prisão política

Entrevista de Lula a TV de Portugal: "Caráter não se encontra no free shop"

À emissora portuguesa RTP, ex-presidente falou sobre a natureza política de sua prisão: "Quero atestado de inocência"

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Lula: "Estou aqui tentando mostrar para o Brasil e o mundo como os novos golpes se dão na América Latina no século 21" / Foto: Reprodução/RTP

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu pela primeira vez uma entrevista a um veículo de comunicação de Portugal. Durante a conversa com o jornalista Ricardo Dentinho, da emissora de TV aberta RTP, em horário nobre (21h, em Lisboa), Lula reafirmou seu objetivo no momento. “Estou aqui tentando mostrar para o Brasil e o mundo como os novos golpes se dão na América Latina no século 21. Diferente do século passado, você utiliza o Judiciário e as instituições públicas para poder condenar uma pessoa. Estou tentando contar minha versão sobre as mentiras contadas sobre o Lula.”

A íntegra da entrevista pode ser vista aqui

Lula foi questionado sobre a possibilidade de progredir para o regime semiaberto, após pedido do próprio MP. Sua defesa mesmo rejeitou, por questão de princípios. “Caráter não se encontra em supermercados. Você não encontra caráter em free shop. Quero minha liberdade plena, meu atestado de inocência. Quem deveria estar preso é quem contou mentiras sobre mim. Tem inquéritos mentirosos, acusações do MP mentirosas e uma sentença mentirosa”, disse.

“As mesmas pessoas que contaram essas mentiras estão pedindo para que eu vá para a minha casa com esse ‘prêmio’ da progressão da pena. Mas não quero isso, quero o julgamento do mérito do meu processo. Ponto”, completou.

Lula lembrou que lhe foi negado o direito de velar o corpo de seu irmão ao ser questionado sobre as consequências pessoais de sua prisão. “Quando você comete um crime e se sente culpado, você implora a progressão de pena por querer ir pra casa. Quando a pessoa é inocente, a pessoa precisa de um julgamento justo. Como acho que Moro mentiu, Dallagnol mentiu, quero um julgamento justo.”

O ex-presidente revelou não ter ficado surpreso com as revelações do escândalo conhecido como Vaza Jato, liderados pelo portal jornalístico The Intercept Brasil. “Tem quatro pessoas que sabem da verdade nesse país: Deus, sabe que sou inocente. Eu sei, Moro e Dallagnol também (…) Então, não estou pedindo favor. Só quero um julgamento justo. Se provarem que cometi delitos eu fecho a boca e cumpro minha pena”, argumentou.

Conluio

Ao denunciar um conluio que o teria colocado na prisão, Lula deu nome aos agentes. “O juiz, o procurador, os delegados e a imprensa. A imprensa tem muita culpa na desagregação das organizações políticas e do ódio estabelecido no Brasil. A imprensa criou um ídolo de barro. A Polícia Federal, o MP e o Judiciário trabalharam como assessorias de imprensa. As manchetes de jornais eram vazadas por eles antes da defesa receber as informações”, disse.

Lula desafiou esses agentes. “Eles podem me desmoralizar, é só apresentar uma prova. Depois de investigar minha vida durante anos, me levar para a Justiça sem mandado, levar coisas dos meus filhos, invadir minha casa, o procurador, ao apresentar um powerpoint na mídia, disse: ‘Não me peçam provas, eu só tenho convicção'”.

Interesses

O ex-presidente disse estar convencido de que sua prisão atende a questões políticas locais e geopolíticas. “Tudo aconteceu por interesses norte-americanos após a maior descoberta de petróleo do século, o pré-sal. Aconteceu por conta do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em convênio com o Ministério Público do Brasil. Aconteceu porque eu seria eleito presidente.”

Esse fato, para Lula, tira a legitimidade do processo eleitoral do ano passado, que levou o político de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) à presidência. “O candidato que poderia ganhar não pode concorrer. Eu poderia ter ganho no primeiro turno, por isso não me deixaram ser candidato. O objetivo, desde o golpe, era impedir o PT de voltar ao governo.”

Edição: RBA