Coluna

A mancha da vergonha

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Em vez de agir de forma responsável para enfrentar o problema, ministro Ricardo Salles culpou Venezuela sem provas
Em vez de agir de forma responsável para enfrentar o problema, ministro Ricardo Salles culpou Venezuela sem provas - Foto: Agência Brasil
A mancha nas praias podem ser revelação de outras sujeiras pegajosas

A mancha de óleo que invade as praias brasileiras revela a face real do atual momento por que passa o país. Fruto do desprezo ativo com a proteção do meio ambiente, revelado pelo desmonte criminoso das políticas de controle existentes, serviu ainda para colocar em cena a incapacidade e despreparo do ministro Ricardo Salles.

Em vez de agir de forma responsável para enfrentar o problema, ele se esforçou para ideologizar a questão, culpando a Venezuela sem provas, e atacando o trabalho das organizações não governamentais nacionais e internacionais. Classificou o Greenpeace como “terrorista” e afastou voluntários que acorreram para ajudar a salvar praias que são sua casa e ganha-pão.

Mais que desastrada, a atitude beligerante e vaidosa conseguiu destruir o que parecia ser a única possibilidade de união em um momento de tanta divisão no país: fechou a porta à solidariedade. O ministro criou uma operação sem coordenação definida, insegura e desarticulada entre diferentes níveis de governo e a sociedade. O que não foi novidade. Sua vocação para romper laços cooperativos já tem história em sua curta biografia ministerial.

Depois de enfraquecer as instituições ligadas à sua pasta, demitindo e desautorizando técnicos; de apontar com a leniência programada em questões de licenciamento ambiental; de afrontar as populações originárias; e até de colocar o conhecimento científico na miopia de sua régua ideológica, Salles completa seu projeto de destruição. Chega agora ao campo econômico no sentido mais amplo.

Sua inépcia já afeta as atividades produtivas das praias invadidas pelo óleo, da subsistência imediata dos trabalhadores locais à importante indústria do turismo na região. Depois de queimar o destino amazônico junto aos operadores estrangeiros, se esforça agora para isolar o Nordeste das opções mais procuradas no mercado. O impacto já está sendo sentido no cancelamento de reservas próximos ao período de alta temporada.

Observou-se, neste caso, a sequência de atos típica do ministro: descaso ativo pela proteção ambiental com o desmantelamento de políticas estabelecidas, seguido de incompetência gerencial e técnica, completado com irresponsabilidade política e social motivada por visões destorcidas e imediatistas. O pior ministro possível não foi um descaminho do projeto que deu errado, mas uma opção determinada de um governo que detesta o meio ambiente.

A mancha nas praias pode, simbolicamente, ser o primeiro momento de revelação de outras sujeiras pegajosas que chegam de forma inusitada e que trafegam abaixo da superfície sem capacidade de detecção, até que emporcalham o ambiente econômico, político e social do país. É o caso da educação, ameaçada pela perseguição da liberdade de ensino, em alinhamento com o mercado e o pensamento conservador.

Ou da saúde, com o desmonte dos programas que levam atenção a regiões isoladas, o questionamento das práticas humanitárias em saúde mental e das ameaças ao SUS com a limitação de recursos. Ou da onda de privatizações, que entrega riquezas estratégicas em nome da promessa de redução do Estado, na verdade uma limitação da soberania. Sem falar nas manchas na cultura, com as reiteradas ameaças de censura e dirigismo.

Aos poucos, navegando por sob as águas da mentira, elas vão dar nas praias da vida real e revelam seu potencial de poluição na forma de perda de qualidade de serviços, retirada de direitos conquistados democraticamente e do estreitamento da liberdade em todos os sentidos. Como a promessa cumprida de destruição da previdência, comemorada pela imprensa hegemônica esta semana depois da aprovação do projeto no Senado.

Logo, a medida colocará todos a fazer as inevitáveis contas do que perderam para manter privilégios de corporações poderosas, como os militares e o Judiciário, além dos próprios parlamentares e seu entorno. Todos os demais trabalharão mais, contribuirão mais e vão receber – se é que vão – muito menos nos últimos anos de vida. Sobretudo as populações mais dependentes e as que vivem momentos difíceis, como doenças, viuvez e outras formas de vulnerabilidade.

Há uma crueldade quase orgulhosa no projeto, vendido como uma vitória contra a desigualdade que na realidade ele aprofunda, em nome de uma incerta retomada econômica. A ausência de uma resistência popular ao extermínio da previdência social é mais uma prova do movimento subterrâneo da sombra fascista que vai operando na sociedade brasileira, até chegar à costa da aparente inevitabilidade.

Sabemos de onde vem a mancha e que dimensão do território real e simbólico ela pretende cobrir de forma definitiva. Não é preciso esperar que venha dar na praia dos nossos sofrimentos para usar as mãos nuas contra a avalanche de retrocessos, a crença no diálogo como tentativa de conciliação possível, ou a valorização da representação política num cenário de interesses de classe já consolidados. 

Está na hora de se antecipar e afundar os navios inimigos.

Edição: Joana Tavares