Orgânicos

Coletivos levam comida saudável a “desertos alimentares” em São Paulo

Pouca oferta de alimentos in natura e ações da indústria fazem das periferias alvo fácil de produtos ultraprocessados

São Paulo

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Coletivos levam alimentos saudáveis às periferias de SP / Juliano Vieira

“A gente aprendeu o que era um deserto alimentar e aquilo ficou na minha cabeça ‘nossa eu não acredito que eu moro nesse lugar, não acredito que minha comunidade vive a maior parte da vida em um posto de saúde por conta da alimentação'” conta Thiago Vinicius, cofundador da Agência Solano Trindade e do Armazém Organicamente, primeiro ponto de venda de orgânicos da periferia de São Paulo. O armazém fica na região do Campo Limpo, zona sul.

Para a Organização Mundial da Saúde, regiões nas quais as pessoas precisam andar mais de 400 metros para encontrar alimentos in natura - obtidos diretamente de plantas ou animais sem que tenham sofrido alteração depois de deixarem a natureza, como folhas, legumes, ovo e leite - são considerados Desertos Alimentares.

“Deserto alimentar é um conceito que foi colocado nos EUA há mais de 10 anos, quando começaram a perceber que áreas de baixo nível econômico ou segregadas racialmente tinham poucos lugares para compra de alimentos ditos saudáveis e chegaram a hipótese que isso estaria determinando a escolha das pessoas: se eu não tenho onde comprar talvez eu não faça as melhores escolhas”, explica Ana Clara Duran, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação na Universidade Estadual de Campinas Unicamp. 

O consumo de alimentos de má qualidade como refrigerantes, biscoitos recheados e salgadinhos, os chamados ultraprocessados, pode levar a quadros de subnutrição - que nem sempre está associada à fome ou à falta de comida. Uma pessoa pode se alimentar com frequência, e até estar acima do peso, e isso não significa que ela estará bem alimentada.

“As pessoas aqui têm que andar mais de 500 metros da sua casa para encontrar um alimento in natura. Imagina, você ter que andar 500 metros pra encontrar uma alface, um cheiro verde? Este andar desmobiliza as pessoas", conta Thiago Vinícius.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde é a ingestão diária de 400 gramas de frutas e hortaliças.

“A gente vive em um território em que tem pessoas que morrem de fome e pessoas que estão todo dia no fastfood. Porque nunca teve fastfood aqui, e agora a gente tá vivendo uma explosão de fastfood”, afirma Vinícius.

Pântanos Alimentares

Mais recentemente um novo conceito tem sido levado em consideração, principalmente para a realidade brasileira: os pântanos alimentares, áreas em que há competição entre os alimentos in natura e os processados e ultraprocessados. 

“Esses locais de baixa renda têm lugares onde comprar comida, só que em menos quantidade”, afirma a pesquisadora Duran.

Mas não são apenas a distância geográfica e a baixa renda que determinam a escolha do produto a ser consumido: a falta de informação, a publicidade e a correria da vida cotidiana também contribuem.

“O tempo das pessoas hoje está muito escasso. Acaba entrando essa questão do trabalho da exploração do trabalho e o que você vai comer em casa” pontua Thiago Vinícius.  

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2017, somente 40% dos brasileiros consomem frutas e hortaliças todo dia. A pesquisa ainda mostra que a região Sudeste e pessoas com maior escolaridade e das classes A e B (acima de 10 salários mínimos) são os que mais consomem.

Esse é um padrão que vêm se repetindo. Em 2008, uma pesquisa realizada pela Cepea - Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP, mostrou que pessoas com rendimento mensal de até dois salários mínimos consumiam 15,3 Kg de frutas em um ano; já entre os com renda superior a 15 salários mínimos, o consumo era de 59,2 Kg.

Indústria e marketing

Tereza Campello, titular da pasta do Desenvolvimento Social e Combate à Fome durante os governos Dilma Rousseff (PT), fala sobre o papel das grandes indústrias alimentícias e da publicidade ligada a elas.

“Em geral, as pessoas costumam achar que o território é um território de baixa renda e por isso não interessa a determinadas redes de supermercados irem pra ele. Só que tá indo pra lá uma alimentação de baixíssima qualidade”. E completa “A indústria se aproveita da falta de informação para vender o que tem de pior, de menos sustentável, que é o alimento ultraprocessado, cheio de sal, cheio de açúcar, cheio de gordura”.

O marketing muitas vezes tem responsabilidade central na escolha por tais alimentos - mesmo quando a pessoa tem à mão comida saudável e barata, como arroz e feijão. 

“As pessoas de menor escolaridade estão menos protegidas desta publicidade, elas têm menos acesso à informação e acabam muitas vezes, mesmo tendo uma restrição orçamentária, priorizando, por exemplo, uma bebida láctea cheia de açúcar e corantes, que nem iogurte é, ao invés de comprar leite in natura ou fazer o iogurte em casa”, afirma Ana Clara Duran.

“Quem vai no supermercado vê: onde estão os produtos mais chamativos e de pior qualidade? Justamente naquelas prateleiras que as crianças têm acesso”, lembra Tereza Campello.

Distribuição

A indústria de ultraprocessados também tem a seu favor a distribuição para os pequenos comércios nos bairros. A facilidade de armazenagem desses produtos e benesses que as empresas disponibilizam aos bares e mercadinhos de localidades mais afastadas, ajudam a explicar o consumo elevado.

“As grandes distribuidoras de bebidas estão em todos os lugares. Eles têm uma política de suprir a geladeira, o que, às vezes, é um limitante do mercadinho de bairro. Eles não podem manter muito alimento fresco por que não têm refrigerador para mantê-los. Aí você vê a geladeira da Coca-Cola, da Ambev”, elucida Duran.

