circunstâncias: se uma informação é verdadeira e tem relevância pública, ela deve ser publicada. É para isso que existe a profissão. Por isso, porque a informação é soberana, a fonte precisa ser preservada. É a regra número dois. Por fim, cabe ao jornalista dar ao seu material o máximo de confiança, compreensão, contexto e inteligência. Para isso, é preciso um esforço de checagem e uma dedicação ao texto apresentado ao leitor. Lição número três.

Foi essa aulinha básica que Glenn Greenwald precisou dar aos seus “colegas”. Havia muito a ser perguntado, tanto do resultado das reportagens, esclarecendo ainda mais a situação ultrajante do Judiciário brasileiro e de suas consequências para a vida política nacional, como até mesmo da forma como o material foi trabalhado. Mesmo nesse caso, digamos mais profissional, o programa foi de uma banalidade exemplar.

Para quem esperava uma conversa de especialistas sobre as formas de confirmação das mensagens, do trabalho de validação do material, da tecnologia envolvida, da preocupação com a segurança e da decisão de trabalhar conjuntamente com outros veículos, nada disso foi tratado com seriedade. Os entrevistadores desviaram seu interesse (ou dos patrões que representavam, partidários históricos da mitomania em torno de Moro e seus asseclas) para aspectos relativos à forma como os vazamentos foram obtidos.

O jornalista teve paciência e dividiu sua participação entre repetir as regras básicas do bom jornalismo para profissionais bisonhos e reiterar a gravidade das denúncias apresentadas nas reportagens. Em outras palavras, explicou o que era jornalismo e mostrou na prática como fazê-lo. O que há de mais grave não é a perda de oportunidade de uma discussão rica e necessária, mas o aparente consenso entre profissionais da imprensa comercial sobre os limites dados ao jornalista pelos interesses dos patrões.

Quando os profissionais passam a encarnar os valores do negócio acima dos interesses da sociedade, algo de muito grave está ocorrendo. Talvez esteja aí a saudável impossibilidade do jornalismo como profissão: a palavra final – e a liberdade que dela decorre – é devida ao leitor e não ao dono do jornal.

A Lava Jato tem uma trajetória de extermínio bem traçada: destruiu setores da economia, estripou o devido processo legal, abriu as sendas da ambição financeira e política, estraçalhou a empatia humana ao fazer sarcasmo com o sofrimento das pessoas, ajudou a eleger um fascista em troca de um cargo de ministro. O golpe contra a imprensa é mais um capítulo nessa saga devastadora.

O Roda Viva há muito perdeu a credibilidade, embora carregue em sua história momentos marcantes. Contribuiu com o debate público, abriu muitas vezes espaço para a pluralidade dos entrevistadores, teve coragem em trazer vozes dissonantes para o centro da roda. Com o tempo perdeu a dimensão republicana e se tornou chapa branca. Passou por cirurgias estéticas, mas não foi capaz de retomar sua inspiração ética. Foi sendo deixado de lado e perdendo a relevância.

Em outros tempos, a entrevista do programa era pauta de toda a imprensa no dia seguinte. O que parece que agora volta a acontecer, só que da pior forma possível. O Roda Viva chegou ao limite: joga contra sua própria natureza ao atacar o jornalismo em nome da versão oficial defendida pelos proprietários dos meios de comunicação. Um programa que mostra, pelo avesso, que nunca precisamos tanto de uma profissão impossível como o jornalismo como nos dias que vivemos.

O trabalho do Intercept é fundamental, mas ele não está sozinho. É sempre bom acompanhar a onda crescente de chegada de novos veículos populares e independentes e de profissionais dignos do ofício que escolheram. A roda da história está viva.

Edição: Elis Almeida