ENTREVISTA

Cid Benjamin: Bolsonaro é um miliciano, não um militar

Lançando seu livro em Porto Alegre, o vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa falou o Brasil de Fato

Brasil de Fato | Porto Alegre(RS)

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"Se você deixa de fazer o que tem que fazer por medo, você passa a deixar de viver" / Fotos: Vitor Hugo Xavier/Assufrgs

O jornalista Cid Benjamin lançou seu livro “O Estado Policial, como sobreviver” esta semana em Porto Alegre. Baseando-se em sua larga experiência de resistência durante a ditadura militar e traçando uma analogia com o presente, ele que atualmente é vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) faz uma análise clara do processo de destruição do país que está em andamento, comandado pelo capitão miliciano e seus filhos. Fala também da matança de inocentes no Rio de Janeiro e da necessidade de desmilitarizar a polícia. “Não sei se é uma repetição do que se viveu, mas são tempos ameaçadores”, aponta o autor, sobre o atual momento político. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

Brasil de Fato: Boa tarde Cid Benjamin, vice-presidente da ABI que está em Porto Alegre para lançar seu livro “O Estado Policial, como sobreviver”. Isto deve ter sido por causa da tua experiência, certo?

Cid Benjamin: Olha, mais por causa da situação que nós vivemos hoje. Não sei se é uma repetição do que se viveu, mas são tempos ameaçadores. Eu fui procurado por alguns líderes de movimentos populares, lembrando, sugerindo que aquela experiência de resistência à ditadura militar fosse socializada de alguma forma. Depois de conversar com alguns deles, surgiu a ideia de se fazer isso através de um livro, porque aí a coisa poderia ir além dom contato pessoal que eu poderia ter com algumas pessoas. Eu participei do Movimento Estudantil em 68, era um dos vice-presidentes da União Metropolitana de Estudantes do RJ, que equivalia na época a União Estadual de Estudantes, o presidente era o Vladimir Palmeiro e eu era um dos quatro vices. Depois me integrei a resistência armada à ditadura e participei de muitas ações armadas na guerrilha urbana, fui preso em abril de 70. Saí da prisão trocado por um embaixador que tinha sido capturado pela guerrilha. Eu participei, antes, do sequestro do embaixador americano e fui libertado pelo sequestro do embaixador alemão. Tive um período no exílio, quase dez anos, e voltei com a anistia. Fui fundador e dirigente do PT, me desliguei depois do PT. Hoje sou filiado ao Psol, mas sou apenas filiado, não tenho cargo de direção, sou jornalista, professor e participei da chapa que recentemente venceu as eleições na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que está num esforço de retomada das suas melhores tradições. Sou vice-presidente da chapa, mas estou aqui a convite de amigos para lançar o livro e debater a situação política do Brasil hoje, com o capitão Bolsonaro de presidente.

BdF: Wagner Moura diz aqui na apresentação do livro: é inacreditável que este livro de Cid Benjamin faça tanto sentido em 2019. E comentamos a ação da Polícia Federal do Moro contra o presidente do PSL. Na época da ditadura, viste alguma vez ação contra presidente da arena em qualquer lugar?

Cid: Aí é uma disputa pelo cofre. O Bolsonaro e o Bivar estão disputando o dinheiro. Fica claro isso. Na ditadura, não me lembro deste tipo de episódio para pegar o dinheiro do partido, mas me lembro de episódios muito marcantes e significativos mostrando um regime de extrema direita proto-facista. E também corrupto, quando não tem democracia, não se tem luz sobre o que está acontecendo, é um terreno fértil para a corrupção. Achar que na ditadura a corrupção era menor não é verdade, era maior do que agora. Inclusive porque não se podia denunciar, não se podia apurar. Quantos foram punidos efetivamente por corrupção na ditadura? Muito poucos. Cassaram logo após o golpe algumas pessoas, mas sem processo, sem prova, sem coisa nenhuma. Havia, de fato alguns ladrões ali. Mas depois, passado aquele período inicial das cassações, quantos corruptos foram julgados e condenados? O maior símbolo da corrupção neste país, Paulo Maluf, é um filhote da ditadura, ele surgiu às sombras da ditadura e com as benesses da ditadura.

"Achar que na ditadura a corrupção era menor não é verdade, era maior do que agora"

BdF: Nos tivemos inclusive uma embaixada em Paris denominada de "embaixada dos dez por cento".

Cid: Era o embaixador Delfim Neto, e foi um militar, um coronel que fez este tipo de denúncia e não aconteceu nada, nem com o denunciado e nem com o denunciante.

BdF: Qual é a marca policial do Estado hoje? Temos a impressão que o Bolsonaro é um fantoche na mão de um grupo forte de militares que fez tudo para não deixar a esquerda continuar no poder.

