Em Mariana

Encontro de Atingidos por Barragens discute "enrolação" da Vale após 4 anos

Atividades ocorrem de 3 a 5 de novembro com reuniões internas e manifestações

Brasil de Fato | Mariana (MG)

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Encontro reúne atingidos por barragens da Bacia do Rio Doce, do Paraopeba, do Rio Pardo e do Jequitinhonha / Divulgação MAB

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) promove, desde domingo (3), o Encontro dos Atingidos por Barragens, em Mariana (MG), com pessoas da Bacia do Rio Doce, do Paraopeba, do Rio Pardo e do Jequitinhonha. O evento marca os quatro anos do rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, da Vale e BHP Billiton. Atividades de estudos e organização fazem parte da programação.

::Confira especial sobre os quatro anos do crime da Vale no Rio Doce, em Mariana (MG)::

A noite dessa segunda-feira (4) foi marcada por um ato político com pessoas, organizações e instituições que contribuem com o movimento. “Aliados são aqueles que a gente coloca uma ‘aliança’, são mais do que parceiros”, lembrou Aline Ruas, integrante do MAB. No palco, foram recebidos o promotor André Sperling, do Ministério público de Minas Gerais; representantes de sindicatos; integrantes da Igreja Católica; parlamentares, como Beatriz Cerqueira; e representantes de meios de comunicação, entre eles o Brasil de Fato. Os aliados receberam como lembrança um boné e uma casa em pedra sabão, representando a casa que o MAB está construindo na cidade de Barra Longa (MG).

“Receber esta casa vale mais do que qualquer medalha Tiradentes [honraria concedida pelo governo mineiro], porque ela vem de quem precisa”, agradeceu Sperling.

Feliciana Saldanha, do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (SindUTE/MG), destacou a união da classe trabalhadora. “Se a nossa união já existia antes desse crime, essa fatalidade nos uniu ainda mais. É um orgulho ser convidada para mais essa tarefa, que é construir o que a Vale destruiu”, reafirmou.

Casa para os atingidos

Mesmo após quatro anos do crime, as famílias de Bento Rodrigues e comunidades atingidas não receberam novas moradias. Em denúncia a essa demora, o MAB propôs a construção de uma casa com seus próprios meios, utilizando o slogan: “A solidariedade constrói direitos”. A organização está convocando aliados para contribuir nessa campanha.

Para o padre Alex, pároco em Paracatu de Baixo, o tijolo que a igreja coloca é o da espiritualidade e de reforço à solidariedade. “A palavra solidariedade constrói não só uma casa, mas um ambiente e uma sociedade novas”, afirma. “O que mais as mineradoras querem é nos ver desanimados para estenderem uma bandeira da vitória. Mas isso elas não vão ter”.

A parlamentar Beatriz Cerqueira (PT) reafirma sua parceria em levar para o parlamento as pautas das pessoas e das famílias atingidas. Mas a homenagem da parlamentar foi para o MAB. “Acompanho essa luta desde o início. Chorei muitas vezes, percorri a lama muitas vezes. Eu sou testemunha de que todas as instituições públicas falharam, mas tem alguém que não falhou: o MAB. Mesmo sendo criminalizados, mesmo quando eram desacreditados pelos advogados das mineradoras. A gente sabe o grau de renúncia pessoal. E vocês são essenciais não só para os atingidos, mas para todos nós”, concluiu a parlamentar.

Exposição "Minas que me Feres"

Durante o evento, o MAB lançou ainda uma exposição que conta, em fotos, o rompimento das barragens de Fundão, em Mariana, no ano de 2015, e da barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, neste ano. A mostra é obra de um edital em que 80 fotógrafos e fotógrafas participaram. Impressa em pano, a exposição vai passar por diversas cidades do Brasil.

“Essa é nossa contribuição para a luta, cuidar da nossa imagem e fazer com que ela chegue o mais longe possível”, diz Marcelo Aguilar, comunicador o MAB e um dos organizadores da exposição.

“Queríamos divulgar imagens que ficaram no nosso imaginário, na nossa pele, e levar a pessoas que não viveram isso”, disse Isis Medeiros, também organizadora da exposição.

Programação desta terça-feira (5)

O último dia do encontro terá atividades externas. Na manhã, os atingidos realizam o ato “A solidariedade constrói direitos”, em Barra Longa, no local onde a casa está sendo construída. Às 14h, será realizado um ato ecumênico e, às 16h30, uma caminhada em Mariana com o tema “A Vale mata, a Renova enrola e os atingidos constroem!”.

Edição: Camila Maciel