Conheça "O Conto dos Orixás", terceira maior campanha de quadrinhos no Catarse

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Mosaico Cultural

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O Conto dos Orixás ganhará uma segunda edição. O autor Hugo Canuto retomará a produção em 2020. / Reprodução "O Conto dos Orixás", de Hugoi Canuto
Temos que falar sobre os Orixás num contexto de extrema intolerância religiosa

Segundo a Constituição Federal de 1988, o Brasil é um país laico, ou seja, não religioso. Apesar disso, a Câmara dos Deputados abriga um crucifixo cristão na parede, a maioria dos feriados é católico e o atual presidente usou sua religião para criar um slogan político.  

Por mais que na Constituição a laicidade seja lei, na prática, a intolerância religiosa é uma realidade para milhares de adeptos às religiões não cristãs, em especial às de matriz africana. 

Em 2003, a lei 10.639/0 tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas do Brasil. Mesmo assim, a cultura afrodescendente ainda é vista com muito preconceito.

Foi pensando nisso, que o quadrinista baiano Hugo Canuto produziu, em 2016,  a história “O Conto dos Orixás”. A ideia, ele conta, era trazer a cultura Yorubá ao universo dos quadrinhos.

“O projeto surgiu há alguns anos, a partir da convergência de duas paixões. Primeiro, a dos quadrinhos, essa linguagem gráfica e artística que une texto e imagem, que desde criança me fascina. Sou leitor de quadrinhos há mais de 20 anos e, por gostar de desenhar, acabei fazendo arquitetura e, de lá segui para o caminho da arte. Segundo, a paixão pela cultura da minha terra, pela mitologia, pela herança afro-brasileira que caracteriza Salvador, a cidade onde nasci”, comenta o artista. 

Reprodução "O Conto dos Orixás", de Hugo Canuto

O projeto foi viabilizado duas vezes pelo Catarse, plataforma de financiamento coletivo. Juntas, as duas campanhas alcançaram quase três mil apoiadores, o que consagrou o projeto como a terceira maior campanha de quadrinhos do site no país.

Mas para Hugo, a campanha foi o menor de seus desafios, se comparado a parte da pesquisa. 

“Eu tive a orientação do professor Adelson de Brito, sacerdote e escritor, que foi professor de cultura Yorubá. E nós conversamos com algumas lideranças, conversamos também com estudiosos, tudo para construir uma obra que homenageasse o tema, que valorizasse e aproximasse do público leigo esses mitos e cultura, que apesar de fazer parte do nosso fundamento cultural, ainda é muito estigmatizada, infelizmente”. 

O projeto teve tanta repercussão, que ficou conhecido internacionalmente. Após a campanha, Hugo conta que teve leitores dos Estados Unidos, África do Sul, Portugal, Islândia, Grécia, entre outros. 

“Isso é algo muito positivo, mostra que um projeto feito na Bahia, um trabalho local tomando proporção global com uma temática que, apesar de ser alicerce da nossa cultura,  sofre muitos estigmas e preconceitos”. 

Reprodução "O Conto dos Orixás", de Hugo Canuto

A ideia é também usar os quadrinhos como material didático. Para isso, Hugo já promoveu uma série de cursos e oficinas gratuitas para estudantes da rede pública e universitários, na tentativa de aproximá-los dos quadrinhos e da arte de contar histórias em sequência, por meio de texto e desenho. 

“É importante que trabalhos como esse se aproximem do público jovem, principalmente na escola, que deve ser um espaço democrático, um espaço de escuta, de pluralidade.  Nós temos muitos professores amigos que já utilizam a sala de aula para falar um pouco sobre identidade afro-brasileira, para falar sobre os Orixás num contexto de extrema intolerância religiosa”.  

Para realizar o projeto, o artista contou com a colaboração de Mawô Adelson S. de Brito, intelectual, sacerdote e físico, durante o curso de língua e cultura Yorubá. E para os projetos futuros, os fãs já podem esperar pela segunda edição do Conto dos Orixás, que começará a ser produzida no ano que vem.

 

Edição: xxx