Dia da Alimentação

Na contramão do agronegócio, a agroecologia tem gerado renda para mulheres camponesas

Produção realizada no campo pernambucano fornece alimentos saudáveis para escolas da região

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O Assentamento Normandia, em Caruaru (PE), que se tornou polo de produção de alimentos livres de agrotóxicos / Foto: Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

O Brasil é considerado, desde 2008, maior mercado de agrotóxicos do planeta, movimentando mais de R$50 bilhões por ano. Declaradamente aliado do agronegócio, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), desde o início do seu mandato este ano, já liberou mais de 300 novos produtos agrotóxicos. Quem se beneficia com essas concessões são as multinacionais, que encontram mercado através da flexibilização da legislação brasileira.

Por outro lado, segundo dados do Datasus, sistema de registro de casos de óbitos de pacientes que passaram pelo atendimento da rede pública de Saúde, entre 2008 e 2017, sete mil pessoas morreram no país em decorrência de pesticidas e agrotóxicos. O uso dos agrotóxicos impacta tanto os trabalhadores, que estão expostos ao veneno no processo de produção, quanto o meio ambiente e os consumidores, que se alimentam dos produtos com elevado grau de toxidade.

Segundo Rafaela Alves, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o alimento tem sido uma fonte de negócio para o capitalismo, que transforma o direito à alimentação saudável em uma mercadoria: “Há uma parcela muito pequena da população que se alimenta muito bem, há uma parcela que come muito mal e há uma parcela que não come”. Ela conta que todas as deficiências e doenças relacionadas à perda de soberania alimentar são fruto de um projeto do latifúndio para o campo brasileiro. Ainda de acordo com Rafaela, é em defesa de uma relação diferente com os alimentos e a natureza que atuam os movimentos populares.

Exemplo disso é a experiência do Centro Paulo Freire, no Assentamento Normandia, em Caruaru (PE), que se tornou polo de produção de alimentos livres de agrotóxicos da agricultura familiar. Segundo dados fornecidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por ano, são 100 toneladas de carnes nobres, mais de 180 toneladas de pães e bolos e mais de 200 toneladas de raízes e tubérculos. Na contramão do agronegócio, a luta em defesa da agroecologia e da alimentação saudável têm dado respostas a milhares de famílias camponesas. Cerca dois mil camponeses processam seus alimentos nas agroindústrias instaladas na área

Neste sentido, Rafaela, do MPA, esclarece que existe diferença entre comida e alimento. “Alimento, para nós, é aquilo que fornece energia que nutre nosso organismo, é fonte de saúde e bem-estar. [O alimento] compõe uma identidade cultural do nosso povo, das nossas realidades. Então, o alimento é algo especial para nossa vida”, afirma. Já a comida, “é aquilo que a gente ingere para matar a fome” e não fornece os nutrientes que o nosso corpo precisa.

Uma alternativa em prol da alimentação saudável construída através do Centro Paulo Freire foi a composição de um coletivo de boleiras, formado por seis mulheres de Normandia. Josefa Bezerra da Silva, mais conhecida como Dona Preta, é uma dessas mulheres. Ela participou de oficinas de capacitação no Centro Paulo Freire, realizadas em parceria com instituições de ensino. “Instruíam como a gente trabalhar no campo conservando o solo fértil e úmido e como não desperdiçar as águas. Também trouxeram o insumo, o adubo orgânico, plantas medicinais, bastante coisa”, lembra a boleira.

Hoje em dia, o coletivo chega a produzir, a depender da encomenda, cerca de 5 mil kg de bolos e 900 pães por semana. Na opinião de Dona Preta, a oportunidade é importante para garantir as condições de permanência do homem e da mulher no campo e evitar o êxodo rural, uma vez que parte da sua renda familiar passou a vir dessa atividade graças à parceria coletiva. “Para a gente não ter que sair daqui para procurar meios de vida, fizemos um coletivo da comunidade. Fomos trabalhar nisso para nossa sobrevivência. Tudo o que nós aprendemos a fazer foi no centro Paulo freire”, conta.

Através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que oferece alimentação escolar e ações de educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública, os bolos passaram a compor a merenda escolar de mais de 40 mil estudantes de aproximadamente 400 escolas pernambucanas. Segundo o MST, só em Caruaru, aproximadamente 60% da merenda escolar vem de assentamentos e é processada no Centro. “É tudo alimento saudável, natural. A gente evita fazer alimento com produtos químicos, só produtos naturais mesmo, para a saúde das crianças e todos nós”, diz Dona Preta, orgulhosa.

Edição: Monyse Ravena