Feminismo

Socióloga Heleieth Saffioti é homenageada na Câmara Municipal de São Paulo

Pesquisadoras e lideranças políticas celebraram, nesta terça-feira (19), os 50 anos de um clássico dos estudos de gênero

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Participaram do seminário Amelinha Teles, Eleonora Menicucci, Juliana Cardoso, Vera Vieira, Tainã Góis e Renata Gonçalves / Foto: Emilly Dulce/Brasil de Fato

A Câmara Municipal de São Paulo (SP) foi palco de discussão sobre feminismo, gênero, classe e raça-etnia nesta terça-feira (19). O debate entre pesquisadoras e militantes celebrou vida e obra da brasileira Heleieth Saffioti – socióloga marxista, professora, estudiosa da violência de gênero e sobrevivente da ditadura militar (1964-1985). 

Em homenagem à trajetória política e intelectual de Saffioti, o seminário celebrou os 50 anos da obra “A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade”.  

Em 1967, durante a ditadura militar, a pesquisa de Saffioti teve orientação inicial de Florestan Fernandes. Como o sociólogo marxista sofreu perseguições e foi impedido de continuar a orientação, a intelectual continuou seus estudos com o também sociólogo e crítico literário Antonio Candido. 

A obra foi debatida nesta terça-feira por Amelinha Teles, Eleonora Menicucci, Juliana Cardoso, Vera Vieira (jornalista e diretora-executiva da Associação Mulheres pela Paz), Tainã Góis (advogada e co-fundadora da Rede Feminista de Juristas) e Renata Gonçalves. 

Proposto pela União de Mulheres de São Paulo – da qual Teles faz parte –, o evento contou com a co-organização da editora Expressão Popular e do mandato da vereadora Juliana Cardoso (PT). 

Durante as cerca de quatro horas de debate, um dos pontos centrais foi a contribuição de Saffioti para a construção do feminismo no Brasil. Amiga da socióloga, Amelinha Teles – presa política e torturada durante a ditadura militar – ressaltou que Saffioti lutou pela autonomia de pensar e agir das mulheres. 

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A intelectual, que formou e influenciou gerações de feministas no Brasil, faleceu em 2010 devido a uma hipertensão arterial sistêmica. “Eu sou muito agradecida à Heleieth. Eu sou feminista muito pautada nela. Ela não se dizia feminista, mas defendia que a questão da mulher não podia ser isolada da sociedade porque era a principal para enfrentar o capitalismo”, frisou Teles. 

“No período da ditadura, o feminismo era tão mal visto que nem a esquerda aceitava. A questão da mulher foi a mais censurada durante a ditadura. Ao meu ver, a Heleieth é a precursora do feminismo interseccional no Brasil”, completou. 

Pautada na tríade de raça, classe e sexo, Saffioti também entendia que a emancipação das mulheres está diretamente atrelada à emancipação da classe trabalhadora, em especial da população negra. “A escravidão no Brasil tem cara: mulher, pobre e trabalhadora”, enfatizou Eleonora Menicucci, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

A socióloga brasileira e ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres durante o governo de Dilma Rousseff (PT) também conviveu com Saffioti, na militância e na academia. “A Heleieth em si era uma obra”, resumiu Menicucci ao lembrar que, nesta obra, Saffioti também levanta aspectos sobre nazismo, mercado de trabalho, maternidade, educação e psicologia, por exemplo. 

“A Heleieth teve um papel fundamental na construção das linhas de pesquisa na área de mulheres para que elas fossem incluídas na CAPES [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Na época, nós éramos poucas pesquisadoras feministas dentro da academia”, destacou Menicucci. 

O patriarcado, definido por Saffioti como um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres, tem a violência como instrumento de subordinação das mulheres. Para ela, superar a opressão feminina só será possível com a destruição do regime capitalista e a implantação do socialismo.

Vida pessoal

Natural do interior paulista, generosa, ousada, criativa, mãe, filha da classe trabalhadora, acadêmica e ativista engajada foram algumas das características mencionadas a respeito de Saffioti. A contemporaneidade do pensamento da socióloga também foi um dos destaques da mesa.

“Ela é fundamental para a formação de todas nós que estamos na luta incansável neste Brasil terrível que estamos vivendo, um sistema neofascista. Nós temos que lutar contra o Estado de exceção que está aí”, conclamou Menicucci. 

“O livro permanece muito atual. A Heleieth, efetivamente, faz muita falta pelo seu olhar crítico, pela capacidade de inventar, puxar gente, organizar e reunir pessoas em torno de uma causa. Acostumada a lidar com situações adversas, ela teria muito a nos ensinar neste momento também”, ressaltou Renata Gonçalves, professora e coordenadora do Núcleo de Estudos Heleieth Saffioti, consolidado em 2011 na Unifesp. 

Apesar de uma “produção na contramão dos modismos”, Gonçalves faz uma ponderação sobre Saffioti. “O pensamento dela já surge interseccional. No entanto, embora haja toda essa produção, eu acho que carece ainda de algumas pesquisas para compreender qual foi a relação dela com as intelectuais negras feministas – dentro e fora do Brasil – que já estavam produzindo no período”.

Após o seminário, as convidadas e o público presente se dirigiram à sede da Expressão Popular para uma confraternização política e cultural. A comemoração contou com bolo e sorteio de kits Heleieth Saffioti. A obra “A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade” está disponível para venda no site da Expressão Popular.

Edição: Daniel Giovanaz