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PSOE “é cada vez menos socialista e cada vez mais espanholista”, diz pesquisador

Em entrevista ao BdF, Breno Bringel comentou impasse para formação de governo na Espanha e os futuros cenários do país

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Líder do PSOE e primeiro-ministro interino da Espanha, Pedro Sánchez / Foto: Oscar del Pozo/AFP

Frente à impossibilidade de formar governo, a Espanha anunciou, em 24 de setembro, a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições. O impasse ocorria desde o final de maio, quando o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), liderado pelo primeiro-ministro interino, Pedro Sánchez, saiu vitorioso. 

Na ocasião, o PSOE conquistou 123 dos 350 assentos da Câmara, 38 a mais do que no pleito de 2016. Em segundo lugar, ficou o conservador Partido Popular (PP), que amargou 66 cadeiras, muito abaixo das 137 que obteve no pleito anterior. Atrás ficaram o partido de centro-direita Ciudadanos (57 lugares), a coligação de esquerda Unidas Podemos (42) e Vox (24), sigla nacionalista de extrema direita que faria parte do Parlamento pela primeira vez. 

Como não obteve a maioria necessária para governar sozinho, o PSOE teria que formar um governo de coalizão. A expectativa era a de que Sánchez se alinhasse ao Unidas Podemos, grupo formado por Podemos, Esquerda Unida e partidos menores, além de siglas independentistas catalães

O que parecia certo, no entanto, se mostrou o início de um longo impasse para a formação do governo. Segundo o professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Breno Bringel, uma série de fatores impossibilitaram que a coalizão fosse fechada.

“De fato, existe uma disputa real pelo eleitorado. Mas há também um embate de narrativas entre os dois partidos [PSOE e Podemos]. Essa disputa pela maior parte dos eleitores progressistas acabou impedindo que o governo fosse formado”, disse Bringel em entrevista ao Brasil de Fato

Para ele, a incapacidade que o PSOE teve em dialogar com partidos independentistas catalães, inclusive os progressistas, também pesou na hora de formar uma coalizão. “A sigla do partido é 'PSOE', ‘Partido Socialista Operário Espanhol’.  Mas o partido é cada vez menos socialista, menos operário, e cada vez mais espanholista. Isso ficou muito claro nos últimos meses”.

As divergências envolvendo partidos independentistas de regiões autônomas da Espanha e o PSOE são uma pedra no sapato de Sánchez desde antes das eleições de abril. O pleito do início do ano também foi uma antecipação, que só ocorreu porque o premiê em exercício se viu obrigado a convocar a disputa após não conseguir aprovar sua proposta de orçamento.

Segundo Bringel, "foi difícil qualquer tentativa de lidar com a questão catalã, inclusive com as forças progressistas do nacionalismo catalão. Houve uma impossibilidade de conversar sobre o tema e isso bloqueou ainda mais essa possibilidade de governo, inclusive pelas divergências que PSOE e Podemos tem sobre esse caso".

As novas eleições gerais da Espanha ocorrerão em 10 de novembro.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Após as eleições de abril, o pensamento corrente era o de que o PSOE conseguiria formar governo. O que aconteceu?

Breno Bringel: O PSOE ganhou as eleições e tinha a iniciativa de formar o governo. A mensagem da militância do partido era muito clara: queriam uma aliança progressista. Aconteceram várias coisas no caminho. A primeira delas, e talvez a mais importante, tem relação com a constante disputa entre PSOE e Podemos, que se veem como forças opostas, mas complementares. 

De fato, existe uma disputa real pelo eleitorado. Mas há também um embate de narrativas entre os dois partidos. Essa disputa pela maior parte dos eleitores progressistas acabou impedindo que o governo fosse formado. 

Outra questão que ficou clara nos últimos meses envolve diferenças muito grandes entre a militância do PSOE, que é de fato mais progressista, e a elite que há dentro do partido. A militância tentou fazer com que Sánchez formasse governo com o Podemos. Na noite em que o PSOE ganhou as eleições, as pessoas foram às ruas para pedir a formação de um governo progressista com o Podemos. Nunca com o Ciudadanos. 

Isso se diferencia da elite do partido, que é muito pragmática, totalmente alinhada às grandes empresas, aos bancos e ao capitalismo financeiro. O próprio Sánchez reconheceu que nas eleições anteriores ele não conseguiu formar coalizão com o Podemos por pressões externas. Essas imposições externas estão muito impregnadas dentro da cúpula do PSOE e elas operaram outra vez. 

O terceiro elemento, que acabou levando a um certo bloqueio, tem a ver com o acirramento da questão da independência da Catalunha. A sigla do partido é "PSOE”, “Partido Socialista Operário Espanhol”.  Mas o partido é cada vez menos socialista, menos operário, e cada vez mais espanholista. Isso ficou muito claro nos últimos meses. 

Foi difícil qualquer tentativa de lidar com a questão catalã, inclusive com as forças progressistas do nacionalismo catalão. Houve uma impossibilidade de conversar sobre o tema e isso bloqueou ainda mais essa possibilidade de governo, inclusive pelas divergências que PSOE e Podemos tem sobre esse caso". 

As reivindicações do Podemos foram legítimas ou tratava-se de uma tentativa de barrar a formação do governo?

