Coluna

A volta dos dois demônios

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13 de Novembro de 2019 às 11:10

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Globo "dividiu seus lençóis com uma ditadura assassina durante 21 anos" / Latuff
Esta interpretação fuleira passou por uma recauchutada nas últimas eleições

Dois personagens estão de volta à arena política, ambos diabólicos. É o que sustentam as Organizações Globo e parte da mídia sua caudatária. Provando que não se emenda mesmo, embora sabendo dos prejuízos gerais de ordem política, econômica, jornalística, moral e lógica, o conglomerado dos Marinho empunha os mesmos fantoches e encena a mesma impostura mais uma vez. É a fantástica história dos dois demônios.

A historieta chegou de contrabando, adquirida da Argentina. Lá surgiu 40 anos atrás ao ser instalada a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas. Implantada em 1983 pelo presidente Raul Alfonsin, visava investigar e punir os crimes da ditadura militar. Torturadores, estupradores e assassinos alegaram, em sua defesa, que o outro lado, seus adversários armados ou não, também havia cometido delitos. Haveria, portanto, dois demônios e seria injusto punir apenas um. Os tribunais, porém, rejeitaram a lorota e a “teoria dos dois demônios” acabou na lata de lixo jurídico não apenas na Argentina, mas também no Chile e Uruguai.

No Brasil da Globo, esta interpretação fuleira da realidade passou por uma recauchutada nas últimas eleições. Na profecia dos oráculos globais, sobretudo os da Globonews, tanto Bolsonaro quanto Haddad eram “extremistas”. Ou seja, iguais. Ora, comparar Haddad – ou, vá lá, Ciro, Alckmin ou Marina - com um sujeito que defende a eliminação física dos adversários não pode ser somente deficiência cognitiva. De caso pensado, a Globo vendeu mercadoria avariada aos seus telespectadores, leitores e ouvintes. Mentiu para eles. Um caso para o Procon. E, por certo, a tese dos dois demônios ajudou a Aberração na sua vitória, induzindo eleitores à abstenção e ao voto branco ou nulo.

Agora, com Lula no papel de Haddad, os Marinho retomaram a ladainha, pondo-se, virtuosamente, no meio dos dois contendores, posando de baluarte da democracia. O que chega a ser cômico, levando-se em conta que o grupo dividiu seus lençóis com uma ditadura assassina durante 21 anos. Lula governou o país por oito anos sem que houvesse ataques à livre expressão. Pelo contrário, a livre expressão serviu de máscara para desfechar contra os governos petistas a maior campanha midiática da história do país. Que, no limite, levou à destituição de um governo legal e legítimo em 2016. Uma violência da qual o Brasil carrega as sequelas atuais, em meio ao mandato mais feroz e ameaçador das liberdades democráticas de que se tem notícia. Algo que, sem a conduta extremista, antijornalística e antidemocrática da Globo talvez não estivéssemos vivendo.

Edição: Katarine Flor