Cid: Ele cumpriu este papel e ainda cumpre atualmente. Mas impressão que tenho é que o Bolsonaro tem menos o perfil de um militar e mais o perfil de um miliciano, que é uma quadrilha, uma máfia. Basta ver as relações que ele tem e seus filhos, com os chefes das milícias no Rio de janeiro. E estas milícias, é preciso deixar claro, são embrião de algo perigosíssimo, algo que pode ser o embrião de algo semelhante a triple A na Argentina, que eram organizações de paramilitares, de policiais, ex-policiais que assassinavam militantes, nem só de esquerda, mas militantes da luta democrática. As milícias cumprem este papel, elas controlam território no RJ. E começam a se espalhar por outros estados, controlam territórios, cobram proteção aos moradores. Proteção contra ela mesma, pois quem não paga ela sofre represálias. E explora ilegalmente uma série de serviços: TV a cabo, agiotagem, construções irregulares ocupando terrenos sem licença da prefeitura e até em áreas de proteção ambiental. Constroem prédios sem especificações técnicas respeitadas, alguns deles caem, matam gente. E o poder público não entra aí. Seja porque as milícias são muito fortes, seja principalmente porque elas estão muito arraigadas, muito articuladas com a própria polícia e com a proteção de políticos.

"Estas milícias, é preciso deixar claro, são embrião de algo perigosíssimo"

BdF: Não dá para traçar um paralelo com as SS nazistas, que eram uma milícia do partido?

Cid: Mais as SA, uma milícia civil, organizada pelo Hitler, no início dos anos 30, que cumpria esta função até que o Exército, ao aderir completamente ao nazismo, exigiu a supressão das SA. Então houve a "noite das facas longas", em que os líderes das SA foram assassinados. Esta foi a condição do Exército alemão para se somar e se alinhar com o Hitler. Se pode fazer esta comparação com as SA, sim.

BdF: Temos uma outra pergunta: além da milícia, Bolsonaro é apoiado por um outro grupo? De Igrejas e crentes e também a milícia dos "Gladiadores de Deus".

Cid: É verdade, hoje há uma clara aliança de determinados setores evangélicos, não todos, com traficantes e com a milícia. E entre outras coisas, eles fazem retaliações contra integrantes das religiões afro-brasileiras. Destroem templos, espancam pessoas, proíbem a realização de cultos, etc. E tem muitos traficantes próximos a eles. Hoje os traficantes e a milícia estão muito próximos no Rio de Janeiro. Inicialmente a milícia, quando surgiu, dizia que ia combater pequenos delitos, roubos, etc. e o tráfico de drogas. Com o tempo, ou bem ela própria assumiu o tráfico de drogas, ou passou a cobrar dos traficantes um imposto para que eles pudessem fazer seu negócio. Nesse processo todo, entraram certas igrejas evangélicas, aliadas a milícias e aos traficantes, inclusive cometendo crimes. Reprimindo atividades religiosas com as quais não concordassem.

BdF: Como você entende que se possa resistir a isso? Seu livro fala sobre como sobreviver a esta situação?

Cid: Fala. O livro explica que é importante sobreviver resistindo, atuando. Não permitindo que essas coisas tomem corpo. Uma das formas de resistência é fazer programas como este. Discutir, debater, informar as pessoas. É não se amedrontar. Muita gente me aconselhou a não fazer este tipo de livro porque poderia ser alvo de represálias das milícias e que elas são denunciadas em mais da metade do livro. Acontece o seguinte: se você deixa de fazer o que tem que fazer por medo, você passa a deixar de viver. Então é preciso viver, resistir, da melhor forma possível. Inclusive tendo, na medida das possibilidades, informações e elementos para resistir bem e de forma protegida.

BdF: Como se proteger coletivamente se o a sociedade está cada vez mais permeada por um sentimento individualista?

Cid: É mais ou menos. Estava conversando antes, existe este sentimento, mas existe também resistência ao processo de destruição do país que está sendo levado a cabo pelo governo Bolsonaro. Se alguém se propusesse a destruir o país em todos seus aspectos, não faria coisa muito diferente do que está fazendo este governo e há resistência, inclusive dentro das universidades, entre os alunos. Eu chamo a atenção que essa coisa do movimento de massa as vezes engana as pessoas. Numa dada situação está tudo aparentemente calmo e, em seguida, não está mais. Quem diria ha um mês que o Equador estaria em polvorosa como está hoje, depois que o presidente da república, alinhado com o neoliberalismo aceitou os ditames do FMI e tomou uma série de medidas que iam lascar ainda mais a vida dos pobres e dos índios em particular? Pois bem eles resistiram ocuparam as ruas, o presidente foi obrigado a fugir da capital. Saiu de Quito foi para Guayaquil porque não tinha mais condições de ficar em segurança e agora chamou as lideranças indígenas para negociar e recuou daquelas propostas, todas antipopulares. É um belíssimo exemplo de como resistir. Precisamos resistir de todas as formas e o povo na rua é o melhor antídoto para medidas antipopulares. Claro, tivemos sete mortos, mas o governo recuou.

