Internacional

Crônica | Viagem à Palestina: parte II - Resistência

Na segunda parte do relato de viagem, a junção do quebra-cabeça milenar palestino: cultura, religião e resistência

Cisjordânia

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Os palestinos acabaram por desenvolver uma identidade ligada à resistência distinta dos demais árabes / FEMCAI

Cisjordânia, agosto de 2019.

O vilarejo está rodeado de Oliveiras, essas árvores centenárias que moldam a paisagem de toda a Palestina, que adentram quintais de casas e que são o símbolo desse povo. Delas se extrai o fruto que serve de alimento fundamental para a culinária, assim como o seu óleo, o azeite, alimento também indispensável da culinária palestina. Das sobras desse processo de retirada do azeite, o bagaço, saía o antigo combustível para o aquecimento das casas. Além disso, as árvores mortas servem com suas madeiras aos mais diversos propósitos. Na paisagem árida, desta época do ano, o verde predominante é oriundo dela – a Oliveira – a árvore mãe dos palestinos.

Quanto ao vilarejo, tem sua origem perdida na história milenar da região, não se sabe ao certo quando surgiu. Alguns advogam ter sido um importante ponto de passagem pelas terras palestinas desde muito, ninguém estima menos que 2000 anos, alguns até 2500 anos de idade. Além disso, se pensarmos na pequena dimensão de toda a Palestina, estamos em terras por onde passaram, viveram e/ou estão enterrados figuras como Jesus, Abraão, Moises, Ismael, diversos santos, isso no campo da religiosidade, e não menos no campo da história. Por aqui passaram personagens e aconteceram episódios significativos para a humanidade, o que cria e consolida em todos os palestinos orgulho e robustos laços com essa terra.

É preciso juntar todas as peças desse quebra-cabeça: a casa centenária, o centenário narguilé, o gamão centenário, os milenares chá e café com todo o requinte para adquirirem suas atuais formas, o idioma árabe milenar, o milenar azâân, o milenar cultivo da Oliveira, o vilarejo palestino milenar com intensas relações interpessoais, a farta história e religiosidade que saturam toda a Palestina.

Essas peças remetem a uma identidade que se formou há muito e carrega consigo elementos históricos e culturais anteriores à chegada dos árabes, assim como posteriores a esses e que foram absorvidos e incorporados pelos árabes palestinos. O que faz, no fundo, essa rica história própria é gerar uma “face árabe” distinta das demais faces árabes do mundo. Esse povo, em toda a sua longa história, se fez, se refez, se desfez em outros até culminar na sua última grande transfiguração étnica em árabes palestinos, e mesmo esses não deixaram de absorver, ao seu modo, a história que percorreram até os dias de hoje.

A identidade palestina é parte da resposta a uma questão central da resistência ao processo de colonização sionista, a saber: um povo que sabe “quem é”, que sabe “o seu lugar no mundo” e que tem “raízes profundas nesse lugar” não se desfaz facilmente.

Uma das premissas centrais do colonizador sionista, como de todas as outras colonizações similares europeias, era a da inferioridade do colonizado. Foi assim em África, Ásia e América. No caso específico da Palestina, os sionistas acreditavam que, ao expulsarem os árabes palestinos de suas casas, vilas, cidades, terras - através do terror e da violência -, esses, por sua vez, deixariam de existir, em duas ou três gerações. Apostavam que os palestinos se transformariam num “árabe genérico”, sem traços próprios,  acabando no exílio sob tendas de refugiados ou se "dissolvendo" enquanto identidade no imenso “mar de árabes” que os circundava, seja no Líbano, na Síria, no Egito, Iraque, Golfo ou na Jordânia.  O colonizador sionista, prepotente e incapaz de ver grandeza no outro, cometeu um gigantesco erro de previsão, e o que vimos nesses mais de 70 anos desde a Nakba foi a identidade palestina se fortalecer e adquirir contornos claros e definitivos ante a presença do invasor estrangeiro.

A força que Israel empregou e emprega sobre o povo palestino é imensa, brutal, descomunal, um monstruoso gasto de forças incomparável às outras colonizações do século XX, com o objetivo nítido de aniquilar o povo originário. Era esperado por eles, portanto, que o resultado fosse a extinção do árabe palestino, mas a história mostrou a resistência inabalável desse povo. Posso dizer mais ainda, os palestinos acabaram por desenvolver uma identidade ligada à resistência distinta dos demais árabes, a ponto de hoje serem os mais politizados e com um elevado grau de escolaridade em relação a toda região.

A prova mais forte dessa resistência inabalável é dada nos campos de refugiados fora da Palestina, as gerações e gerações que se sucedem não veem a si mesmas como “árabes genéricos”. Todos têm certeza que são palestinos, certeza de sua identidade, da terra a que pertencem e de que retornarão a ela – Insha'Allah - em breve. O povo palestino é o maior entrave ao sonho do colonizador sionista e, dia a dia, na luta de resistência, se firma como seu maior pesadelo e será, mais cedo ou mais tarde, seu principal algoz.

Edição: Lia Bianchini