O estudo Mapeamento dos Desertos Alimentares no Brasil, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento Social em 2018, mostra que 89% dos estabelecimentos de venda de alimentos em 2016 eram de pequeno porte.

“A gente já vê o lobby aí, e isso vai trabalhando o imaginário na cabeça das pessoas que elas precisam comer só aquilo”, comenta Thiago Vinícius. 

Periferia

Inaugurado há dois anos na Zona Sul de São Paulo, o Armazém Organicamente investiu na agricultura familiar mais de R$ 20 mil, de acordo com Thiago Vinicius. Por semana, o empreendimento vende entre R$ 500 e R$ 1.000. “A gente funciona quinta, sexta e sábado, perto do terminal, em um horário que o morador para aqui, compra e já vai pra casa”. 

A cozinheira Cleonice, conhecida por Tia Nice, comanda um outro projeto da Agência Solano Trindade, a Cozinha Criativa, no qual ela aproveita os alimentos que não são vendidos no Armazém. 

"Reaproveitamento alimentar. Pra venda já não é legal, mas pra gente… Pra suco, para salada, para feijoada vegana, para tudo isso ainda funciona. Agora, para venda ela já não funciona, aí a gente reaproveita”.

Esse não é o único projeto que Tia Nice e a Cozinha Criativa participam. Mensalmente, ocorre na zona oeste da capital paulista a Feira Agroecológica e Cultural de Mulheres no Butantã. “A gente tem uma reunião uma vez por mês que a gente faz uma semana antes da feira, para ver a onde a gente vai pegar os orgânicos. Aí chega até a feira domingo de manhã tudo fresquinho”, conta.

A Feira é coorganizada pela Associação Nacional Reggae, pelo NESOL e pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP (ITCP/USP). Ela faz parte da Rede de Economia Solidária e Feminista (RESF).

Tem aceitação do público? Tia Nice garante que sim. “A feijoada vegetariana todo mundo já espera ela uma semana antes. Muito bem aceita”.

Alternativas

As iniciativa têm atraído também empresários do setor de alimentação, como Fernando Saraiva, dono do buffet Chef Orgânico na região do Campo Limpo, que passou a se abastecer no Armazém Organicamente. 

Antes, ele gastava três horas parar comprar orgânicos na Água Branca, zona oeste de São Paulo. “A minha empresa é aqui no Campo Limpo e eu moro no Campo Limpo, então, pra mim facilitou bastante tendo esse ponto de orgânico com preço mais competitivo”.

Para além da qualidade dos alimentos, Saraiva destaca a função social do Armazém Organicamente: “A maioria dos fornecedores vem de agricultura familiar e de cooperativas. É um ponto de divulgação e de conscientização” conclui.

Políticas públicas

O Direito Humano à Alimentação Adequada é assegurado pelo artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) e pela Emenda Constitucional nº 64 no artigo 6º da Constituição brasileira.



“Se a indústria não vai fazer isso, ela mesmo se autorregular, a quem caberia garantir que essa situação mudasse? ao Estado. O Estado tem que passar a regular a produção, a distribuição e a venda de alimentos, em especial aquilo que é vendido para a população de baixa renda” defende Tereza Campello.

O Brasil vive um desmonte do setor desde o golpe de 2016, que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT), e que se aprofunda com a atual gestão de Jair Bolsonaro (PSL).

“Houve muitos desmontes nos últimos meses, o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) diminuiu a praticamente zero o aporte de dinheiro para crédito da agricultura familiar. O investimento em outra política muito importante, o Programa de Aquisição de Alimentos, já vem caindo nos últimos três anos e praticamente está inexistente hoje. Essa política ajudava a produção de agricultores familiares a chegar às escolas e instituições públicas”, lembra Duran

A pesquisadora ressalta ainda os ataques ao Programa Nacional de Alimentação Escolar e as idas e vindas do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), extinto por Bolsonaro em janeiro e recriado em maio após muita pressão. 

Saídas

A exemplo da reinstauração do Consea, as mobilizações populares e institucionais têm conseguido avanços no Brasil e no mundo.

Duran destaca a importância de se criar “políticas que façam com que nossas escolhas sejam mais saudáveis”, como as de tributação, por exemplo, que aumentem o preço desses ultraprocessados em relação ou alimentos in natura e minimamente processados.

“Há algumas experiências fora do Brasil, no México, nos Estados Unidos, na Inglaterra, África do Sul, que tributaram bebida açucarada, refrigerantes por exemplo, e bastou aumentar o imposto desses produtos que caiu o consumo”.

A restrição da publicidade é outro caminho, limitando, por exemplo, o uso de imagens lúdicas nas embalagens. “O Chile implementou essa política há alguns anos. O cereal matinal que a gente come e que tem o Tigre na frente, lá a embalagem não tem um tigre na frente. Até bolachas recheadas, lá não vai ter o personagem infantil”. 

Também se discute melhorar a informação nutricional nos rótulos doa alimentos.

“A Anvisa está discutindo agora atualizar a rotulagem nutricional de forma a colocar mensagens na frente, avisos [com as mensagens] alto em açúcar, alto em sódio, alto em gordura saturada”, diz.

Outro bom exemplo brasileiro vem do estado de Minas Gerais, que acabou de implementar uma lei que restringe a venda de diferentes ultraprocessados nas escolas, tanto públicas, quanto particulares, lembra Duran.

Tereza Campello no entanto ressalta: “A população tem que voltar a se organizar por esse tema, que não é só fome, mas alimento saudável e sustentável”.

Edição: João Paulo Soares