TRANSPORTE

Witzel decide "aterrar" obras do metrô e desperdiça R$ 900 mi dos cofres públicos

Segundo o governador, seria necessário mais de R$ 1 bilhão para o término da estação da Gávea, na zona sul

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Decisão do governador Wilson Witzel (PSC) surpreendeu população fluminense; obras da estação da Gávea já estão 40% concluídas / Divulgação

A população fluminense foi surpreendida na semana passada pela decisão do governador Wilson Witzel (PSC) de aterrar o buraco da estação de metrô da Gávea, na Zona Sul do Rio, e não dar continuidade às obras, que já custaram R$ 900 milhões aos cofres públicos. Segundo Witzel, seria necessário mais de R$ 1 bilhão para o término da estação.

Administrador da página “Metrô que o Rio precisa” no Facebook e ex-coordenador de transporte em gestões municipais passadas, Atílio Flegner publica frequentemente mapas de projetos antigos de expansão metroviária. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirmou que pelos gastos e pelo bem da população a intenção do governador não se justifica.

“Mais de 40% das obras estão concluídas. O túnel de São Conrado à Gávea está praticamente pronto, tem até trilho e faltam apenas 10 metros para chegar à estação. Só não abriram o buraco para que a água que colocaram não invada o túnel”, explica Flegner, acrescentando que faltam 1.200 metros para ligar o Leblon à estação da Gávea, “o que é muito pouco em termos de metrô”, afirma ele.

Apesar de denúncias de corrupção e falta de planejamento nas obras do metrô fazerem parte de governos passados, o pesquisador do Observatório das Metrópoles, Juciano Rodrigues, diz que a decisão de Witzel mostra a incapacidade do governo em pensar políticas eficientes para a população e o transporte público.

“O governo pode até dizer que está resolvendo um problema do governo passado, mas ele mostra que não tem capacidade de apontar caminhos e soluções. O governador tinha consciência desses problemas quando se candidatou, e isso em curto e médio prazo vai se refletir no custo e na qualidade de vida da população”, afirma Rodrigues, doutor em urbanismo vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Projeto

Um mapa de expansão do metrô do final da década de 1970 mostra que o projeto original tinha seis linhas, uma delas passando por Niterói e chegando a Itaboraí, na região metropolitana. Os únicos trechos concretizados são a Linha 1 (Uruguai – General Osório), a Linha 2 (Pavuna – Botafogo) com modificações, e um trecho também alterado e reduzido da Linha 4 (Ipanema - Barra da Tijuca). 

“Na Linha 2, estavam previstas as estações Catumbi, Cruz Vermelha e outro nível na Carioca. Do jeito que está, com a Linha 2 entrando na Linha 1, o sistema fica muito prejudicado, sobrecarregado. O intervalo entre os trens na Linha 1 deveria ser de 90 segundos, mas às vezes chega a 10 minutos”, aponta Atílio Flegner.

O administrador da página “Metrô que o Rio precisa” conta ainda que a Linha 4, onde está a estação Gávea, não tem o trajeto original, que deveria fazer o caminho pelas seguintes estações: Jardim Oceânico, São Conrado, Gávea, Jardim Botânico, Humaitá, Botafogo. Mas o governo estadual resolveu “esticar” a General Osório, em Ipanema, até Jardim Oceânico, na Barra.

Apontado por especialistas como o transporte mais eficiente em cidades de grande porte, no caso do Rio de Janeiro, o metrô da capital fluminense tem apenas 50 quilômetros de extensão. Em projetos antigos, a ideia é que em 1990 a expansão do metrô do Rio já tivesse chegado a 67 quilômetros de linhas.



Projeto da década de 70 era mais amplo e expectativa era de 67 quilômetros de linha em 1990 contra 50 quilômetros atuais/ Crédito: Metrô que o Rio precisa

Desmentido

Nesta terça-feira (10), o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) disse que a justificativa do governador Wilson Witzel (PSC) para aterrar a estação e interromper as obras por conta de bloqueio dos recursos não procede.

"O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) vem a público esclarecer que não existe qualquer decisão plenária da Corte de Contas que impeça o Governo do Estado de aportar recursos nas obras da Estação Gávea da Linha 4 do metrô, ao contrário do que vem sendo divulgado pelo Governo. A decisão cautelar que determinava a retenção de créditos da concessionária foi revogada em 09/01/2018, quando foi autorizada a liberação de recursos sob condicionantes", afirma a nota.

Edição: Mariana Pitasse