PRIVATIZAÇÃO

Unidade da Cemig é fechada em BH, prejudicando trabalhadores

Eletricitários criticam medida e afirmam que o sucateamento do serviço é estratégia para a venda da estatal

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Audiência pública sobre o assunto foi realizada na noite de terça (24), na ALMG / Sarah Torres

“Você que mora em Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Sabará, Vespasiano, Lagoa Santa, Caeté, Jaboticatubas, São José da Lapa, Santana no Riacho e Taquaraçu de Minas saiba que a Cemig está te abandonando”, afirmou o eletricitário Jairo Nogueira Filho, secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Minas Gerais, em audiência pública, realizada na noite de terça (24), na Assembleia Legislativa, na capital mineira.

Jairo se refere ao fechamento da base São Gabriel, responsável pelo atendimento de cerca de 1 milhão de pessoas do Vetor Norte e mais 10 municípios na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A medida foi tomada pelo governo Romeu Zema (Novo) no início deste mês. “Não há nenhuma justificativa para esse fechamento. Só piorar o atendimento, ainda mais agora que vamos entrar no período chuvoso. Pode ser que no ano que vem, caso haja um referendo com relação à Cemig, a população vote a favor da venda da estatal”, avalia Jairo. A Constituição de Minas Gerais prevê a realização de um referendo para consultar a população sobre a venda de empresas públicas.

Na base São Gabriel estavam alocados 136 trabalhadores, entre funcionários administrativos e operacionais, estes responsáveis por serviços como ligações, religações, cortes e ações emergenciais, como cabos partidos e indisponibilidade de energia. Todos foram transferidos para a unidade da Cemig do Anel Rodoviário, localizada no bairro Camargos.

Privatização em curso

Além de gerar transtornos para os trabalhadores, que antes gastavam em média 30 minutos para chegarem ao trabalho e hoje demoram cerca de 2h20, a medida está relacionada à precarização do serviço oferecido como forma de justificar a privatização da empresa, medida já sinalizada pelo governador do estado.

Segundo Jefferson Leandro, diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais (Sindieletro-MG), a tentativa de venda da Cemig não é algo novo no estado. Nos anos 1990 e 2000, houve ações parecidas dos governos em desmerecer a imagem da Cemig, como uma empresa que atrapalha o desenvolvimento de Minas e de tornar o atendimento à população cada vez pior.

Em todas as vezes, os trabalhadores reagiram e se posicionaram contrários à venda e ao fechamento das bases. Segundo o sindicalista, no início deste ano, Zema anunciou o fechamento de 50 bases em todo o estado e não abriu o diálogo com a categoria. “O fechamento das bases distancia os eletricistas dos consumidores de energia elétrica. Por exemplo, na cidade de Araxá, que era atendida por Campos Altos, agora os eletricistas têm que se deslocar de Uberaba para atender a cidade”, conta Jefferson. As bases da Cemig foram projetadas para conseguir atender os municípios com rapidez, seguindo os indicadores estabelecidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Para a deputada Beatriz Cerqueira (PT), a decisão de fechar a unidade São Gabriel foi tomada pela direção da empresa de uma sexta para uma segunda feira, sem comunicação com os trabalhadores. “Quem trata trabalhador assim?” questiona a deputada, que critica também a perspectiva de vender a estatal. “A Cemig é uma empresa lucrativa. Acho que só aqui em Minas tem um empresário que deprecia o que ele quer vender. Zema faz isso, diz que a Cemig é péssima, que não funciona, que não atende o povo. Será que ele faz isso nas lojas dele?”, completa. Em agosto, a Cemig divulgou que obteve lucro de R$ 2,114 bilhões no segundo trimestre deste ano.

Justificativa

O diretor-presidente da Cemig, Cledorvino Belini, presente na audiência pública, justificou que o fechamento da unidade de São Gabriel é necessária para cortar gastos e aumentar a “eficiência e a competitividade” da empresa. Para ele, a medida não vai modificar o serviço prestado e nem irá prejudicar os trabalhadores. “Tanto faz se eles [trabalhadores] estão no São Gabriel ou no Anel. O importante é que temos unidades móveis em todos os locais. Além disso, a maior densidade de necessidade de atendimento está do lado do Anel. E com relação aos trabalhadores, estamos cumprindo a lei e o contrato de trabalho”, afirma o presidente.

A economia prevista será de R$ 1,2 milhão por ano, valor necessário para a manutenção total da unidade São Gabriel. “Coincidentemente, é a mesma despesa que a empresa tem com o salário do presidente da empresa. Ou seja, um funcionário gasta o mesmo que uma base inteira em um ano. E pior, uma base que tem uma arrecadação para a empresa de mais de R$ 2 bilhões por ano”, critica Jairo.

O presidente da Cemig ainda afirmou ainda que, com a venda do prédio, poderá entrar em caixa cerca de R$ 12 milhões.

Edição: Joana Tavares