TRANSPORTE

Supervia retira 20% da frota de trens e afeta usuários no Rio de Janeiro

Governo do estado afirma que não foi comunicado de operação e concessionária poderá ser multada

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Vistoria detectou problema na caixa de tração de vagões comprados da China; Supervia retirou de circulação 40 dos 201 trens de sua frota / Marcelo Horn/Supervia

Todos os dias, a cuidadora Márcia Loureiro embarca no trem na estação de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, desce na Central do Brasil e toma um ônibus para a Ilha do Governador, na zona norte da cidade, onde fica seu trabalho. Desde segunda-feira (18), porém, atraso e superlotação dos vagões se tornaram regra. Tudo começou depois que a Supervia retirou de circulação 40 dos 201 trens de sua frota. 

“Hoje (terça-feira), o trem veio com horário todo trocado. Eu embarcava às 4h50 e agora ele sai com atraso e superlotado. A Supervia disse que a grade seria de 17 minutos, o que já é ruim, mas está sendo de 20 minutos. Ontem foi um sufoco. Amanhã é feriado, mas eu trabalho, e vai ser pior, com menos trens”, contou Márcia, que tem demorado 20 minutos a mais para chegar na Central do Brasil, se decidir embarcar em vagões lotados.

A Supervia informou que a retirada de circulação dos trens foi recomendada pela fabricante CRRC (consórcio chinês) depois que foram detectados problemas na caixa de tração - a engrenagem que transmite energia do motor para eixo e rodas. Outros problemas apareceram em novas vistorias. Por estar no período de garantia, a CRRC terá que resolver o problema.

Mas as críticas sobre a forma como a Supervia retirou os trens de circulação foram unânimes. O governador Wilson Witzel (PSC) disse nesta terça-feira (19) que foi surpreendido e que a Supervia não havia informado do problema nem que tomaria essa decisão. A Agetransp, a agência reguladora de serviços públicos de transporte no estado, disse que está fiscalizando atrasos nas estações e que concessionária poderá ser multada.

O problema está provocando aumento dos intervalos de trens nos ramais de Santa Cruz, Japeri, Gramacho, Saracuruna e em algumas viagens no ramal Deodoro, que estão sendo realizadas em trens de quatro vagões. O vereador Tarcísio Motta (Psol) disse que fazer isso em 20% da frota de uma vez, sem publicidade ampla e prévia em plano para atenuar os efeitos, “mostra o quanto a população fica em segundo plano”.

“De qualquer forma, se o problema é muito grave e a parada dos trens teve que ser realmente emergencial, mais uma vez, o planejamento não levou em conta a quem serve: os milhares de passageiros que utilizam o transporte para trabalhar, estudar e se deslocar pela capital e região metropolitana”, comentou o parlamentar, cujas críticas se somaram à do deputado estadual Waldeck Carneiro (PT), que cobrou medidas da Agetransp.

Também nesta terça-feira (18), a Defensoria Pública do Rio de Janeiro encaminhou ofício para a Supervia pedindo esclarecimentos no prazo de dois dias sobre a retirada dos trens e as medidas que serão adotadas para compensar os transtornos durante a operação. Segundo a coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública, Patrícia Cardoso, a ação da Supervia poderá gerar prejuízos à população que depende desse serviço para se deslocar pela cidade.

“Já que o serviço está sendo prestado de forma precária, a empresa é obrigada a definir medidas compensatórias, como, por exemplo, o reajuste proporcional do preço das passagens. Além disso, a empresa deve também manter o consumidor informado sobre o funcionamento das operações", explicou a defensora.

Edição: Mariana Pitasse