Despejos

Justiça adia reintegração de posse em acampamento Dalcídio Jurandir, no Pará

Nova data foi apresentada na última quinta-feira (7), por meio de uma liminar; MST promete resistência

Brasil de Fato | Belém (PA)

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Juíza da Comarca Agrária de Marabá, Adriana Divina Tristão, determina que o despejo das famílias seja no dia 21 de novembro / Catarina Barbosa/BdF

A juíza em exercício da Vara Agrária de Marabá, no sudeste do Pará, Adriana Divina da Costa Tristão, emitiu na última quinta-feira (7) uma nova data para a expulsão dos moradores que estão acampados há 11 anos na terra requerida pelo banqueiro e latifundiário Daniel Dantas.

Com isso, foi mantida a decisão do juiz Amarildo Mazutti. Segundo o documento, a reintegração diz respeito à Fazenda Maria Bonita e Três Lagoas. O período de desocupação de ambas era de 18 a 23 de novembro, entretanto, como a data incidiu em um fim de semana, o documento determina: "Antecipo a data de desocupação efetiva da Fazenda Maria Bonita para o dia 21 de novembro". O prefeito de Eldorado do Carajás, Célio Rodrigues (MDB), que já se pronunciou contra o despejo, também foi intimado, assim como o Ministério Público e a Defensoria Pública Agrária. 

As 212 famílias que vivem no local, batizado de acampamento Dalcídio Jurandir, produzem alimentos que abastecem as cidades de Xinguara, Redenção, Rio Maria, e Curionópolis. Os integrantes estimam que a produção chegue a 184 mil litros de leite por mês, destinados ao consumo próprio, e cujo excedente abastece a cidade de Eldorado dos Carajás.

No dia 11 de junho deste ano Mazutti concedeu liminar autorizando a retirada das mais de 2 mil pessoas que vivem na área. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) continua na Justiça reivindicando a anulação do título de propriedade da fazenda Maria Bonita sob o argumento de que a propriedade é fruto de grilagem. Além da grilagem, Daniel Dantas é acusado de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, suborno e formação de quadrilha. Ainda assim, foi concedida liminar em junho deste ano, à favor dele.

Além da produção agroecológica com mais de 45 tipos de frutas, verduras, leguminosas e hortaliças, que são comercializados nas feiras e mercados das cidades de cinco municípios paraenses, os acampados mantém um criadouro com 53 tanques de peixes. O prefeito de Eldorado do Carajás, Célio Rodrigues, na audiência do dia 11 de junho, disse que os produtores são imprescindíveis para a economia do município. “Aquelas pessoas estão lá há 11 anos. Eles produzem 8 mil litros de leite, têm plantio de mandioca, fábrica de farinha. Tem a Feira do Produtor Rural… Eles produzem muita coisa lá“, disse à época.

Vamos resistir

Alan Leite, da direção estadual do MST, afirma que os moradores do local reforçarão a resistência, desde a juventude até a coordenação do movimento.

"Após a entrega dessa intimação, a coordenação reuniu e, claro: vamos resistir. Resistir para existir. Esse é o nosso lema desde quando esse fantasma que ronda o acampamento está aqui ao redor. São 11 anos de luta, e a gente não vai arredar o pé, seja através da mobilização da juventude, dos nossos sem-terrinha e através dos nossos companheiros e companheiras acampados e assentados", afirma. 

Como parte da mobilização que fará à frente de luta para evitar os despejos, será promovido o 1º Encontro da Juventude de Eldorado. Um dos temas será as formas de resistência para manter as famílias que vivem hoje no acampamento Dalcídio Jurandir.

"O nosso intuito, sexta, sábado e domingo, é reunir o maior número de jovens aqui no Dalcídio para discutir a questão agrária, a análise de conjuntura fazer cultura e arte aqui nesse território, onde está com esse despejo marcado para esse mês. O encontro da juventude, inclusive, tem muito a ver com essa questão da resistência. Nossos pais, avós e tios estão aqui hoje resistindo, nós ocupando as escolas e as universidades… nós vemos isso como um futuro. É nessa terra que queremos estar com nossos familiares mais adiante", finaliza.

 

Edição: Rodrigo Chagas