Racismo

Oposição pede punição ao deputado que quebrou placa em referência à Consciência Negra

"Atitude é atestado de truculência", disse o autor da obra, Carlos Latuff, após episódio; parlamentares pedirão punição

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Ataque à placa sobre genocídio da população negra se deu paralelamente ao lançamento de exposição que discute tema da consciência negra / Lula Marques/PT na Câmara

Deputados de oposição na Câmara dos Deputados pedirão ao Conselho de Ética uma punição para o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), que quebrou, na tarde desta terça-feira (19), uma das placas da exposição da Casa em referência ao Dia da Consciência Negra. A data é comemorada oficialmente nesta quarta (20), quando será protocolado o requerimento dos opositores.

A eventual punição deverá ser definida pelo colegiado, que pode pedir a cassação do mandato do parlamentar. Considerada um ato de racismo, a ação do pesselista ocorreu durante o lançamento oficial da mostra, que ocorria no espaço ao lado do corredor da exposição, localizado em um dos pontos mais movimentados da Casa por dar acesso ao plenário.  

 



Charge de Carlos Latuff vandalizada na Câmara.

 

A peça danificada é uma charge do cartunista Carlos Latuff que faz referência ao genocídio da população negra por agentes policiais. O deputado Coronel Tadeu é policial militar e integrante da chamada “bancada da bala”. A líder da minoria, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), classificou a atitude do pesselista como um “fato gravíssimo”.   

“Esses fatos se sucedem neste contexto de preconceito, de racismo e violência que ocorre no continente e que se expressa também no Brasil. [É] uma atitude que pode ser tipificada de algumas formas. A primeira é o crime de racismo, porque, quando você agride uma exposição da população negra, é um crime de racismo, de profundo preconceito. Segundo, é um crime contra o patrimônio público e, terceiro, é quebra de decoro [parlamentar]”, aponta.

A oposição deverá atuar via Conselho de Ética, mas também por meio de uma provocação junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) para pedir que o deputado seja enquadrado pelo crime de racismo. Pela condição de parlamentar, Tadeu tem foro especial e só pode ser denunciando oficialmente pelo Ministério Público Federal (MPF).

O órgão será provocado nesta quarta (20) pela bancada do PSOL, por meio dos deputados Áurea Carolina (MG), Talíria Petrone (RJ) e David Miranda (RJ). “Não toleramos racismo. Racismo não é questão de opinião, É crime. Não passarão!”, disse deputada Talíria Petrone, em manifestação pelo Twitter.  

A ação do pesselista foi filmada por pessoas que transitavam no local e teve reações imediatas de múltiplos lados, provocando, inclusive, a interrupção do lançamento da mostra. Rapidamente, uma confusão se formou nos corredores da Casa, mobilizando diferentes parlamentares.  

“Foi uma atitude inesperada, inclusive, porque hoje começamos a semana da Consciência Negra e esta Casa sempre teve o seu espaço de manifestação. Fomos inaugurar uma exposição com curadoria da própria Casa, com delegação do presidente da Casa [Rodrigo Maia]. Isso é uma violência que se comete conosco. Se não comete a outros, eu não tenho nada com isso, se tem negro que não se conhece como negro. Eu me conheço como negra, sou uma batalhadora e disse [aqui] que foi um absurdo”, afirmou a deputada Benedita da Silva (PT-RJ).  

“Atestado de truculência”

O cartunista Carlos Latuff também se pronunciou a respeito da ação do deputado: “Quando esse policial promove essa agressão, ele está confirmando a mensagem da charge. Está confirmando não só a violência policial como a tentativa de censura de todo tipo de denúncia da violência policial. Ele está confirmando a truculência da polícia brasileira, que é, sim, o grande agente do genocídio da população negra e pobre no Brasil”, disse o autor.  

Latuff também afirmou que “a censura é estúpida porque acaba promovendo a imagem”.

“No momento em que você tem esse ataque, acaba colocando holofotes sobre a imagem e sobre o tema dela. Então, a censura é burra e o censor é burro porque promove aquilo que ele tenta supostamente impedir que chegue até uma audiência. O policial é um sujeito tão forte, tão armado, tão preparado e não suporta uma simples charge, o que nos leva a confirmar o dito popular de que a caneta é mais forte que a espada”, completou o cartunista.  

Edição: Daniel Giovanaz