RUPTURA

El Salvador expulsa missão diplomática venezuelana

Presidente Nayib Bukele passa a reconhecer Guaidó como chefe de Estado interino

Caracas (Venezuela)

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Bukele assumiu em junho com discurso alinhado à Casa Branca / Divulgação

O anúncio foi publicado pelo presidente salvadorenho no domingo, (3), dando 48 horas para que a missão diplomática nomeada por Maduro deixasse o país. 

Segundo o comunicado, a decisão segue a mesma postura do país na Organização dos Estados Americanos (OEA) que é a de apoiar as denúncias de supostas violações de direitos humanos na Venezuela. Em resposta, o governo bolivariano também expulsou o corpo diplomático de El Salvador em Caracas.

 









 

A decisão foi elogiada pelo secretário de Estado estadunidense Mike Pompeo. O deputado Juan Guaidó celebrou ação e afirmou que a medida faz “parte da pressão internacional que deve encontrar-se com a pressão das ruas”.

No entanto, foi criticada por vários movimentos sociais salvadorenhos, que acusam Bukele de servilismo à administração Trump, numa nota assinada por oito entidades.

 

Parlamentares da Frente Farabundo Marti de Libertação (FMLN) e o ex-presidente Salvador Sánchez Cerén repudiaram a decisão. “Guaidó é uma pessoa imposta, não podemos reconhecer esse governo”, pontuou o ex-guerrilheiro e ex- chefe de Estado.

Já o Ministério de Relações Exteriores declarou que o mandatário salvadorenho assume uma postura de peão da política exterior estadunidense, “fornecendo o oxigênio à minguante estratégia de intervenção e bloqueio econômico dos Estados Unidos”. E declarou o embaixador Domingo Santacruz Castro como persona non grata na Venezuela.



 

Denúncias

Com a decisão, todo o corpo diplomático venezuelano, liderado pela embaixadora Nora Uribe e seus acompanhantes, devem deixar o território do país centro americano ainda hoje. Eliana Hernández, cidadã venezuelana e esposa do Ministro Conselheiro da Embaixada da Venezuela em El Salvador, Fernando Díaz, declarou que a viagem de regresso pode colocar em risco sua gravidez.

Hernández tem 27 semanas de gestação de trigêmeas, considerada de alto risco, o que requer repouso absoluto, por isso, foi desaconselhada pelos médicos a viajar, já que às tensões às quais seria exposta poderiam adiantar o parto. “Nayib Bukele, que obviamente segue as ordens do imperialismo yankee, será responsável por qualquer coisa que pode passar comigo e com minhas filhas”, afirmou a venezuelana.

 





 

Sob a tutela de Trump

Bukele é o presidente mais jovem da história do seu país. Eleito no primeiro turno, com 53,78% dos votos, em 3 de fevereiro deste ano. Com forte campanha nas redes sociais, o político de origem palestina se intitulava como uma aposta jovem para renovar a política de El Salvador. O empresário, que foi prefeito da capital San Salvador pelo FMLN em 2015, rompeu com o partido em 2017 e fundou a Grande Aliança pela Unidade Nacional (GANA) em 2018.

No melhor estilo Trump, Bukele dá poucas coletivas de imprensa e baseia sua comunicação institucional através do seu perfil no twitter, publicando desde memes até comunicados oficiais.

Desde que assumiu o poder, em junho, seguiu as orientações da Casa Branca para conter a migração centro americana a Estados Unidos. 

Apesar de ter assinado o Plano de Desenvolvimento Integral da América Central, proposto pelo governo mexicano de Andrés Manuel López Obrador, também conseguiu acordar com Washington a extensão por um ano do Status de Proteção Temporária aos imigrantes salvadorenhos em situação irregular nos EUA.

Porém a medida não impediu que a administração Trump deportasse 85 mil hondurenhos até setembro de 2019. Com cerca de 800 mil salvadorenhos em terras norte-americanas, aproximadamente 20% do PIB do país é gerado pelas remessas enviadas do exterior.

Disputa diplomática

Outro governante centro-americano recém-eleito, que seguirá os passos da Casa Branca, é Alejandro Giammattei. Ele assumirá a presidência da Guatemala em janeiro de 2020.

Logo depois do anúncio da ruptura de relações entre Venezuela e El Salvador, Giammattei - que recentemente tentou entrar na Venezuela com passaporte italiano e sem um pedido de visita oficial ao país - anunciou que também reconhecerá o governo de Guaidó e abandonará as relações com Maduro.

Em maio de 2018, o presidente guatemalteco Jimmy Morales já havia expulsado Elena Alicia Salcedo, embaixadora de Maduro, por suposta ingerência nos assuntos internos do país, para reconhecer a indicada de Guaidó, Maria Paula Romo no seu lugar. Apesar dos anúncios, na prática, Morales manteve a diplomacia com a administração bolivariana.

Guatemala também se alinha aos interesses migratórios dos Estados Unidos. Em Agosto, Jimmy Morales assinou um acordo para assumir o status de Terceiro País Seguro, que prevê a oferta de asilo a imigrantes que estejam esperando por visto para cruzar a fronteira para o norte.

Um acordo que tanto os republicanos quanto os democratas buscam assinar com El Salvador e Honduras para conter novas caravanas migrantes.

Por outro lado, mais de 120 países seguem reconhecendo a legitimidade do mandato de Maduro e seguem estabelecendo relações econômicas, comerciais e diplomáticas estáveis com a nação bolivariana.

Nesta semana, o presidente de Banglaesh  Abdul Hamid recebeu as credenciais de Coromoto Godoy, embaixadora nomeada por Nicolás Maduro.

 





 

Incerteza

Cerca de 50 países reconhecem o opositor Juan Guaidó como presidente venezuelano, no entanto, em nenhuma delas os representantes nomeados pelo deputado podem exercer funções oficiais de um bureau diplomático.

Os venezuelanos são a 15ª nacionalidade no ranking de imigrações de El Salvador. Em 2017, havia 243 pessoas estabelecidas com residência no país. Ainda não foi divulgado de que forma esses cidadãos poderão realizar trâmites diplomáticos no próximo período. Tampouco como será a concessão de vistos entre ambas nações daqui por diante.

 

Edição: Rodrigo Chagas