Exposição

Artista questiona a representação de pessoas negras nos HQ's

O artista Samuel Quixote inaugura a exposição, "A Presença Negra nas Histórias em Quadrinhos", em Juazeiro do Norte

Brasil de Fato | Crato (CE)

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Samuel questiona a falta de representatividade nas histórias em quadrinhos, que marcaram sua infância, assim como a de outras crianças / Rodolfo Santana



O artista visual Samuel Quixote inaugura a exposição, A Presença Negra nas Histórias em Quadrinhos, na Galeria de Artes do SESC Juazeiro do Norte, onde apresenta pinturas que retratam pessoas negras do seu cotidiano como heróis e heroínas. É possível conhecer mais sobre o seu processo e como são feitos os desenhos ao assistir ao filme projetado na exposição, onde vemos o seu cotidiano no ateliê. A exposição fica aberta até o próximo dia 31 de outubro.

Falar de arte, assim como falar de qualquer coisa, nessa sociedade capitalista pressupõe falar das bases que sustentam o sistema. Uma dessas bases é o racismo, que determina que pessoas negras devem receber menos, assumir postos de trabalhos mais precários e com maior risco de saúde, entre tantas outras situações de violência. No caso da arte falar de racismo é falar de apagamento, ausência de espaços, determinação do que pode ser falado e como pode ser falado. Afina,l a arte não está isenta das violências simbólicas e físicas do mercado.

Ao realizar esse trabalho Samuel questiona a falta de representatividade nas histórias em quadrinhos, que marcaram sua infância, assim como a de tantas outras crianças. Questiona a construção das poucas personagens que existem. Nos levar a pensar sobre como pessoas negras têm de trabalhar tão mais que pessoas não negras a ponto de serem super-heróis e super-heroínas do cotidiano, onde seu poder é sobreviver mais um dia nessa sociedade desigual e violenta.

Um aspecto importante da exposição é que cada trabalho vem acompanhado de uma etiqueta, onde além de informações das obras nos dão informações sobre as pessoas que emprestaram seus corpos para o artista criar seus personagens. Mostrando para o público que pessoas negras, diferente do que mostram as novelas, são também doutoras, professoras, artistas e tantas outras coisas quanto desejarem.

Outro dado importante é que o artista tenta fugir dos estereótipos da hiperssexualização tão recorrente nas representações de massa, sobretudo quando se trata de pessoas negras. Podemos ver um Wolverine com uma barriga mais volumosa, uma Fênix com corpo modificado pela maternidade e seus cabelos crespos armados. A exposição é uma ode a beleza negra real, sem maquiagens e sem distorções.

Samuel nos fala que o projeto surgiu quando em 2014 participou do concurso de uma empresa da região para criar um personagem para estampar tirinhas impressas nos produtos, cuja a única orientação é que seu nome fosse Luquinha. "Eu fiz meu personagem e deixei bem específico: meu personagem é negro. É um menino de oito anos negro. Eu fiz o Luquinha baseado em mim quando criança. Fui selecionado e me chamaram pra conversar. Elogiaram meu trabalho, mas disseram que precisavam fazer uma pequena alteração, queriam que ele fosse branco."

Quando Samuel questionou a empresa o porquê da necessidade desta alteração é que a coisa fica ainda mais absurda: “não é porquê ele vai ter uma irmã, ah ele vai ter uma irmã então tem que ser branco né, todo mundo que tem uma irmã é branco. Não você tem que entender que o nosso produto é pra classe média. Ah tá certo…” relembra o diálogo que teve com a equipe da empresa, que pra finalizar propões que ele mantenha o personagem original, mas como o amigo do Luquinha branco. Reafirmando que eles acreditam que pessoas negras nunca podem ter ou ser, no máximo são amigas de brancos que tem ou são.

Mas essa situação racista em vez de acabar com o trabalho do artista só o estimulou a buscar aprofundar sua pesquisa sobre a representação de personagens negras e negros em HQ's comerciais de grande circulação. Onde ele começa a perceber que o negro sempre é apresentado como coadjuvante e no papel da comédia, como o estabanado, o que fala errado, o que tropeça.

A artista, professora e pesquisadora Maria Macêdo, que também é a super-girl de Samuel, analisa como "de uma importância extrema que os artistas negros ocupem essas galerias, que eles não tem esse espaço tão demarcado quanto os artistas brancos, que acontece de uma forma em geral e que a gente também vê aqui. A gente vê os editais, vê as programações e vê que são sempre as pessoas brancas quem passam nos editais, quem estão ocupando esses espaços, então só a presença de Samuel ocupando esse espaço tem uma grande importância pra gente".

Ela nos chama a atenção também para o fato de que a maior parte do público presente na abertura é de pessoas negras e levanta a questão do porque terem tão poucas pessoas brancas ali presentes e completa “espero que essa exposição não tenha sido pautada apenas em decorrência do mês da consciência negra, mas pela sua relevância. Espero que a instituição desenvolva agora um trabalho educativo, com formação, para que as escolas e que as pessoas da instituição entendam que é importante, para que as pessoas que estão aqui no SESC fazendo suas atividades, assim como a comunidade em geral entendam o que é esse espaço para além das imagens que estão representadas nas paredes”.

Luna, que além professor, artista e pesquisador é também o curador da exposição nos fala de sua experiência: “para citar um pedagoga negra, a Cristiane Teodoro, que diz que a gente se reconhece enquanto negro quando entra nesses ambientes institucionais” e segue "eu digo que esse trabalho do Samuel vem da infância dele quando ele não se vê nos heróis que são do percurso dele. Sabendo disso nós buscamos fazer aqui o que a Verônica Neves que também é professora negra, o que ela chama de pedagogia do ajuntamento, que aqui se juntou o curador negro, Dextape que é músico e negro e Samuel, então são três artistas negros, que se juntaram com mais tantos outros negros pra compor esse trabalho."

O artista fala ainda que os próximos passos para esse projeto é levar as pinturas murais para as periferias, dialogando com as pessoas que não se sentem convidadas a estarem nas galerias de arte por acreditarem que ou não tem capacidade intelectual ou não tem grana pra estar ocuparem esse espaço que é público.

Para conhecer mais sobre o trabalho do Samuel Quixote, do Luna e do Dextape, basta entrar em seus respectivos instagrans: @samuel_quixo @pretu_me e @dextapeemece.

Edição: Monyse Ravena