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Quantos trabalhadores foram explorados para você ter seu celular?

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30 de Setembro de 2019 às 11:53
O Caderno nº 2 do Instituto Tricontinental fala sobre a exploração do trabalho no processo de fabricação do IPhone / Divulgação Instituto Tricontinental
A taxa de exploração do trabalhador do iPhone é de 2458%

Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que a força de trabalho global total é, atualmente, de 3,5 bilhões de trabalhadores. É a maior força de trabalho global que se tem registro na história. Falar em fim dos trabalhadores é totalmente prematuro quando nos confrontamos com o peso desses dados. 

A maioria desses 3,5 bilhões de trabalhadores, afirma a OIT, experimentou a falta de bem-estar material, segurança econômica, igualdade de oportunidades ou espaço para o desenvolvimento humano. "Estar empregado nem sempre garante uma vida decente. Muitos trabalhadores se veem tendo que assumir empregos pouco atraentes que tendem à informalidade ['trabalho flexível'] e são caracterizados por baixos salários e pouco ou nenhum acesso à proteção social e aos direitos trabalhistas". Enquanto metade da força de trabalho global é composta por assalariados, 2 bilhões de trabalhadores (61%) estão no setor informal.

O relatório da OIT mostra que o número de trabalhadores pobres agora diminuiu, em grande parte graças ao enorme impacto do modelo de desenvolvimento econômico da República Popular da China. Os dados sobre pobreza são controversos, pois há dúvidas sobre a legitimidade das estatísticas do governo sobre pobreza. No entanto, os números demonstram que, embora a renda dos pobres tenha aumentado, essa melhora não foi suficiente para tirá-los da pobreza. Jason Hickel e Huzaifa Zoomkawala mostraram que houve pouco ganho para a parcela mais pobre da humanidade nas últimas décadas. “Para os 60% mais pobres da humanidade”, escreve Hickel, “uma pessoa viu, em média, sua renda anual aumentar em apenas US$ 1.200… durante 36 anos”. Não é um número digno de comemoração.

Mesmo que os dados mostrem que aqueles que compõem a força de trabalho global não conseguem encontrar “trabalho decente”, as taxas de produtividade são mais altas do que eram antes. Como observa o relatório da OIT, “o crescimento da produtividade entre 2019-2021 deve atingir seus níveis mais altos desde 2010, ultrapassando a média histórica de 2,1% no período 1992-2018”. A OIT refere-se à média global, uma vez que em muitos países – inclusive nos Estados Unidos –, o crescimento da produtividade não tem aumentado; o crescimento da produtividade em países como a China foi que elevou a média global. Mas os benefícios desse crescimento da produtividade não são compartilhados suficientemente com os trabalhadores em termos de aumentos de salário, proporcional às suas contribuições. Os benefícios aumentam para os proprietários de capital, o que apenas reforça a concentração de riqueza. O trabalho está produzindo um excedente maciço, que poderia muito bem ser usado para melhorar o bem-estar geral da humanidade. Em vez disso, vai engordar os bolsos dos capitalistas.

Nos últimos anos, nós, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, temos tentado encontrar formas de explicar algumas ideias equivocadas: 

1. A força de trabalho global diminuiu. Conversas sobre automação e precarização levam à suposição de que há um declínio do trabalho a nível global. Não é o caso. Há hoje mais pessoas trabalhando do que em qualquer outra época, muitas delas em fábricas, apesar dos “desertos fabris” e do processo de desindustrialização no Ocidente.

2. A pobreza diminuiu. Se há menos pessoas trabalhando, deve haver menos gente ganhando dinheiro e, portanto, deve haver taxas mais altas de pobreza. O fato é que há mais pessoas trabalhando e, no entanto, a pobreza continua sendo um problema sério. Aqueles que estão trabalhando são de fato mais produtivos, em média, e estão produzindo mais agora do que antes. O que os mantém na pobreza apesar do aumento da produtividade – parte devido à melhor tecnologia – é que eles não podem comandar uma parcela maior dos ganhos de produtividade e do excedente total produzido. Mas o que também mantém a taxa de pobreza estável é a destruição do estado de bem-estar social e de uma série de provisões assistenciais – de moradias subsidiadas a alimentação – que foram retiradas de bilhões de pessoas.

De fato, há mais pessoas trabalhando e elas não são capazes de ganhar uma porção do excedente total produzido que seja suficiente para elevá-las acima da linha de pobreza estabelecida. Por que isso ocorre?

O arsenal da análise marxista nos fornece um conceito simples: a taxa de exploração. Marx, em O capital (1867), escreve sobre exploração em dois registros. Primeiro, no plano moral, ele condena a exploração dos trabalhadores, principalmente crianças. As terríveis condições de vida e trabalho o enfureceram, como deveria ser para qualquer pessoa sensível. Segundo, na precisa estrutura de sua ciência, Marx estuda a maneira como os proprietários de capital são capazes de contratar trabalhadores comprando sua força de trabalho. São esses trabalhadores que produzem mais-valia e cujos ganhos são expropriados pelos proprietários de capital por causa de seus direitos de propriedade. A exploração, portanto, é a extração dessa mais-valia dos trabalhadores pelos proprietários do capital. Marx escreveu que a taxa de exploração pode ser bastante esclarecedora se usarmos seu aparato conceitual básico.

