Coluna

Se você tirar a liberdade, todas as quatro estações e eu morreremos

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14 de Outubro de 2019 às 15:27
Curdos sob ameaça de extermínio; luta de classes acirrada no Equador e impactos do capital na Índia rural são temas da coluna desta semana / Zehra Dogan, The Mourners
Vijay Prashad comenta conjunturas do Equador, da Índia e do ataque ao povo curdo

A Turquia invadiu a Síria. Especificamente, a Turquia atravessou a fronteira para destruir a província curda de Rojava, ao sul da divisa Turquia-Síria e a leste do rio Eufrates. A luz verde para esta invasão veio de Washington, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan que os EUA iriam retirar suas tropas da área. A população curda da Síria – cerca de 2 milhões de pessoas – assumiu o controle de suas próprias terras, construiu uma sociedade criativa na área e lutou por ela contra os vários grupos jihadistas, mais recentemente o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS). Para expulsar o ISIS, os curdos sírios criaram as Forças de Defesa da Síria (FDS), que receberam apoio dos Estados Unidos por meio da cobertura aérea que acarretou em uma guerra muito sangrenta. Agora, os EUA - como de costume - decidiram trair o sacrifício do FDS.

A Turquia – e os Estados Unidos – acreditam que as formações políticas e militares dos curdos em Rojava são na verdade grupos do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), que a Turquia – e os Estados Unidos – declararam como terrorista. O exército turco encontrará resistência, mas evidentemente criará sofrimento. Ilham Ehmed, co-presidente do Conselho Democrático da Síria, alerta que a Turquia não apenas destruirá o projeto Rojava, mas também ameaça realizar uma transferência da população, assentando alguns dos três milhões de refugiados sírios que agora estão na Turquia. Esses refugiados sírios não são dessa região, mas do extremo oeste da Síria. Essa transferência populacional significa uma limpeza étnica (ou seja, uma violação do artigo 49 da Quarta Convenção de Genebra, de 1949).

Os curdos há muito lutam por uma relação diferente com os Estados em que vivem (Iraque, Irã, Síria e Turquia) e por sua própria pátria. Sua luta é marcada por imensa criatividade – incluindo novas formas de vida social, e certamente produções culturais poderosas. Entre esses muitos trabalhadores culturais está o poeta Sherko Bekas (1940-2013), autor de um poema maravilhoso que dá a este boletim o seu título:

 

Se dos meus poemas

você arranca a flor

das quatro estações da minha poesia

uma delas morrerá.

Se você excluir o amor

duas delas morrerão

Se você excluir pão

três delas morrerão.

E se você tirar a liberdade

todas as quatro estações e eu morreremos.

 

Ainda não faço ideia do impacto da invasão turca. O que isso significa para o governo sírio, ou mesmo para os militares do Irã, Iraque e Síria? Uma invasão militar turca na Síria abriria uma guerra regional mais ampla? O resultado, em qualquer caso, será terrível.

As Nações Unidas fizeram a avaliação correta da situação. O coordenador humanitário da ONU para a Síria – Panos Moumtzis – disse: “Não sabemos o que vai acontecer. Estamos nos preparando para o pior”. Todos nós também deveríamos nos sentimos assim.

 

Oswaldo Guyasamin, Los Mutilados, 1976

O Equador está enfrentando uma crise. O governo avançou em sua barganha com o FMI para cortar subsídios e aprofundar políticas de austeridade. Os preços dos combustíveis dispararam. Um número enorme de pessoas foi às ruas em 3 de outubro. As forças do Estado agiram com violência, dispararam gás lacrimogêneo e prenderam centenas de pessoas. O presidente Lenin Moreno declarou estado de emergência, que deve durar sessenta dias.

No ano passado, Moreno trouxe Richard Martínez, ex-presidente do Comitê de Negócios do Equador, para ser seu ministro das Finanças. Em junho de 2018, Martínez elaborou uma nova política econômica para o Equador com sua caneta neoliberal. O cardápio foi de políticas para aliviar leis tributárias, incluindo tentativas menos agressivas de encurtar brechas fiscais e combater o uso de paraísos fiscais, à redução de postos de empregos no setor público, particularmente em áreas de regulamentação de negócios. O governo e o FMI fecharam um acordo de 10 bilhões de dólares. Moreno, Martínez e o FMI agora descobrem que o povo equatoriano não aceitará tão facilmente a reestruturação total de suas sociedades para agradar ao FMI, às agências de classificação de risco, aos bancos e à oligarquia equatoriana.

