Minas Gerais

Coluna

Sabemos porque o medo é real, sabemos o quanto dói não poder andar livremente

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"Fomos coisificados enquanto negros. As mulheres negras, em particular, sofreram esse processo de forma ainda mais violenta"
"Fomos coisificados enquanto negros. As mulheres negras, em particular, sofreram esse processo de forma ainda mais violenta" - Foto: Mídia Ninja
Brasil tem 2º maior população negra do mundo e ainda não nos percebe

Eu sou Makota Celinha Gonçalves uma mulher negra, candomblecista, mãe de um jovem negro rastafári, sei e sinto na pele por mim e por meu povo com todas as entonações possíveis, o efeito perverso da violência e do ódio, hoje infelizmente tão comuns em nosso país. Participei da atividade de instalação da Mesa Nacional de Diálogo Contra a Violência, promovida pela Comissão Dom Paulo Evaristo Arns de Defesa dos Direitos Humanos e OAB, entre outras entidades, em Brasília, no mês passado.

Essa iniciativa é muito importante, principalmente para nós negras e negros que somos as maiores vítimas dos crimes de racismo, intolerância religiosa, homofobia, violência policial e feminicídio. Venho de uma tradição religiosa que compreende o outro enquanto sujeito de direitos, completo, complexo e humanizado. Por isso nos é tão difícil entender porque tanto ódio, tanto preconceito contra o outro, que nos é tão semelhante, diferente apenas por ser único, numa total sinfonia de diversidade.

Os poderosos de nosso país não honram a ideia de ser o Brasil uma pátria mãe gentil. A história do país é a história da negação dos negros, dos mais pobres. Forjaram um país de grandes diferenças sociais e econômicas, onde uns cada vez têm mais e outros cada vez têm menos. Um país marcado pela violência e desrespeito à democracia, à liberdade. Onde sonhar por um país mais justo, igualitário e fraterno se torna perigoso.

Nosso país é jovem, mas traz em si marcas profundas do desrespeito aos mais simples. Um país que tem a segunda maior população negra do mundo e que ainda não deu conta de nos perceber e nos tratar como iguais em direitos. Um país construído pelo sangue negro escravizado, onde quem se aproveita desta construção é uma pequena elite branca, que nega sua história. Um país que tinha tudo para ser uma das maiores nações do mundo, mas que ainda mata sua gente, pelo simples prazer de eliminar os que pensam diferente. Em nosso país, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado por arma de fogo. O extermínio em massa da juventude negra é a face mais cruel e perversa do genocídio do povo negro no Brasil.

A história nos traz dados suficientes sobre a forma como as negras e os negros foram e são tratados nas Américas. Fomos coisificados enquanto negros. As mulheres negras, em particular, sofreram esse processo de forma ainda mais violenta, não tendo direito ao próprio corpo, ao amor e à família, sendo tratadas por longos períodos da história como objeto constante do abuso sexual e social dos senhores de engenho. Essa violência perpetrada contra as mulheres negras é ainda recorrente na atualidade, por meio da violência doméstica, social e econômica. Basta vermos os dados estatísticos, em que a mulher negra figura como uma das maiores vítimas do feminicídio. 

Viemos ao longo de décadas buscado a construção de um mundo melhor, sempre atuando na defesa intransigente de nossos direitos. Vimos muita gente linda brotar na consciência negra, gente que hoje colore nosso país com as alegres cores da diversidade. Vimos o renascer da democracia, após anos de opressão e ditadura. Sabemos porque o medo é real, sabemos o quanto dói não poder andar livremente, não poder rezar e até mesmo dançar. Assim como muitos de nós, não vivi os anos de chumbo em sua totalidade, não fui torturada, e não preciso ter vivido esta dor para poder falar que não a merecemos de novo.

Tenho medo pelo meu filho, pelas filhas e filhos de meus amigos e também dos que nem são meus amigos; tenho medo pelo senhor, pela senhora, pelo jovem; tenho medo do passado cruel que teima em querer voltar. Tenho medo pelo que sei, pelo que vivi e também pelo que milhões de brasileiros tiveram que viver.

