Coluna

Sínodo da Amazônia e Dom Cláudio Hummes

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Hummes disse que Sínodo é um apelo à humanidade para salvar o planeta
Hummes disse que Sínodo é um apelo à humanidade para salvar o planeta - Foto: Divulgação CNBB
Dom Cláudio Hummes é o Relator do histórico Sínodo da Amazônia

“Bispos do Sínodo renovam Pacto das Catacumbas – Grupo de padres sinodais refaz o Ato e a opção preferencial pelos pobres, incentivados pelos temas apresentados na Assembleia sobre a Região Pan-Amazônica. D. Helder Câmara foi um dos membros do texto do documento histórico de 1965. O evento aconteceu na catacumba de Santa Domitila, em Roma, e o documento foi assinado por 40 bispos latino-americanos às vésperas da conclusão do Concílio Vaticano II. Em 2019, o Pacto das Catacumbas pela Casa Comum é organizado por Dom Erwin Kräutler e a celebração foi presidida por Dom Frei Cláudio Hummes, Relator do Sínodo” (Mirticelli Medeiros, Dom Total, em www.luisnassif.com.br).

Neste momento histórico, em que está terminando o Sínodo da Amazônia – AMAZÔNIA: NOVOS CAMINHOS PARA A IGREJA E POR UMA ECOLOGIA INTEGRAL –, convocado em 2017 pelo Papa Francisco, vale revisitar artigo por mim escrito e publicado em 2005, quando o Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito papa, assumindo o nome Bento XVI. Dom Cláudio Hummes era então um dos ‘papabili’.

Dom Cláudio Hummes 

Morei com Dom Cláudio Hummes em 1971/72, numa casa simples da rua Frei Germano, bairro Partenon, Porto Alegre, a assim chamada Vila Franciscana. Ele era o Mestre da comunidade dos estudantes franciscanos de Teologia e Filosofia, Diretor da Faculdade de Filosofia do Seminário Maior de Viamão e professor de Antropologia Filosófica. Depois, foi eleito provincial dos franciscanos, até ser sagrado bispo de Santo André, em 1975. Nos anos 80, quando eu já não era franciscano formalmente (me considero de fato e de coração), nos encontrávamos na Pastoral Operária, da qual eu era coordenador estadual e nacional.

No início dos anos 1970, os franciscanos começaram uma experiência pastoral inédita e revolucionária para a época, nas vilas populares da Lomba do Pinheiro, periferias de Porto Alegre e Viamão, iniciada por frei Arno Reckziegel, da qual vim a participar diretamente a partir de 1977 (e que continua até hoje, 2019). Na Lomba, fazia-se um trabalho de pastoral popular, à base das Comunidades de Base, de grupos de família e de reflexão, sem ser paróquia institucionalizada, e combinada com a luta por água encanada, posto de saúde, asfalto, etc., tudo que então faltava nas vilas populares.

Dom Cláudio unia duas coisas. Ser um intelectual brilhante (foi o primeiro nas aulas de Antropologia Filosófica a nos falar da teoria marxista sem o ranço e o preconceito dominantes da época) e ter sensibilidade pastoral e cuidado com os pobres e trabalhadores, mesmo sendo sempre um moderado com bom senso e conciliador.

A vida simples de uma comunidade franciscana era novidade para a época. Estava-se acostumado a grandes seminários, como o de Taquari e o de Daltro Filho. Casa simples, um quarto sem luxos para cada um, uma pequena capela, na verdade uma sala node nos sentávamos em círculo, uma convivência direta todos os dias. Tudo isso Dom Cláudio viveu: ir junto às aulas, de Kombi, torcer pelo Grêmio (gremista de acompanhar futebol em detalhes e torcer), rezar e estudar muito, coordenar um grupo de jovens estudantes em início do seu trabalho pastoral, pela primeira vez morando na cidade grande, buscando caminhos, querendo mudar o mundo, ligando a fé à vida e à realidade, descobrindo a Teologia da Libertação.

Daí alegra o fato de Dom Cláudio dizer que o futuro papa deve preocupar-se com três coisas (dito em 2005, grifo meu em 2019): é preciso a Igreja Católica discutir as novidades da ciência na área da bioética e biogenética (ela, aliás, ao longo da História, perdeu-se mais de uma vez por sua rigidez dogmática contra o novo e os avanços. João Paulo II pediu perdão por estes erros históricos). O futuro papa deve ampliar o diálogo inter-religioso (o Mestrado de Dom Cláudio teve como tema o ecumenismo). E deve preocupar-se com a pobreza no mundo, tema central do governo Lula.

Seria, portanto, uma bênção se Dom Cláudio fosse o futuro papa, um franciscano, um brasileiro, um latino-americano, com sua história e vivência. Selvino Heck, Assessor Especial do Presidente da República (Zero Hora, 13.04.2005).”

Dom Cláudio Hummes não foi eleito Papa em 2005. Mas foi quem, em 2013, eleito Papa o Cardeal Jorge Bergoglio, argentino, primeiro Papa latino-americano, soprou-lhe aos ouvidos: ‘E não se esqueça dos pobres’. Com este recado, o Cardeal Bergoglio, simbolicamente, mesmo sendo jesuíta, escolheu o nome Francisco, pela primeira vez na história. Hoje, 2019, Dom Cláudio Hummes é o Relator do histórico Sínodo da Amazônia, por escolha do Papa Francisco: ecologia integral, opção preferencial pelos pobres, cuidado com a Casa Comum. Nas palavras do Papa Francisco: “Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade.”

A História se move.

Edição: Marcelo Ferreira