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Didático: Uma foto que mostra o que é a 'uberização' do trabalho

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Fotografia urbana de Buenos Aires, sob o governo neoliberal de Mauricio Macri
Fotografia urbana de Buenos Aires, sob o governo neoliberal de Mauricio Macri - Foto: Reprodução
O extremo da exploração esta aí

Tá achando que motorista do Uber é “empresário” ou o guri de bicicleta leva comida nas costas é “empreendedor”? A foto mostra o que significa o uso das tecnologias para aumentar a exploração sobre o povo. Ou alguém acha mesmo que esta mulher, cuja foto captei facebook do amigo Cristovão Feil é “empreendora”? Segue o comentário dele:

O caos e para além do caos.

Na foto, um instantâneo que flagra a uberização do trabalho, ou seja, a incessante busca do capital por incentivar (via novas tecnologias) que a mais-valia relativa passe a se constituir em mais-valia absoluta, também conhecido como aumento da produtividade do trabalho assalariado.

Para tanto, é necessário derrubar direitos e conquistas dos próprios assalariados.

A moça da fotografia, mãe e trabalhadora, hoje é chamada cinicamente de “empreendedora”, alguém que se vira como pode, sem direito a nenhuma garantia social ou previdenciária, e tendo que andar com o filho na forma precaríssima de seu instrumento de trabalho.

A barbárie já habita o nosso meio.

O extremo da exploração esta aí. O Estado “mínimo” neoliberal não oferece nem creche e nem escolas infantis. E com as novas tecnologias, o neoliberalismo resolveu apostar na desregulamentação do mundo do trabalho, jogando os trabalhadores a disputarem entre si, enquanto os donos do capital financeiro e das tecnologias investem na exploração absoluta, jamais vista desde a origem do capitalismo.

A mulher tendo que trabalhar num trabalho precário, sem direito nenhum e tendo que carregar sua criança, por que nem isto mais se lhe oferece o Estado. Enquanto isso, aumenta o lucro dos Bancos e de empresas sem nenhum grande “ativo” (bens físicos com valor).

É a escravidão moderna e consentida, por que ideologicamente essas pessoas exploradas não se identificam como trabalhadoras, mas como supostas “empresarias”, que dependendo do seu próprio esforço, poderiam chegar a ser “milionárias”. Como?

Esta gurizada que anda de bicicleta nas ruas, pedalando 15 horas por dia pra ganhar pouco mais de R$ 1.000,00 em média, como mostram pesquisas, detonam suas cartilagens e corpos, expostos a esforços físicos a céu aberto, sob sol ou chuva. E nenhum direito. Enquanto isso os donos dos aplicativos para os quais trabalham, saltam do padrão de “milionários” para “bilionários”.

A foto publicada pelo Cristóvão é simbólica. A trabalhadora superexplorada, sozinha, sem consciência de classe e sem classe a lhe oferecer consciência. Hora de reorganizar a classe trabalhadora, que já não é mais a antiga classe de trabalhadores industriais, mas a de trabalhadores prestadores de serviço e trabalhadores no comércio, e até a volta da produção artesanal, mas amplamente dependente de aplicativos e das redes.

Hora de mostrar aos que vivem do trabalho, que é possível e necessário a organização coletiva do próprio trabalho que executam , para que possam avançar.


Errata do Brasil de Fato RS: A partir de orientação do Brasil de Fato nacional, retificamos a informação sobre a foto que ilustra e problematiza este artigo. A imagem de uma trabalhadora de serviços de entrega em Buenos Aires, Argentina, circulou pelas redes sociais na região sul-americana como uma forma de problematizar a precarização das relações de trabalho. Contudo, ainda que seja válida a crítica em relação a esta nova forma de relação trabalhista no capitalismo, a mulher registrada na foto já desmentiu a agências de notícias que estava trabalhando com a sua filha à tiracolo. Conforme nota da AFP, "a jovem explicou que não trabalha com a sua filha na bicicleta, mas que no momento da foto estava deixando-a na creche antes de começar a trabalhar. O fotógrafo que registrou a cena, além disso, confirmou que em nenhum momento a viu montada no meio de transporte com a bebê". Lembramos que a opinião dos colunistas são de responsabilidade dos próprios e não necessariamente refletem a posição do Brasil de Fato.

 

 

 

 

 

Edição: Marcelo Ferreira