Educação

Dias após censura na Bienal do Rio, parlamentares criam Frente em Defesa do Livro

Atualmente 44% dos brasileiros são "não leitores"; frente promete atuar para renovar acervos das bibliotecas públicas

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Frente já vinha sendo articulada desde abril, mas ganhou impulso nas últimas semanas, diante do episódio de censura à Bienal do Livro do RJ / Foto: Ricardo Borges

Foi em tom de protesto que se deu o lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro, nesta terça-feira (10), no Congresso Nacional. A iniciativa, que conta com apoio de cerca de 200 deputados e senadores, já vinha sendo articulada desde abril deste ano, mas ganhou impulso nas últimas semanas, diante do episódio de censura à Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro.  

O lançamento teve como ponto alto a apresentação de um manifesto de repúdio à postura do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), que censurou uma história em quadrinhos porque trazia a ilustração de um beijo gay. Entre outras coisas, o documento da frente afirma que “querem tornar o Brasil refém de um pensamento político difuso, reacionário e ultrapassado”.     

“Temos 30 anos do fim do fim da ditadura civil-militar, uma Constituição Federal de 1988 que garante as liberdades democráticas, o acesso à informação e uma série de direitos pro povo, mas temos governantes, com Bolsonaro, e vozes bolsonaristas que a todo momento tentam retroagir nessas liberdades conquistadas”, disse  a deputada Fernanda Melchiona (Psol-RS), que vai coordenar o grupo juntamente com o senador Jean Paul Prates (PT-RN).   

Prates destacou que a frente pretende realizar audiências públicas e debates para evidenciar as discussões sobre leitura. “Estamos vivendo um período muito ruim para a democracia, mas ainda podemos reagir. Não há como ficar olhando as coisas acontecerem contemplativamente. Temos de fazer alguma coisa. Esse ato é muito importante, porque é uma primeira reação”, completou Melchiona.     

Ela chamou a atenção para as estatísticas nacionais relacionadas ao tema da leitura: segundo a quarta edição do estudo Retratos da Leitura no Brasil, publicada pelo Instituto Pró-Livro em 2016, o número de pessoas consideradas leitoras saltou de 88,2 milhões em 2011 para 104,7 milhões em 2015, mas ainda é considerado baixo porque 44% da população brasileira estão enquadrados como “não leitores”.     

“Precisamos reverter esse quadro dramático”, disse Melchiona, apontando que a frente irá cobrar políticas de acesso ao livro e à leitura, além da renovação dos acervos das bibliotecas do país. Outro ponto da pauta do grupo deverá ser a aplicação da Lei 12.244/2010, que determina a instalação de bibliotecas em todas as escolas até o ano de 2020.

A criação da frente agradou a estudante Ana Carolina Gonçalves de Sá, de 17 anos, que prestigiou o lançamento. Em entrevista ao Brasil de Fato, ela afirmou que espera uma maior proteção à liberdade de leitura e também incentivo à prática.    

“A gente vê que está acontecendo muita coisa ruim. Então, se com a leitura a gente puder mudar um pouco de tudo que está acontecendo, seria muito bom. A importância da leitura hoje em dia, no país e no mundo, acho que é [no sentido de] revolucionar o que está machucado na nossa história”, considera.

Profissionais na área também participaram do evento. “A gente precisa que o acesso à leitura seja garantido porque é um direito. Precisa de acesso à informação, de liberdade, de acesso à ciência e tecnologia, tudo que faz com que o país se desenvolva, porque o país são as pessoas, e elas precisam se desenvolver. Esse movimento aqui no Congresso é importante porque a gente vive um momento em que a leitura precisa não só ser acessível, mas precisa resistir”, disse a presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia da 10ª Região (CRB-10), no Rio Grande do Sul, Luciana Kramer.

Edição: Rodrigo Chagas