Coluna

Luzes na Cidade | Silêncio que se rompe nas ruas

No Chile, a violência da repressão e o toque de recolher de 1973 também ecoam neste histórico outubro de 2019

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Mariana Sanches é colunista do Brasil de Fato Paraná / Arte: Vanda Moraes

A culpa é da insularidade do território, dizem. Espremido entre a dureza da cordilheira e um gélido oceânico manso apenas no nome, delimitado pelo deserto mais seco do mundo, ao norte, e por inóspitos glaciares ao sul, o Chile é puro enrijecimento. O espanhol falado por lá é truncado, difícil de compreender. Há uma densidade intransponível no silêncio dos chilenos, e lembro de senti-la bem perto, numa cabine de caminhão, viajando de carona pela rodovia Panamericana. Lembro também das minhas primeiras impressões de Santiago: uma capital tomada por carabineiros. Homens armados por toda parte. Um país militarizado. Dizem que a culpa é da insularidade, mas pode ser do medo. Porque a violência da repressão e o toque de recolher de 1973 também ecoam neste histórico outubro de 2019. Mas, de repente, o sistema estala e o silêncio se rompe. Depois de tirar tudo dos chilenos – educação, saúde e até mesmo a água -, o neoliberalismo também tirou o medo. E agora, no ponto mais alto da Plaza Itália, o coração do país, há uma bandeira Mapuche dizendo tudo o que precisava ser dito, há tanto tempo. 

Edição: Lia Bianchini