Será mesmo que quadrinho é coisa de criança?

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Mosaico Cultural

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O mercado dos quadrinhos tem aumentado ao longo dos anos no Brasil / Fotos Públicas
Conheça o trabalho das quadrinistas Jessica Groke e Camila Padilha

Entre as muitas formas de comunicação por meio da arte, estão os quadrinhos. A mistura de imagens e texto em sequência existe desde a pré-história e hoje é mundialmente reconhecida como a nona arte.

No Brasil, o mercado dos quadrinhos é bem menos disseminado que o da literatura, muito porque foi vendida a ideia de que os desenhos abordam uma linguagem infantil. Mas não é bem assim!

A quadrinista e artista visual Jessica Groke, vencedora do Troféu HQMix na categoria de Novo Talento - Roteirista com a obra “Me Leve Quando Sair”, destaca que suas raízes no quadrinho vieram de um anseio.

“Ia em várias palestras e queria muito fazer um quadrinho, mas não tinha coragem, achava que qualquer coisa que eu fizesse ficaria muito ruim e que eu não tinha nada de bom para falar. Em 2018, eu lancei o Me Leve Quando Sair, meu primeiro quadrinho, e foi um sucesso. Só confirmei uma grande vontade que eu estava cultivando há muitos anos, que era a vontade de fazer quadrinhos. Eu sabia que queria muito, mas por milhões de motivos, eu achava que não era para mim”, destaca a autora.

Indicada na categoria de Melhor Webtira (as tirinhas produzidas para a internet) com “Aliens of Camila”, também pelo Prêmio HQMix, a autora Camila Padilha explica que o processo de se envolver com os quadrinhos veio do anseio de desenhar enquanto ainda era criança. De acordo com ela, tornar o hobby uma profissão foi uma surpresa.

“Impressionante como eu estive a minha vida inteira fazendo quadrinhos durante vários períodos da minha vida, brigando com os meus professores porque eu queria estar desenhando na sala, e nunca me liguei que eu pudesse ser uma quadrinista, é curioso isso! Eu nunca pensei que isso pudesse ser uma profissão”, comenta Camila.

Ambas as autoras estiveram presentes no Prêmio HQMix. Ao subir ao palco, Jessica relembrou o público o papel que as mulheres podem exercer no meio dos quadrinhos. “A gente, como mulher quadrinista, existe uma tendência às pessoas sempre colocarem o nosso gênero ou nossa performance de gênero na frente do trabalho que a gente está mostrando. As pessoas criaram um gênero fantasioso que elas acham que abarca tudo, que é o 'quadrinhos femininos', ou 'quadrinhos de mulheres' e isso não existe”, relembra.

Esse é um pensamento compartilhado por Camila, que está com o quadrinho "Ônibus da Madrugada” na Benfeitoria (projeto de financiamento coletivo). Apesar de não ter chegado ao pódio, a indicação mostra que as mulheres vem ganhando espaço.

“Eu tenho um trabalho que, particularmente, não considero tão subversivo, mas que para algumas pessoas, eu sei que é. Eu sei que é polêmico, mas saber que esse tipo de trabalho, que é feminista, tem espaço nessas instituições tão tradicionais. E o mercado, a cena toda aqui no Brasil, é um mercado um tanto quanto conservador. O público não está habituado a ver quadrinhos de diferentes temáticas que não sejam super-heróis. Geralmente, as pessoas acham que todo quadrinho é para criança e a gente tem uma tonelada de trabalhos diferentes”, afirma a quadrinista.

Por muito tempo, os quadrinhos foram considerados como conteúdo feito para crianças — até hoje, são reconhecidos como “gibis”, associados ao trabalho de Maurício de Souza nas revistinhas da Turma da Mônica

Mas hoje, fica evidente que esse conteúdo vai para além disso. É por meio dos quadrinhos que podemos vivenciar realidades e conceitos que saem da esfera infantil e permitem expressar sentimentos com mais maturidade.  

 

Edição: Michele Carvalho