BdF: No Equador foram sete mortos, mas aqui está morrendo gente aos montes nas ruas. Tem gente que imagina a força do Bolsonaro no Exército. Não, na verdade estamos falando de uma força contida principalmente nas polícias militares. Uma ideologia que vem sendo construída nas policias militares há muito tempo que agora aderiram com tudo ao Bolsonaro, estão matando como nunca. Aqui no Rio Grande do Sul, a Brigada Militar bateu o recorde de assassinatos, proporcionalmente mais do que no Rio de Janeiro.

Cid: O Bolsonaro foi um militar medíocre. Saiu pela porta dos fundos do Exército, ele não é respeitado pelos militares. Ele está sendo um instrumento para a direita tomar o poder. Ele é muito mais um miliciano do que um militar. E o que acontece: precisamos desmilitarizar as Policias Militares. O policial deve andar fardado para que o cidadão na rua saiba que aquele funcionário é um policial. O quer não quer dizer que ele seja militarizado. O conceito de uma força militar é o de uma força que vai se bater contra outra força militar dentro da filosofia de destruí-la ou aniquilá-la. Este é o conceito de qualquer força militar. Só que a polícia não vai enfrentar outro exército, ela vai lidar com a população garantindo os direitos dos cidadãos. Se ela for militarizada, você abre o caminho para este tipo de comportamento. Polícia usando fuzil em larguíssima escala e, por qualquer motivo leva a utilização do fuzil em comunidades em que há uma grande concentração de pessoas pobres e negras, na sua maioria e com casas com paredes muito finas. Um tiro de fuzil atravessa três quatro casas ali. E a polícia usa estes fuzis sem a menor cerimônia. Nós da ABI, que estamos recuperando a tradição de defesa aos Direitos Humanos, que é a história da entidade que havia sido esquecida nos últimos anos, lançamos a campanha "toda vida importa muito". É o seguinte: não dá para aceitar este tipo de política de segurança do governador Witzel, um cidadão absolutamente desequilibrado. Nossa proposta é parar com a matança. Parar de usar arma de fogo desta forma. Arma de fogo pode ser necessária, mas tem de ser usada unicamente para defender vidas humanas. Ou de um policial ou de um morador. Agora, não se pode usar indistintamente este tipo de armamento.

"Ele [Bolsonaro] é muito mais um miliciano do que um militar"

No Rio de janeiro, no meio de blocos de carnaval, a polícia vai com arma de fogo. Está arriscando a levar um encontrão de um bêbado, puxar o revólver e ferir ou matar pessoas. Precisamos outro tipo de critério, que valorize a vida humana. A vida é o bem mais precioso que temos, então não dá para vulgarizar este tipo de polícia. O exemplo vem de cima, o Bolsonaro quando disse que a ditadura torturou muito, mas tinha que matar mais, quando ele diz que eu cito duas fontes em que ele conclama grupos de extermínio da Bahia a virem para o Rio de Janeiro onde ele daria proteção… Eu participei da resistência armada durante a ditadura, coloquei minha vida em risco, não quero nenhuma honraria. Outra coisa é o Bolsonaro ter como ídolo um sujeito que era um torturador e que sequer saia da base do Doi/Codi em São Paulo, recebia os presos lá e comandava as torturas. Isso é demonstração de coragem? de valentia? Isso é uma covardia absoluta. Quando Bolsonaro elogia e faz homenagens ao Brilhante Ustra, está fortalecendo o uso da tortura e estimulando o uso da tortura e dos assassinatos, porque o Ustra também era assassino, ele matou vários presos. Precisamos passar o Brasil a limpo, mudar, virar muita coisa de cabeça para baixo.

BdF: Não seria um projeto com certeza de destruição?

Cid: Não sei se é um processo consciente de destruição do país, mas objetivamente está sendo um processo de destruição do país. E para lutar contra isso é preciso juntar todo mundo. Todo e qualquer democrata, toda e qualquer pessoa que queira minimamente defender a soberania nacional que está sendo entregue de mão beijada para multinacionais e para os norte-americanos. Temos que nos unir e temos de enfrentar este tipo de situação. Mesmo correndo riscos de lutar contra um estado policial.

Edição: Marcelo Ferreira