MULTILATERALISMO

Conheça o Movimento dos Países Não Alinhados e sua importância no apoio à Venezuela

Após 3 anos na liderança do bloco que reúne 120 nações, o presidente Nicolás Maduro transmitiu o cargo ao Azerbaijão

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

,
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro passa a liderança do MNOAL ao presidente do Azerbaijão,Ilham Aliyev / MNOAL

Durante o último fim de semana, o presidente da Venezuela Nicolás Maduro encerrou seu mandato de três anos como presidente do Movimento dos Países Não Alinhados (MNOAL), maior bloco de disputa das Nações Unidas. São 120 nações que estiveram representadas na 18ª cúpula de Azerbaijão, país que agora assume a liderança do Movimento, que realizou mais de 200 reuniões sob o comando de Maduro.

O MNOAL foi criado em 1961, numa conferência em Belgrado, Sérvia, que reuniu 25 nações, a maioria da África e Ásia, num contexto de início da Guerra Fria. A proposta era criar um novo bloco que não estivesse alinhado nem aos Estados Unidos, tampouco ao bloco socialista, liderado pela União das Repúblicas Socialista Soviéticas (URSS).

O bloco mantém reuniões periódicas e presidência rotativa a cada três anos, intercalando as regiões. É composto por 53 países de África, 39 nações asiáticas, dois países europeus e 26 países de América Latina, incluindo a Venezuela e o Brasil.

Entre os seus objetivos do Movimento, está o apoio à autodeterminação e soberania dos povos; a luta contra o imperialismo; e o rechaço ao uso da força nas relações internacionais. É por isso, que segundo o embaixador venezuelano na Organização das Nações Unidas (ONU), Samuel Moncada, 88% dos enviados especiais das Nações Unidas para promover a paz no mundo são do MNOAL.

Também, a partir da proposta do Ministro de Relações Exteriores, Jorge Arreaza, em nome do bloco, a ONU instituiu o dia 12 de dezembro como “Dia Internacional do Multilateralismo e a Diplomacia de Paz”.

“O MNOAL significou e ainda significa o esforço mais importante dos povos para constituir uma instância de diálogo com irmandade e de respeito, em função de compartilhar uma busca plural de um novo mundo; sem impérios, sem colonialismo, racismo ou dominação de qualquer tipo”, afirmou o presidente Nicolás Maduro.

Cooperação econômica

O período na presidência dos Não Alinhados, também favoreceu as relações econômicas da Venezuela, principalmente com outros países afetados pelas sanções dos Estados Unidos, como Irã, Palestina, Vietnam e a República Popular Democrática da Coreia.

Na última reunião ministerial do MNOAL, em julho, em Caracas, o chanceler iraniano, Mohammad Yavad Zarif e a vice-presidenta venezuelana, Delcy Rodríguez assinaram novos acordos nas áreas energética, agroindustrial e petroleira.









Em 2015, o Irã investiu US$500 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) na Venezuela. A relação diplomática entre as duas nações tiveram um primeiro impulso nos anos 2000 com os presidentes Hugo Chávez e Mahmud Ahmadineyad, que estabeleceram intercâmbio no setor de defesa, automotriz e de construção civil.

Já com a Palestina, outro país agredido pelo governo de Israel, com apoio da gestão Donald Trump, a Venezuela começou a negociar intercâmbio comercial a base do Petro – a criptomoeda venezuelana ancorada nas reservas de petróleo do país. Desde 2014, foi criada uma empresa mista entre os dois países para garantir o abastecimento de combustível aos palestinos.

Em 2018, o governo de Nicolás Maduro criou um fundo binacional de 20 milhões de petros, com um cambio de US$64 por petro, seria equivalente a US$1.280 bilhões (aproximadamente R$5120 bilhões).

Além disso, em setembro desse ano, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), Diosdado Cabello liderou uma comitiva venezuelana que viajou ao Vietnam e à República Popular Democrática da Coreia.

Com os vietnamitas, os venezuelanos busca aprender novas técnicas de cultivo de arroz para substituir monocultivos atuais e incentivar a agricultura nacional. Para isso, a ministra de Comunas Bianca Eekhout foi uma das representantes do governo bolivariano.

Com os coreanos, a proposta é intensificar o intercâmbio tecnológico e em outros setores estratégicos, segundo declarou Cabello.





Influência na ONU

Segundo o analista político Jorge Martín, o poder político do MNOAL foi sentido na última Assembleia Geral da ONU, mas não foi suficiente para garantir, por exemplo, a suspensão das sanções econômicas contra a Venezuela.

“Houve um movimento forte de países que se opuseram às sanções, à ingerência imperialista e ao bloqueio contra a Venezuela e isso teve impacto, no sentido de que não puderam aprovar determinadas moções. Mas ao final, enquanto Venezuela intervinha muitos representantes de outros países saíram da sala e as sanções e o bloqueio permanecem”, comenta Martín.

Uma das propostas do Movimento é a reforma das Nações Unidas, começando pela mudança da estrutura do Conselho de Segurança, organismo com cinco países membro permanente (EUA, China, Rússia, Reino Unido e França) e outros dez rotativos.

Para Martín, porém, uma reforma do organismo não é possível: Ele deveria ser refundado. “O imperialismo ignora as decisões das Nações Unidas. Ao final os países resolvem os litígios internos não por meios democráticos mas pela força. Na medida em que os Estados Unidos são o maior país imperialista do mundo é ele quem termina decidindo muitos conflitos”, pontua.

Em sua história, o MNOAL aprovou resoluções que condenam as sanções impostas contra a Venezuela, o bloqueio contra Cuba e a agressões ao povo palestino, porém justamente pela sua diversidade, o Movimento acumula críticas de pouca efetividade no embate contra as ações intervencionistas dos Estados Unidos e da União Europeia.

“Por isso o máximo que se pode aspirar do MNOAL é um papel de denúncia, mas os problemas realmente não são resolvidos nas Nações Unidas, mas somente por meio da luta de classes diária em cada país e também a nível internacional”, finaliza Martín.

Edição: Rodrigo Chagas