América Latina

É possível derrotar o neoliberalismo?

Mesmo diante de um cenário adverso, de derrota profunda, a experiência argentina tem demonstrado que sim.

Brasil de Fato | Fortaleza (CE)

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Após quatro anos do governo neoliberal de Maurício Macri, todos os indicadores sociais pioraram. / Foto: Emergentes

A recente vitória eleitoral da dupla Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina, em 1º turno, com 48,04% dos votos válidos, tem motivado um conjunto de reflexões para as forças progressistas e revolucionárias na América Latina.

Após quatro anos do governo neoliberal de Maurício Macri, todos os indicadores sociais pioraram. O número de pobres na Argentina aumentou significativamente, chegando a 33% da população. A inflação disparou e em 2018, atingiu o índice de 47%, impactando em especial no preço dos alimentos. A desvalorização da moeda argentina, com o objetivo de atrair investimentos externos que nunca aconteceram, só irritou ainda mais a população, que viu seu poder de compra diminuindo cada vez mais. Para não falarmos do aumento exorbitante dos preços da energia e do gás.

Estes dados confirmaram o prognóstico do professor de filosofia da UFRJ, José Luís Fiori, para o qual, “em países extensos e com grande desigualdade social e territorial, as políticas e reformas neoliberais costumam ter efeito imediato e desastroso, do ponto de vista econômico, e catastrófico, do ponto de vista social”.

A crise social argentina, produto da implementação de um conjunto de políticas neoliberais, somada a mobilização dos setores populares, em especial das mulheres e dos trabalhadores da economia popular, foram decisivos para a vitória dos setores progressistas no pleito eleitoral deste ano.

Esta importante vitória, acrescenta novos elementos a seguinte questão: é possível reverter esta nova ofensiva neoliberal na América Latina?

Mesmo diante de um cenário adverso, de derrota profunda, a experiência argentina tem demonstrado que sim. Mas para isso, as forças progressistas e revolucionárias no continente, precisarão apostar de forma consequente na mobilização e organização popular, só ela será capaz de reverter as políticas neoliberais e as blindagens do estado capitalista.

Ao mesmo tempo, é preciso derrotar a estratégia do imperialismo estadunidense para a América Latina, que se baseia: na criminalização das lideranças populares; na promoção de golpes jurídico-parlamentares; na manipulação da vontade popular através das chamadas fake news; na imposição de sanções econômicas aos países que fugirem do receituário neoliberal; e na promoção de “levantes populares” de direita, tendo como base social as classes médias latino-americanas.

O governo Fernández-Kirchner inevitavelmente se deparará com uma situação econômica adversa e com as tentativas de desestabilização promovidas pelo imperialismo. Só a organização popular poderá dar sustentabilidade ao novo governo, que precisará se radicalizar para enfrentar as ameaças externas e seus aliados internos.

Talvez, estejamos diante do que o cientista político cubano Roberto Regalado, identificou como a possibilidade de um novo ciclo revolucionário no continente.

*Historiador e integrante da Direção Nacional da Consulta Popular

Edição: Monyse Ravena