Pacotaço

Artigo | Ofensiva liberal: a força do “doido” e as tropas medonhas

Collor de Mello e FHC não garantiram tantas oferendas ao “mercado” quanto Bolsonaro

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Medidas de Jair Bolsonaro (PSL) desmontam fundos públicos, carreira de servidores e alinham regras de contas públicas a interesses rentistas / Evaristo Sá/AFP

Hoje os brasileiros passaram a ter as primeiras noções acerca da amplitude e da profundidade do megapacote recém-apresentado em vista da regulação de contas públicas. Direitos trabalhistas anulados e funcionalismo tratado como raça maldita. Pacto federativo em vigor atingido na medula sem que fique estabelecido um novo tipo de relação entre os entes da União. Fundos públicos de amparo às políticas sociais e múltiplas atividades do Poder Público, incluindo as estratégicas, sacrificados em benefício da liberação de recursos públicos para a especulação financeira.

Que força tem este governo! Somando tudo o que já fez, ao que me consta, não há registro anterior de ofensiva liberal equiparável. Durante a ditadura, os liberais se perfilavam ao lado de iniciativas estatais visando o desenvolvimento capitalista. As veleidades de soberania não foram integralmente sepultadas. O Estado, inclusive, ganhou capacidade de planejamento estratégico. Collor de Mello e FHC não garantiram tantas oferendas ao “mercado” quanto Bolsonaro.

Esse pacote, ampliando as maldades acumuladas até agora, será imposto aos brasileiros. A forma alegre com que a grande imprensa apresentou as novidades, as manifestações simpáticas dos presidentes da Câmara e do Senado, a fragilidade da esquerda e o tonitruante silêncio das ruas indicam que será efetivado. Com remendos negociados pelas direções parlamentares, as propostas de Guedes passarão. O esquema repressivo está pronto para eventuais protestos incômodos.

É admirável como um presidente que pode perder o mandato por numerosos crimes de responsabilidade, pelo envolvimento com milícias criminosas e apoiado por um contingente minoritário de brasileiros logra proezas impensáveis, destruindo décadas de construção do Brasil.

De onde vem a força desse sujeito classificado como “tosco”, “incapaz”, “burro”, “paranoico”, “irracional”, “doidão”, “maluco”, “ridículo”?

O sucesso do neoliberalismo selvagem reflete uma combinação diabólica de atores, procedimentos e circunstâncias.

Tubarões das finanças globais, operadores da estratégia de dominação estadunidense, patrões da grande mídia brasileira, políticos fisiológicos, pastores evangélicos ricos e poderosos, grandes produtores agrícolas sedentos de lucros fáceis, grileiros que reencarnam o colonizador assassino, militares salvadores da pátria e ávidos de complementação de rendimentos, juízes seduzidos pela militância política, policiais reacionários e sem amor à lei, milicianos candidatos a senhores da guerra, diplomatas sem noção de dignidade, procuradores sem escrúpulos, professores e estudantes sem compromissos com sua função social. Essa é longa a lista dos componentes da santa aliança em torno de um rebento da ditadura bem relacionado com o submundo do crime carioca.

O êxito das hostes medonhas deveu-se em parte às circunstâncias históricas especiais em que vivemos, típicas das grandes mudanças na “ordem mundial”. Tais mudanças são invariavelmente trágicas e implicam em abalos nos sistemas de valores, nas condições de produção e nos padrões políticos. A onda regressista que assola o mundo atualmente reflete a insegurança planetária quanto ao futuro de curto prazo e a incapacidade de sonhar com uma vida melhor.

O regressismo atinge a sociedade brasileira, desprovida de organizações políticas portadoras de futuro. A vitória da esquerda foi possível pela unidade em torno de um grande líder, não em torno de plataformas convincentes, arrebatadoras de corações e mentes, capazes de persistir à revelia do carismático.

Na política, o carisma é fundamental, mas não resume o jogo. Não há fragilidade maior do que a estrita dependência do carisma. Quando o símbolo é encarnado numa pessoa, o seu desaparecimento ou ausência é geralmente catastrófico. Hoje, a sociedade assiste aturdida a força do “doido” lhe arrebatar o sentido de dignidade. Atura sem reação despautérios cotidianos.

Os partidos de esquerda deixaram as massas esperando, quietinhas, sua atuação preclara. Atuando nos marcos institucionais, perderam o elo de ligação com os “de baixo” e os “do meio”. Os mandatos parlamentares não serviram para alimentar a luta de ideias e a mobilização popular. O controle de governos estaduais e municipais não serviu ao enfrentamento de problemas estruturais nem a consolidação da cultura democrática. 

A esquerda descobre, desconcertada e tardiamente, que a classe média é conservadora e aliada da “casa grande”. Que silêncio aterrador esse dos estudantes e professores brasileiros voltados para a pontuação curricular! Que impotência revelam as instituições da sociedade civil! Os católicos romanos não escutam Francisco e amargam a perda de espaço social.

Por quanto tempo persistirá a onda reacionária em que Bolsonaro surfa? Pode ser que dure muito. O Brasil reflete as injunções da política mundial e as mudanças no ordenamento global sempre foram longas e sangrentas. Mas há também sinais de fragilização do ambiente tenebroso. Note-se a insegurança em que se encontra o “homem mais poderoso do Planeta”. Note-se a projeção de força de seus desafiantes. Note-se ainda a indocilidade de nossos vizinhos sul-americanos quanto ao domínio neoliberal.

O reacionarismo penetrou na sociedade brasileira e sustenta o neoliberalismo. Mas o êxito das hostes medonhas será tanto mais temporário quanto mais rapidamente reencontrarmos o caminho da organização e da mobilização popular. Aliás, a libertação de Lula depende disso.

*Manuel Domingos Neto é ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa e Doutor em História pela Universidade de Paris

 

Edição: Camila Maciel