Investigação

Livro recém-publicado analisa junho de 2013, golpe e ascensão do conservadorismo

“As direitas nas redes e nas ruas” tem como pano de fundo golpe que tirou Dilma Rousseff da Presidência

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Manifestação na Avenida Paulista, São Paulo (SP), em março de 2016, levantava bandeiras antipetistas / Rovena Rosa/Agência Brasil

Os últimos anos da história brasileira renderam intensos acontecimentos políticos e sociais.

De 2013 pra cá, tendo como marco as manifestações que tomaram as ruas das principais capitais do país naquele ano, com bandeiras à esquerda e à direita, foram incontáveis os embates políticos e as consequências na vida da população.

Entre os acontecimentos mais marcantes ao longo deste período estão o impeachment que derrubou a então presidenta, legitimamente eleita, Dilma Rousseff (PT), em abril de 2016, e a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência da República, em 2018.

Além das manifestações nas ruas, as redes sociais também ocuparam papel de destaque na mobilização da sociedade civil.

Com a proposta de dialogar sobre esses fenômenos no contexto de episódios ocorridos nos últimos anos, a Editora Expressão Popular publicou recentemente o livro As direitas nas redes e nas ruas: a crise política no Brasil.

A obra, composta por oito artigos escritos por diferentes estudiosos, busca compreender de que forma a ofensiva conservadora ganhou força entre setores da população por meio desses espaços de interação.

Para compreender melhor alguns dos principais temas abordados, o Brasil de Fato conversou com a cientista social Esther Solano e a cientista política Camila Rocha, responsáveis pela organização do livro.

Confira alguns dos temas-chave abordados nos artigos:

Militância ultraliberal

Três anos se passaram desde o golpe que derrubou a ex-presidenta Dilma Rousseff. Um ano antes do afastamento da petista, diversas mobilizações conservadoras já ocupavam as ruas pedindo sua saída. De acordo com as organizadoras da obra, é preciso deixar de lado a ideia de que apenas as tradicionais elites econômicas estavam por trás da organização.

“Empresários, setores que apoiam as políticas neoliberais, algumas igrejas evangélicas — como a Universal e a Assembleia de Deus — os militares e o Poder Judiciário com a Lava Jato. São vários setores que se juntam e arquitetam todos esses episódios”, afirma Esther Solano.

A articulação do grupo tomou de vez as ruas em uma onda de protestos através de “oportunidades políticas” que se abriram. Nesse sentido, Camila Rocha destaca a importância que tiveram as manifestações de junho de 2013.

Inicialmente puxadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo (SP), as mobilizações ganharam cores e bandeiras de diferentes campos políticos, passando por autonomistas, conservadores e pela esquerda tradicional.

“Esse pessoal já ia para a rua fazer pequenos protestos e demonstrações públicas, mas junho de 2013 foi um marco no sentido de mostrar 'agora a rua pode ser nossa também. Podemos perder a vergonha de ser direita, se dizer de direita e demandar pelas nossas pautas publicamente nas ruas como a esquerda sempre fez”, explica a cientista política.

“Lavajatismo” e  bandeira  anticorrupção

O discurso contra a corrupção estava entre as grandes reivindicações levadas para o espaço público. A bandeira ganhou força com a Operação Lava Jato, iniciada em 2014. Segundo Solano, o “lavajatismo” foi um dos principais motores que levaram a população às ruas.

“O sentimento expresso nas manifestações pró-Moro e pró-Lava Jato não foi apenas antipetista, mas também antipolítico e antissistema, o que derivou diretamente na eleição do Bolsonaro”, ressalta Solano.

“O que a Lava Jato passa como mensagem é que a política toda é corrupta, o Estado todo é corrupto por natureza. Isso tem como consequência a negação da atividade política”, completa a professora da Unifesp.

Publicação faz parte do projeto Clube do Livro, da editora e livraria Expressão Popular (Foto: Brasil de Fato)

Solano afirma ainda que o "lavajatismo", com a ideia de justiça “salvacionista”, foi o primeiro passo para a candidatura de Bolsonaro, candidato que tentou se mostrar um “outsider”, ou alguém diferente dos demais representantes políticos.

Com a ajuda da mídia comercial, o tema se fixou no repertório da população. A cientista social argumenta que a imprensa foi promíscua com a operação da PF. “A Lava Jato é a justiça do espetáculo, é uma coisa folclórica, teatral, muito espetacular”, avalia.

Redes sociais

Outro tema central abordado no livro As direitas nas redes e nas ruas é a internet e sua participação no recente período político. Diversos grupos de direita usaram o espaço virtual das redes para a disputa de ideias e para chamar a população às ruas. O principal deles é o Movimento Brasil Livre (MBL).

Nesse contexto, Camila Rocha destaca que a internet se constitui como uma ferramenta “paradoxal”.  

“Ao mesmo tempo em que a internet permite que mais pessoas falem e tenham a possibilidade de serem ouvidas, o que é uma coisa democrática, porque mais gente está participando do debate público; por outro lado, ela [a internet] pode potencializar dinâmicas de segregação, retroalimentação de certas informações e percepções do mundo”, defende a doutora em Ciência Política.

Além disso, Rocha faz um alerta para o fenômeno das chamadas “bolhas” criadas pelas redes sociais, que, na prática, deixa o usuário cercado por outros internautas que compartilham da mesma visão que ele.

“Se as pessoas perdem a capacidade de produzir consensos e percepções compartilhadas sobre a realidade, isso é muito complicado para a democracia.”

A obra As direitas nas redes e nas ruas: a crise política no Brasil dialoga com estes e outros temas relacionados com os últimos anos da história brasileira. A publicação faz parte do projeto Clube do Livro da editora Expressão Popular e está disponível para venda no site da livraria.

Edição: Geisa Marques