Para conseguir um acordo péssimo com o FMI, Moreno aceitou todas as exigências do governo estadunidense. No ano passado, o ministro do Comércio Exterior do Equador, Pablo Campana, disse que quer “melhorar a relação” com o FMI, e que seu governo está “ansioso para resolver uma longa disputa com a Chevron”. A Chevron é uma corporação cuja perfuração e oleodutos poluíram o país a tal ponto que parte dele é conhecida como Amazônia Chernobyl. Dezenas de bilhões de dólares em restituição estão em jogo. Moreno quer perdoar a Chevron em nome de laços mais estreitos com os Estados Unidos.

Para agradar os Estados Unidos, o governo de Moreno expulsou forçada e ilegalmente Julian Assange da embaixada do Equador em Londres e prendeu Ola Bini, a quem continuam perseguindo.

A popularidade de Moreno despencou. Estudantes, organizações indígenas e outros permanecem nas ruas; o estrondo de descontentamento ameaça a presidência de Moreno. “Abaixo o governo”, dizem os manifestantes. As pessoas nas ruas ecoam os cânticos que foram retumbantes no Haiti e no Peru. Impossível prever a direção da luta de classes.

 



 

Enquanto as pessoas correm pelas ruas das cidades do Equador, essa injeção de energia traz de volta à nossa mente a vida da comunista e feminista equatoriana Nela Martinez. Quando jovem, Nela ingressou no Partido Comunista, em cuja liderança ascendeu rapidamente. Na Revolução Gloriosa de maio de 1944, Nela estava nas ruas para derrubar o ditador e depois se tornou o chefe do governo por dois dias. No ano seguinte, ela se tornou uma congressista. Nela não era apenas uma líder do Partido Comunista, mas também fundadora da Aliança Feminina Ecuatoriana e da União Revolucionária de Mulheres do Equador, e – com Dolores Cacuango – da Federação Equatoriana de Indígenas. Neste último, Nela e Cacuango criaram a primeira escola indígena que dava aulas em quíchua. Nela também era romancista e jornalista. Ela morreu em Havana (Cuba).

Se viva, estaria nos protestos.

 

Sainath lança o dossiê na livraria The Commune, Johannesburg, Africa do Sul, 7 de Outubro de 2019

Na terça-feira (8), em Johannesburg (África do Sul), fizemos um evento no qual lançamos uma série de publicações, incluindo o Dossiê 21 – O ataque neoliberal à Índia rural – duas reportagens de por P. Sainath.

A Índia rural, nas últimas décadas, sofreu uma grave crise agrária – comercialização da agricultura, dominação por corporações multinacionais, enorme dívida entre pequenos agricultores e trabalhadores agrícolas, uma epidemia de suicídios, altas taxas de desnutrição, e crises em cascata entre artesãos, mineiros e todos os trabalhadores rurais que sustentam a agricultura. Desde 1995, mais de 300 mil agricultores cometeram suicídio e 15 milhões de cultivadores abandonaram suas terras.

P. Sainath, membro sênior do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, passou as últimas décadas no campo ouvindo pessoas, escrevendo suas histórias e educando gerações de indianos sobre aqueles que vivem na zona rural da Índia. Seu livro – Everybody Loves a Good Drought [Todo mundo adora uma boa seca, tradução livre] (1996) – ganhou o prêmio Ramon Magsaysay em 2007. Há alguns anos, Sainath fundou o Arquivo Popular da Índia Rural – também conhecido como PARI. Aqui, Sainath e uma equipe de jornalistas fabulosos têm feito histórias sobre os 833 milhões de pessoas da Índia rural que falam mais de 700 idiomas. É um projeto notável.

No dossiê, Sainath nos leva a Andhra Pradesh, onde os agricultores estão cultivando para empresas de sementes nas condições mais adversas. Mas Sainath não está interessado apenas em documentar o lado feio da história; ele também deseja detectar as iniciativas que dão vida a um futuro para o planeta. Essa vida vem da cooperativa das mulheres Kudumbrashree, em Kerala, cujo sucesso e eficiência significam que - ao contrário de outras partes do país - os bancos correm atrás dos agricultores, e não o contrário. Leia o dossiê e compartilhe-o.

Edição: Rodrigo Chagas