Coluna

Fernanda, uma brasileira

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Fernanda Montenegro – no palco e nas telas - permitiu ao público despertar em si a empatia com o que há de mais diverso na pessoa humana
Fernanda Montenegro – no palco e nas telas - permitiu ao público despertar em si a empatia com o que há de mais diverso na pessoa humana - Foto: Divulgação/Leila Fugii
Atriz nos convoca a assumir a dimensão transformadora da cultura

Fernanda Montenegro completou esta semana 90 anos de vida. Com quase 75 anos de trabalho, a atriz representa para o Brasil a consagração de um destino pelo qual vale a pena viver: o valor do ofício, o respeito ao outro e a luz da consciência. 

Reconhecida em todo o mundo por sua trajetória profissional, premiada e destacada pelo público e pela crítica, a mulher e cidadã Fernanda atravessa, como um fio norteador, o tecido formado por seus desdobramentos em forma de personagens de filmes, peças de teatro e novelas.

Há um misto de alegria e responsabilidade em ser contemporâneo da artista. A felicidade é dada pela alta qualidade de seu trabalho, que trouxe à sensibilidade e inteligência das pessoas o prazer de conviver com personagens muito distintos. 

Fernanda Montenegro – no palco e nas telas - permitiu ao público despertar em si a empatia com o que há de mais diverso na pessoa humana. Um aprendizado para a provocante riqueza da vida. Uma corajosa abertura para compreender a diferença que nos engrandece.

Sem preconceitos com gêneros ou formas estéticas, a atriz foi escolhida por personagens que chegavam aos espectadores com uma verdade muitas vezes reveladora e tocante, mas por vezes profundamente incômodas e desagradáveis. Humana, demasiado humana, não havia escolha ética mais importante que a verdade. E, por vezes, a verdade está exatamente na ambiguidade em ser complexa com a mais absoluta transparência.

Da comédia ligeira ao drama clássico, do filme mais sofisticado à novela de televisão, do teatro de entretenimento à montagem experimental, em todos esses campos Fernanda servia aos desígnios da verdade artística. Seu talento assombroso nunca se sobrepôs à necessidade de dar aos personagens a vez de existirem em carne e osso. Mas nem por isso deixou de imprimir sua marca em todas as ocasiões.

Se a alegria de partilhar um talento extraordinário preencheu a vida de várias gerações, há por outro lado o preço de um ingresso especial a ser pago por isso: a responsabilidade em ser contemporâneo de Fernanda Montenegro. Em pelo menos três aspectos. O primeiro é a relação determinada com o trabalho, o respeito por um ofício milenar – e milenarmente perseguido.

A artista nunca abrandou sua dedicação profissional, mesmo nos momentos, que não foram poucos, de profunda dificuldade, próprios da trajetória de vida que escolheu. Em mais de sete décadas, demonstrou que servir ao ofício nem sempre é um ato de entrega, mas um esforço de recriação das circunstâncias. O trabalho que aliena só pode ser vencido pelo ofício que cria. Fernanda fez de sua carreira a realização dessa verdade.

A segunda responsabilidade que a atriz nos convoca a assumir é a dimensão transformadora da cultura. Ela não foi portadora de um grande mérito nato, mas a construtora de uma trajetória. As grandes atrizes são sempre uma composição de dom e personalidade. O que o talento projeta, o esforço em desenvolver a cultura pessoal completa. Não se nasce atriz, torna-se atriz. Sempre com o empenho de muito trabalho, estudo e entrega.

É preciso que o lastro do saber, da leitura e da reflexão não se perca com o tempo. Não se trata apenas de formação para o trabalho, mas de uma inclinação em busca do desenvolvimento pessoal, que permita, a cada criação, a incorporação de jeito próprio de olhar, de sentir, de interferir na vida das personagens. 

A variedade de experiências humanas que cerca o ofício da atriz é alimentada pela humildade em procurar nas obras de cultura e pensamento o território adequado para alargar a compreensão do mundo e das pessoas. O artista não trabalha só para o público: seu primeiro compromisso é com a própria alma. A essência do teatro é o ser, não a mera astúcia de parecer.

A terceira dimensão que Fernanda nos deixa como herança benfazeja é a lucidez permanente do espírito e da crítica frente aos muitos descaminhos da vida da sociedade. Mulher de seu tempo, de todos os tempos, a atriz chega aos 90 anos trazendo na bagagem uma história de coerência, enfrentamentos e olhar sempre marcado pela busca de um mundo melhor a partir de seu ofício.

Não precisou, para cumprir esse destino politicamente orientado, se apoiar em ideologias ou programas partidários. Atuou com arte e consciência para que a cultura tivesse espaço à sua volta. Defendeu o teatro, o cinema, a inteligência e até mesmo a humaníssima diversão. Um mundo mais culto tem tudo para ser um mundo justo. O que talvez explique por que governos autoritários desprezem tanto o saber e a arte.

Cada brasileiro tem seu trabalho preferido de Fernanda Montenegro na memória afetiva. É a parte da dádiva de uma atriz tão generosa. Ficamos agora com a missão de honrar seu ofício e sua trajetória de vida na cultura brasileira. Somos, todos os brasileiros, um pouco melhores por causa dela. É a parte da dívida que nos responsabiliza ao compromisso, cada um com seu trabalho, com o palco da vida real.

Edição: Joana Tavares