RESISTÊNCIA AFRICANA

Artigo | Irmandades de negros, devoção à Nossa Senhora do Rosário e à ancestralidade

No Estado da Paraíba, existem registros dessas irmandades em várias localidades desde meados do século XVIII

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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Grupo de Reisado em frente à igreja Nossa Senhora do Rosário, no mês de outubro de 2013, em Pombal (PB). / Trabalho de Conclusão de Curso de Mércia Maria da Silva Figueredo

Conta a lenda: “… E quando Ifigênia, a que depois virou Santa, viu que seus filhos roubados da África sofriam na nova da terra, a que chamavam Brasil, onde ela não podia mandar porque era negra atravessou os mares e veio a ter com Nossa Senhora. Essa, mãe de todos os homens recebeu de Santa Ifigênia seu manto e prometeu guardar sob ele todos os “homens de cor” que pediam seu socorro. E desde então, eles passaram a orar para a Santa do Rosário.”



Laycer Tomaz (2000)


A narrativa da lenda remete a uma das mais relevantes manifestações festivas de caráter religioso praticada por negros/as no Brasil há mais de dois séculos: a devoção a Nossa Senhora do Rosário. As irmandades de negros, originárias da Europa, presas a lógica católico-cristã serviam a um propósito: catequização e conversão dos povos africanos - uma estratégia que permitia a introdução dos preceitos básicos da Igreja Católica: caridade, perdão, resignação, esperança no devir, … Todavia, o propósito maior é que a instituição dessa “relação de fé” permitia o controle sobre as organizações e ações dos negros e negras, uma vez que qualquer forma de ajuntamento desses/as só era permitida para rezar. Razão pela qual as irmandades foram introduzidas na África e posteriormente na América, assumindo forma plena na América portuguesa.

Foi dessa “ardilosa” prática da Igreja Católica com as populações de descendência luso-africana e afro-indígena americana que surgiria uma forma de catolicismo popular e sincrético (incorporando práticas mágico-religiosas dos povos africanos e nativos da América) que muito contribuiria para a organização social das colônias e para a organização de expressões de fé representativas da estratificação e hierarquização racial/social do que se constituiria ser o Brasil. Nossas irmandades seriam também hierarquizadas e vinculadas as distintas pertenças: irmandades de homens de cor, irmandades de homens pretos, irmandades de homens pardos, irmandades de homens preto escravos, irmandades de homens pretos forros, irmandades de homens pretos livres, … a maioria vinculada a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito (e outros santos).

Com o passar dos anos, para além das manifestações de fé, estas irmandades de negros/as tornaram-se também espaço de enfrentamento político com os “senhores”. Imbuídas de forte compromisso social, as irmandades passaram a integrar grande massa de negros/as com o intuito de auxiliar os/as mais necessitados/as, do atendimento aos enfermos a aquisição de instrumentos de trabalho e sementes, fortalecendo assim as relações e estabelecendo laços de pertenças entre os/as irmãos/ãs de cor. Pois, entre os princípios que constituem a identidade africana estava “instituído” que é preciso pertencer para existir, para ser e para ter.

Dessa amálgama originava-se uma festa religiosa também expressão das práticas culturais dos povos africanos, um espaço no qual foi introduzindo uma prática milenar entre os povos africanos antigos: os cortejos de reis e rainhas negros/as como expressão de força e poder. De tal modo, os rituais de coroação de reis e rainhas negros/as e a apresentação da corte real a sociedade tornou-se um dos aspectos mais significativos das irmandades de negros no Brasil, tornando-a fundamental para o reconhecimento social valorativo, a preservação das tradições e resistência cultural dos/as africanos a medida que as mesmas permitiram a manutenção da memória e o vínculo com passado em África.

Ao longo dos séculos as irmandades de negros e as festas de coração de rei e rainha negros/as foram se espalhando por todo território brasileiro, de Norte a Sul. No Estado da Paraíba, existem registros dessas irmandades em várias localidades desde meados do século XVIII: Parahyba do Norte, Areia, Ingá, Campina Grande, Alagoa Grande, Alagoa Nova, Sousa, Pombal, Santa Luzia, entre outras localidades. Na maioria delas, infelizmente, extintas as festas e as referidas igrejas demolidas; em outras ainda em plena atividade, a exemplo das Irmandades de Negros dos municípios de Areia (1648), Pombal (1698) e Santa Luzia (1702) nos quais no mês de outubro herdeiros e herdeiras desse legado continuam sendo coroados/as, constituindo suas cortes e desfilando em cortejos pelas ruas da cidade para lembrar seu passado de nobreza. Por exemplo. No município de Santa Luzia, localizado na região do Seridó Ocidental Paraibano, a “Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos” constitui-se uma prática cultural secular, realizada no mês de outubro há 148 anos. No município de Pombal, localizado na região do Sertão, há 131 anos, também no mês de outubro, se realiza a “Festa de Nossa Senhora do Rosário” – sempre em frente a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, uma das igrejas mais antigas do interior da Paraíba. Como parte dessas atividades em ambas as festas  acontece a coroação do rei e rainha negro/a membros da Irmandade do Rosário dos Pretos tornando-as festas  de referência para o conhecimento da nossa história, do patrimônio cultural imaterial da Paraíba, assim como da manutenção da memória e afirmação da identidade cultural do povo negro paraibano.

Portanto, estas festas, ritualisticamente ricas, com suas expressões de religiosidade (prática sagrada) e práticas festivas (práticas profanas) tiveram papel fundamental na integração dos/as negros/as na sociedade, possibilitando a preservação de traços culturais africanos, uma representação simbólica de uma ordem que configurava todo um contexto histórico e social de uma época. Graças a estas manifestações festivas religiosas continuamos vendo/tendo acesso a folguedos e brincadeiras belíssimas: Reisado, Negros dos Pontões, Congos, “Tope do Juiz” (em Santa Luzia, ocasião na qual o “Juiz da corte” e a “Rainha dos vaqueiros”, acompanhados de centenas de vaqueiros, saem no início da manhã da zona rural em procissão conduzindo uma imagem de Nossa Senhora ao encontro da “corte real” em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na sede do município). Sempre ao som do batuque, das bandas cabaçal, em seus cortejos desfilando pelas ruas das cidades tendo a frente um “abre alas” formado por lanceiros que, com suas longas lanças, dançam e executam elaboradas manobras esta história continua mantendo viva o vínculo com o passado.

E foi assim, como no dizer de Marina Melo Souza (2002) que aconteceu “a reunião em grupos oriundos da mesma etnia ou de regiões próximas, pertencentes a um mesmo complexo sociocultural, foi outra forma encontrada [que contribuiu] para recriar as afinidades antes fundadas nas relações de parentesco”.

*Antropóloga, pesquisadora, professora da UEPB/NEABI

Edição: Heloisa de Sousa