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Venda de partes da Petrobras vai na contramão das tendências do mercado

Grandes petrolíferas têm atuado em todos os ramos do petróleo, enquanto governo defende “enxugamento”

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Rede Total, da França, adquiriu no ano passado os postos Zema e é um dos interessados na compra da Regap / Foto: Reprodução

Ao declarar, no mês de julho, o interesse na venda da Regap e de outras refinarias, o presidente da Petrobras, Roberto Castelo Branco, disse haver interessados potenciais na aquisição das unidades. Analistas sugerem que um grande comprador da unidade de Minas Gerais, a Regap, pode ser o grupo Total S.A., presente em 130 países e com sede na França. Os negócios do grupo abrangem toda a cadeia do petróleo: exploração, produção, prospecção, refinamento, distribuição, trading e transporte marítimo. 

Em novembro de 2018, o grupo Total ingressou na distribuição de combustíveis no sudeste brasileiro, ao adquirir por R$ 500 milhões a Zema Petróleo, a Zema Diesel e a Zema Importação, pertencentes ao hoje governador de Minas, Romeu Zema (Novo). Em 2014, a Zema, agora propriedade do grupo Total, iniciou operações juntamente com outras três distribuidoras, no Condomínio RBZ, que possui ligação direta com a Regap. 

Verticalização 

A presidência da Petrobras alega que, ao vender as refinarias, vai poder se concentrar na exploração e produção de petróleo e gás, abrindo mão de outras áreas, como o refino, transporte e distribuição, tornando a empresa “enxuta”, com menos investimentos e menos trabalhadores empregados. 

Segundo o economista Rodrigo Leão, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), essa ideia vai na contramão do que têm feito as grandes petrolíferas em todo o mundo. Elas buscam atuar verticalmente, desde a retirada do petróleo do mar ou terra até a venda de derivados. 

Em primeiro lugar, as petrolíferas fazem isso para aumentar o potencial de acumulação de capital. “À medida em que avança dentro da cadeia petrolífera, você está agregando valor aos produtos. Gasolina, diesel e outros derivados custam mais caro que o petróleo cru”, explica. 

Ainda segundo o economista, no setor petroquímico, algumas áreas são mais sensíveis do que outras a flutuações nos preços e demandas. “É preciso atuar em todos os segmentos para ter flexibilidade. Isso pode ajudar a sofrer menos com mudanças no mercado. Hoje, a Petrobras está desconsiderando esses aspectos e fazendo uma aposta de alto risco no preço do petróleo em um patamar x, ficando só na área de extração”, adverte.

Redução da dívida poderia ser feita de outro modo

Durante o governo de Dilma Rousseff (PT), a dívida da Petrobras cresceu consideravelmente. Entre os fatores que levaram a um maior endividamento, está o fato de que mais de 80% da dívida está cotada em moeda estrangeira, sobretudo o dólar, que passou de R$ 1,56 em 2011 para R$ 3,97 em 2015. Além disso, houve uma queda razoável no preço do barril. Ademais, a Petrobras também fez grandes investimentos para viabilizar o pré-sal e adotou uma política de preços que gerou certo ônus para a empresa, mas proporcionou combustíveis mais baratos para a população.  

Desde a gestão de Pedro Parente, no governo Temer (MDB), seguido por Castello Branco, no governo Bolsonaro (PSL), alega-se que a fórmula para diminuir a dívida no curto prazo é vender ativos, entre os quais as refinarias. Porém, se com Parente predominou a estratégia de priorizar o lucro dos acionistas da Petrobras - o que envolveu uma política de preços que encareceu o gás, a gasolina e diesel para os brasileiros - atualmente, a estatal é reduzida a mero fundo financeiro para captar receitas. 

Para o economista Rodrigo Leão, há sérios equívocos nessa política de redução da dívida no curto prazo. “O processo de redução de dívida pode acontecer de maneira mais suave do que vem ocorrendo. O problema é que a Petrobras decidiu reduzir essa relação muito rápido, em três anos. Para fazer isso, você tem que vender um volume de ativos para gerar receita”, observa. O governo teria alternativas mais racionais do que abrir mão de segmentos importantes. “Há instrumentos públicos como os bancos para financiamento, sem necessidade de vender ativos”, aponta.

Edição: Elis Almeida