A Apple acaba de lançar seu iPhone 11. Pouco o diferencia do iPhone X, embora a versão mais cara do novo telefone tenha três câmeras. É importante ressaltar que a Apple não fabrica esses telefones. Eles são fabricados em grande parte pela empresa taiwanesa Foxconn, que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores somente na China. O iPhone é obscenamente caro, e a maior parte do dinheiro de sua venda não vai para os trabalhadores ou para a Foxconn, mas para a Apple. Como a Apple detém a propriedade intelectual do telefone, licencia sua produção para empresas como a Foxconn, que produzem esses aparelhos para o mercado. A Apple consome a maior parte dos lucros desse processo.

Há cinco anos, E. Ahmet Tonak fez um estudo do iPhone 6, analisando-o do ponto de vista da taxa de exploração, segundo Marx. Como parte da equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Ahmet atualizou sua análise e examinou o iPhone X. Isso nos deu a oportunidade de produzir o Caderno nº 2, que explica alguns dos principais conceitos marxistas e, em seguida, usa a análise da taxa de exploração para examinar mais especificamente o iPhone. Essa taxa nos permite demonstrar quanto o trabalhador contribui para o aumento de valor no processo de produção. Isso mostra que, mesmo que o trabalhador recebesse mais, pela mágica especial da mecanização e do gerenciamento eficiente do processo de produção, a taxa de exploração aumenta. Sob o sistema capitalista, a liberdade para o trabalhador é impossível.

A descoberta mais impressionante da análise é que os trabalhadores que produzem o iPhone hoje em dia são 25 vezes mais explorados do que os trabalhadores têxteis da Inglaterra do século XIX. A taxa de exploração do trabalhador do iPhone é de 2458%. Esse número nos diz que uma parte infinitesimal da jornada de trabalho é dedicada ao valor exigido pelos trabalhadores como salário; a maior parte do dia de trabalho é gasta para aumentar a riqueza do capitalista. Quanto maior a taxa de exploração, maior o aumento da riqueza do capitalista obtida pelo trabalho.

O Caderno nº 2 foi diagramado cuidadosamente por nossa equipe (Tings Chak e Ingrid Neves). Nós o produzimos na esperança de que seja amplamente utilizado para várias formas de educação – seja em formações políticas, em ambientes acadêmicos ou em estudos independentes. O texto é escrito em linguagem bastante direta; o design é pensado de forma a aprimorar o aprendizado. Estamos ansiosos pela recepção desse trabalho, pois ele formará uma série, composta de outros Cadernos, sobre outros conceitos-chave que nos ajudem a entender os contornos do capitalismo.

Rosii Tora, Lautoka Andhra Sangam College, Fiji, 2018.

Nesta semana, as Nações Unidas organizaram cinco cúpulas sobre a catástrofe climática. O secretário geral da ONU, Antonio Guterres, diz que duas palavras definem essas cinco reuniões: ambição e ação. Protestos globais para defender o planeta ocorreram na sexta-feira passada, e outras manifestações virão. A conversa nas reuniões da ONU, no entanto, permanece bloqueada pela recusa dos Estados Unidos e de outros países ocidentais em reconhecer que eles têm a maior responsabilidade pela catástrofe, uma vez que excederam sua cota do orçamento de carbono. A esperança de que esses países contribuam substancialmente para o Fundo Global do Clima está agora fraca. O valor mínimo necessário é de trilhões de dólares, e não os poucos bilhões que foram prometidos. Fala-se pouco em mitigação, transferência de tecnologia, desigualdade de emissões ou outras soluções substanciais para as causas da crise atual.

Há alguns anos, a Oxfam divulgou um importante estudo que mostrava como os 50% mais pobres do planeta eram responsáveis por apenas 10% das emissões globais de carbono, enquanto os 10% mais ricos eram responsáveis por 50% delas. No entanto, como observa a Oxfam, são as pessoas dos países mais pobres as mais vulneráveis às mudanças climáticas e, muitas vezes, são erroneamente culpadas por causá-las. A discussão sobre desenvolvimento não ocorreu ao lado da discussão sobre mudanças climáticas. O que significa para os bilhões de pessoas que produzem mais-valia, mas que vivem em relativa pobreza, a participação em uma conversa sobre redução de consumo? Um estudo recente da ONU diz que existem pelo menos 820 milhões de pessoas que vivem com fome, enquanto pelo menos 2 bilhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar. Esses são números que teimosamente não irão diminuir. Quem vive com fome é trabalhador.

Não se pode falar em lidar com as mudanças climáticas sem falar em abolir o sistema que vive com a fome e a pobreza da maioria das pessoas do mundo e sem reconhecer as sementes de um futuro melhor que está sendo plantado hoje. A corrente de pensamento crítico latino-americano nos lembra a importância disso. Em um relatório recente produzido por nossos escritórios em Buenos Aires e São Paulo – José Seoane escreve: “Não se trata apenas de imaginar esses futuros teoricamente com base em nosso passado; é também uma questão de refletir e disseminar os projetos populares que estão ocorrendo no momento e antecipar o futuro que estamos buscando”. Qual é o sentido de salvar o planeta se bilhões de trabalhadores estão morrendo de fome?

O sofrimento não é uma mercadoria. Não há mercado primário ou secundário para ele. É a terra e a pedra que estão no estômago de um ser humano faminto, um trabalhador que participa da cadeia de mercadorias que resulta em um iPhone.

Edição: Vivian Fernandes