A não formação do governo, ao meu ver, é um irresponsabilidade coletiva, mútua. É tanto do PSOE quanto do Podemos. Não podemos jogar a culpa só de um lado. Isso é o que eles mesmos estão tentando fazer. O PSOE diz: "nós tentamos, mas o Podemos tornou nossa vida impossível". Já o Podemos diz que fizeram de tudo, mas Sánchez não quis. 

Na verdade, tanto uma força quanto a outra foram tensionando a corda para a formação dessa coalizão. Acontece que o Podemos foi tensionando isso com propostas programáticas. O PSOE, por interesses muita vezes não ditos. 

As novas eleições ocorrerão apenas sete meses depois do último pleito. É possível que tenhamos uma votação parecida com a de abril e o impasse continue?

É possível que continuemos em um impasse. Mas o cenário é diferente ao de alguns meses e existem várias possibilidades. A primeira, é exatamente a de uma nova paralisia. Mas mesmo que isso ocorra – tudo indica que o PSOE volte a ganhar –, não vai se dar da mesma forma. 

Certamente a abstenção vai crescer muito, porque é algo que está por trás da não formação do governo: o desencantamento, sobretudo do eleitorado progressista que votou no PSOE e no Unidas Podemos. Parte desse eleitorado pode não votar, pode se abster como voto de protesto. Também podemos ter um cenário parecido, mas com certo fortalecimento das forças políticas de direita, sobretudo do Partido Popular (PP). 

O segundo cenário envolve o fator Íñigo Errejón. Ele é um dos políticos que fundou o Podemos junto com Iglesias e era sua mão direita – ou esquerda. Eram unha e carne. Errejón acabou saindo do Podemos no final do ano passado por divergências profundas com Iglesias, inclusive divergências teórico-políticas fortes. 

Errejón formou um novo partido junto com a ex-prefeita de Madri, Manuela Carmena, e concorreu às eleições de Madri pela sigla Más Madrid. Agora foi anunciado pela militância do partido que o Más Madrid, hoje Más País, irá se candidatar às eleições gerais de 10 de novembro. 

Errejón será o candidato do partido. Isso gera uma série de incertezas e de novas possibilidades no cenário. A primeira é a de que o Más País consiga recuperar parte desse voto que iria para a abstenção.  Mas existe a possibilidade de que o Más País divida ainda mais a esquerda. O partido disputará os votos de PSOE, Podemos e, inclusive, de uma parte mais progressista do Ciudadanos. 

Isso pode ter muitas repercussões, efeitos imediatos que já estão acontecendo. Pequenos grupos que apoiaram o Unidas Podemos como uma sigla agregadora, podem apoiar a candidatura do Errejón, e não a do Iglesias.

O Más País pode irromper na cena nacional com um número relativamente importante de deputados e pode chegar a ser decisivos para a formação de um governo. Por exemplo, Sánchez já disse em várias ocasiões que se sentiria muito mais confortável em governar com Errejón do que com Iglesias. 

O terceiro cenário – o mais dramático – seria uma vitória do PSOE em que não houvesse nenhuma possibilidade de pacto com as forças progressistas. Assim, seriam o Partido Popular ou o Ciudadanos que acabariam conseguindo formar um governo de coalizão. Os espanhóis chamam essa possibilidade de “triparty” em alusão ao Tea Party [movimento social da direita, conservador] dos Estados Unidos. O “triparty” é formado por PP, Ciudadanos e pela extrema direita, representada pelo Vox. 

Há a possibilidade de que Sánchez busque se alinhar ao Ciudadanos?

Há a possibilidade real de que o PSOE pactue, eventualmente, com o Ciudadanos, algo que estava totalmente fora do cenário pós-eleições de abril. Agora, a partir desse novo impasse, isso pode acontecer para evitar um governo formado pelas três forças mais conservadoras em que a extrema direita entrasse em uma coalizão. 

Por isso, o PSOE poderia ativar esse diálogo com o Ciudadanos e formar governo. Então a questão conjuntural imediata está muito aberta. Existem muitos outros cenários que não estavam postos nas eleições anteriores. 

A gente tem que pensar isso para além da disputa imediata. Qual o significado para a política espanhola como um todo? No caso do Podemos é muito claro: é o fim de um ciclo que começou com o 15M [onda de manifestações iniciadas em 15 de maio de 2011 que influenciou diretamente a criação do podemos].

É o fim de um ciclo político que levou ao encantamento e à ilusão de muitas pessoas pela política. Pessoas que nunca tinham militado politicamente, coletivos que foram se formando, círculos locais que foram apoiando o Podemos, hoje estão totalmente desiludidos com a sigla. 

Por outro lado, o PSOE vive uma nova turbulência. Mas ele é um partido mais antigo, acostumado a sobreviver às turbulências. O PSOE é uma grande máquina política.  

Para as direitas, que também estavam desprestigiadas – sobretudo o Ciudadanos e PP – o cenário abre uma nova possibilidade de reinvenção. Isso ocorre por causa dos erros da esquerda. Então seja qual for o resultado eleitoral do próximo dia 10 de novembro, a grande vitoriosa, ao menos pela incapacidade da esquerda em formar governos, é a direita. 

Esses partidos voltaram a respirar diante da possibilidade de disputar novas eleições em um cenário mais favorável para eles e em um momento global muito dado às possibilidade de campanhas sujas em termos eleitorais. Isso pode beneficiar essas forças mais conservadoras e reacionárias.

Edição: Luiza Mançano