Reação

Movimento negro protesta em frente ao mercado Ricoy contra tortura e racismo

Na última semana, vídeos mostraram atos de violência cometidos por seguranças da rede contra jovens em São Paulo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Com cartazes e palavras de ordem, manifestantes denunciaram o racismo e a violência / Igor Carvalho

Cerca de mil manifestantes protestaram neste sábado (7) em frente a uma unidade do supermercado Ricoy no bairro Vila Joaniza, em São Paulo (SP) contra a violência e o genocídio negro. Durante a semana, vídeos mostraram seguranças do estabelecimento praticando tortura contra jovens acusados de furtar mercadorias. O mercado fechou as portas por volta das 13h, logo após o início do protesto, que foi convocado pela Coalizão Negra Por Direitos, pela União de Núcleos de Educação Popular para Negros e Classe Trabalhadora (Uneafro) e pela Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio.

As primeiras imagens de tortura nas dependências do Ricoy circularam na internet na segunda-feira (2). Na quarta, o Brasil de Fato divulgou com exclusividade mais dois casos de violência semelhantes

David Oliveira Fernandes, um dos homens investigados por torturar um jovem de 17 anos, foi preso nesta sexta-feira (6) no 80º Distrito Policial da Vila Joaniza. O outro segurança, Valdir Bispo dos Santos, permanece foragido. 

Indignação

A principal palavra de ordem dos manifestantes na Vila Joaniza neste sábado era: "Racistas, fascistas: não passarão". Em todos os pronunciamentos, os ativistas procuravam responsabilizar os patrões – e não apenas os seguranças – pelos atos de violência.

Um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), Milton Barbosa ressaltou a indignação ao ver as imagens. "Eles tratam o negro como bandido, ladrão, e infelizmente eles têm estratégia de capitães-de-mato. Porque é um processo histórico, e aí eles pegam um negro desinformado para cumprir esse papel [de violência contra outros negros]. Aí, foram 'zoar' um garoto, se exibiram na internet, e por isso o movimento está aqui. É um trabalho de conscientização para o enfrentamento ao racismo", disse.

 



Protesto em frente ao supermercado Ricoy, em São Paulo. (Foto: Igor Carvalho)

"Não é só política da empresa [Ricoy], mas é um Estado racista", acrescentou Barbosa. "Nós temos que nos organizar e exigir reparação histórica", concluiu, em referência à escravidão e suas marcas na história do Brasil.

A jornalista e escritora Bianca Santana enfatizou a gravidade da violência cometida pelos seguranças do Ricoy: "A gente vê o corpo de outra pessoa, que é um humano como nós, numa situação de tanta violência e humilhação… é terrível. Ao mesmo tempo, dá uma ânsia de vômito, uma sensação brutal do que isso traz de memória: a memória que os corpos negros trazem do que foi o passado de escravidão no Brasil. Isso nunca foi conversado como deveria. A gente nunca teve nenhuma política de reparação, e esse passado se atualiza o tempo todo, das formas mais grotescas".

"É óbvio que toda aquela dor física, quem vivenciou foi aquele garoto. Mas todas as pessoas negras têm essa memória de dor", finalizou.

Os donos do supermercado não se posicionaram sobre o ato deste sábado. Em nota, o Ricoy afirmou que “está chocado com a tortura sem sentido” e que os “seguranças não prestam mais serviços para o supermercado”. A reportagem não conseguiu contato com KRP Zeladoria Valente Patrimonial, onde atuam os terceirizados.

Edição: Daniel Giovanaz