Mas esse medo pode e deve ser vencido, pela esperança de inversão. Quero trocar o ódio, o desprezo, o racismo, a homofobia e o machismo que vejo nos olhos dos que nem sabe o real motivo de tê-los, pelo amor e pela razão. Pela serenidade de compreender a diversidade, de entender que a outra e o outro só é a outra e o outro porque não sou eu. Mas que somos todas e todos iguais em direitos e deveres.  Quero falar com todos os brasileiros, independente da fé que professam ou não, cidadãos e cidadãs de bem: eu não sou cristã; mas isso não me faz melhor ou pior que ninguém. Me faz diferente em meu direito de ser.

Nós, das tradições de matriz africana, nunca saímos de nossas casas para quebrar nenhum outro templo, ou mesmo para catequisar e conquistar fiéis - até porque esta prática não condiz com o que acreditamos sobre liberdade, entrega, doação. Dói muito ver nossos templos depredados, nossos sagrados quebrados, vilipendiados. É uma dor excruciante, sem paralelos, é como se arrancassem de nós um pedaço e nos deixassem aleijados de nossa subjetividade. Sobreviver a isso tudo tem sido muito difícil e dolorido. Mas sobreviver é necessário, até porque nossa fé é maior que a empáfia e a prepotência dos que se acham melhores.

Infelizmente, as pessoas têm usado o nome de Deus e de Jesus para oprimir, matar, depredar, o que é uma não profissão de fé. Jesus foi uma pessoa, um homem que merece de todas e todos nós nosso mais profundo respeito. Pelo pouco que estudei dele e de sua história, ele veio para salvar os doentes, não os sãos; os impuros, não os puros; viveu entre o que hoje chamariam de escória, mas viveu intensamente, tanto que até se doou. Disse para dar a César o que era de César, a Deus o que era de Deus e morreu em nome do amor. Portanto, não consigo compreender que em nome desse homem, 2019 anos após seu nascimento, haja pessoas que caminham pelo caminho do ódio, que pregam a morte através do armamento civil, que defendem a família, mas aceitam a homofobia e pedem a morte dos gays.

Nesta hora, minha gente, não tem como ficar em cima do muro, é sujar as mãos em sangue de seus irmãos, ou acreditar que a democracia ainda é a melhor solução. Não cabe nesses momentos a dúvida. A democracia tem lado sim e nós sabemos disso. De forma inocente ou não, o Brasil pode fazer parte de uma história. A mesma história da ascensão da Alemanha nazista, que veio de um desejo muito grande de mudança e de uma sociedade doente e cansada, que jogou suas fichas no “novo”, que acreditou na mudança e na transformação que Hitler traria e deu no que deu. A segunda Guerra mundial e a morte de milhões de pessoas, que traziam consigo apenas a marca de ser diferente do sonho prepotente de uma raça ariana.

Fácil não é. Aliás, a vida não é fácil. O que não significa que não valha a pena ser vivida. A vida é bela e merece ser vivida em plenitude, por isso escolher o que queremos neste momento é a chave para um novo futuro. Um futuro de inclusão, de participação, de democracia, ou um futuro sem esperanças para os mais pobres, os negros, as mulheres, indígenas, quilombolas e a comunidade LGBTQI.

É só colocar os pingos nos “is”, prestar bem atenção nos detalhes que às vezes não queremos ver e principalmente acreditar que mudança para valer começa inclusive em nós. Em nossos desejos e em nossas posturas. De nada adianta falar o que não pratico, o que não vivo. Se tenho uma fé, seja ela qual for, ela tem que ser uma fé viva. Por isso, estamos aqui construindo na diversidade que esta Mesa de Diálogo representa a esperança e certeza de que sozinhos podemos ir rápido, mas juntos chegaremos longe.

Edição: Joana Tavares