Belém

1º Festival de Cinema das Periferias é grito de resistência contra modelo excludente

Lançado na última quarta (20), Dia da Consciência Negra, evento conta com produção de vídeos feitos pelas comunidades

Brasil de Fato | Belém (PA) |

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Cerca de 150 pessoas da comunidade participaram do lançamento do evento, que também vai desenvolver atividades em escolas da comunidade.
Cerca de 150 pessoas da comunidade participaram do lançamento do evento, que também vai desenvolver atividades em escolas da comunidade. - Catarina Barbosa/Brasil de Fato

O "lugar de fala" uniu pessoas pretas periféricas de Belém (PA), na última terça-feira (20), na praça Olavo Bilac, no bairro de Terra-Firme, para o 1º Festival de Cinema das Periferias da Amazônia. Inspiradas pelo conceito da filósofa Djamila Ribeiro, elas expuseram em uma grande tela suas vivências e encorajaram a fala daqueles que ouvem diariamente que "preto e pobre não tem espaço na sociedade".

Mais do que uma reunião de produções audiovisuais de pessoas excluídas do circuito comercial, o festival é um grito de resistência a um modelo cinematográfico que privilegia pessoas brancas e que moram nos grandes centros urbanos.

O evento foi idealizado por Joyce Cursino – mulher preta e amazônica, que já atuou em filmes dirigidos por homens brancos – a partir do incômodo de fazer parte de um cinema ao qual nem mesmo ela tinha a oportunidade de assistir: “A última série que fiz, eu não assisti, porque passou no Canal Brasil e eu não tenho TV à cabo”, revela. Para ela, o festival é uma forma de encorajar sua comunidade a ir além do que a grande imprensa retrata sobre e para a população negra.

"Então, fui para trás das câmeras para falar das narrativas que eu queria. Para falar sobre a população negra, a população periférica, de narrativas que não estão no cinema comercial", diz Cursino. Desse modo, o festival se propõe a, além de exibir filmes, fomentar uma cadeia do audiovisual dentro das escolas públicas, por meio de vivências nas quais facilitadores constróem um filme de até cinco minutos em conjunto com as crianças.

Nessas atividades, os alunos têm liberdade para criar seus próprios roteiros, de construir narrativas e formatos. Às vezes a gente precisa escutar é que é possível, porque a todo momento a mídia está dizendo que não é possível para a gente... [Que] não é possível viver ou entrar em uma universidade. A única possibilidade que existe para a população negra e periférica é a morte ou o encarceramento (...). E quem é melhor para falar de vida e morte na favela do que essas pessoas que moram lá?", questiona.

Joyce Cursino, idealizadora do Festival e Tamara Mesquita, da Coordenação do ÊÊ, Mana - um dos coletivos que integra o evento e dedicado a encorajar o protagonismo da mulher amazônida. Foto: Catarina Barbosa | BDF. 

No projeto, Cursino uniu os contatos que tinha com amigos da periferia com grandes produtoras para as quais  trabalha. Entre os coletivos da periferia que fazem parte estão: o ÊÊ, MANA; Tela Firme; Na Cuia; Amazon Filmes. A realização é da Central Única das Favelas e do Coletivo de Realizadores Independentes do Audiovisual da Amazônia (Cria). Os bairros que fazem parte do festival são: Guamá, Jurunas, Terra Firme, Cabanagem, Icoaraci e a Ilha do Combu, a cerca de 15 minutos de Belém.

Os resultados serão exibidos e premiados no dia 30 de novembro, no Cine Olympia, cinema mais antigo em funcionamento do Brasil. A programação contará ainda com mesas e oficinas sobre a produção audiovisual no Pará e mostras de filmes em locais públicos da cidade.

Tudo ofertado de forma gratuita. Além disso, no dia 1º de dezembro será inaugurado o Cineclube Furo da Paciência, na Ilha do Combu.

A vida imita a arte

As temáticas dos filmes elaborados no festival tratam das dificuldades enfrentadas pela população da periferia. Para Laura, de 11 anos, integrante do Cine Clube TF, a sociedade precisa ter mais consciência da realidade de quem está distante dos centros urbanos. Aluna do quinto ano da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), ela falou sobre a importância de tratar sobre bullying, suicídio e depressão de quem vive na periferia.

O Cine Clube TF completa dois anos em abril de 2020 e conta com seis Grupos de Trabalho (GT): dança; poesia; teatro; canto; arte visual; e audiovisual, que desenvolve atividades por meio de sarais temáticos. Os integrantes do movimento ocupam pontos vermelhos do bairro da Terra-Firme e de outros bairros periféricos – consideradas zonas de risco por terem o acesso controlado pelo tráfico. "A gente ocupa esses lugares e promove sarais temáticos com temas baseados nas demandas da comunidade. Acredito que isso potencializa os dons dos meninos e meninas que vivem na periferia", diz Natasha Borges, também integrante do cineclube.

Um dos filmes exibidos no lançamento do festival foi o Perspectiva, produção do Cine Clube TF que trata do dia a dia de alunos de uma escola pública da periferia com pais que trabalham fora têm pouco contato com os filhos. O filme também aborda questões como além do alcoolismo, desemprego, fome, violência doméstica, abuso sexual, bullying e depressão.

Também foi exibido o documentário Ame o Tucunduba, da Mazô Filmes, que fala sobre o rio Tucunduba, a segunda maior bacia urbana de Belém. Em setembro deste ano, dezenas de famílias foram despejadas para dar espaço a obra de macrodrenagem do canal, que se arrasta desde 1998; e Pedacinho do Céu (RJ).

Um cinema que exclui a mulher preta

Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), de 2016, cerca de 97% dos longa-metragem foram rodados por pessoas brancas. Desse total, 2,1% eram homens negros. Não há registro de nenhuma filme dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. 

Tamara Mesquita, uma das coordenadoras do coletivo ÊÊ, MANA, conta que a organização surgiu quando elas perceberam que havia uma lacuna na qual as mulheres indígenas, periféricas, negras, quilombolas eram excluídas e elas entenderam que esse conteúdo deveria circular na internet. "Nosso maior objetivo não é falar por elas, mas dar esse espaço para elas falarem (...) as histórias que vivem nos seus territórios", diz.

Sobre territorialidade e a importância de se empoderar como mulher negra, a geógrafa Nira Lima, mãe de um rapaz de 16 anos entende bem. Filha de uma família de cinco irmãos, ela se orgulha de dizer que apesar de morar há 35 anos na comunidade nenhum dos irmãos "se perdeu", como resumiu. Apesar do orgulho, ela não nega que a preocupação e o sofrimento que é ser mãe de um rapaz negro, morador da periferia. 

"As vezes eu acho que prendo muito o meu filho, mas é que eu sinto medo. Ser preto e periférico é difícil. Quando ele sai, eu sempre falo: leva a identidade, cuidado com a forma que você vai se comportar na rua. Falo por mim, das experiências que já vivi. Hoje eu sou formada, mas foi com muita luta", diz. 

Nira e seus "agregados" como ela diz. Na ponta direita, o filho de 16 anos, que foi vítima de racismo em um evento na Estação das Docas, ponto turístico da Belém do Pará. Foto: Catarina Barbosa | BDF. 

Nira conta que resistir como mulher preta é uma batalha diária, mas hoje, seu receio maior é tentar proteger o filho do racismo que ela mesmo já enfrentou. No mês passado, ela conta que o filho sofreu racismo e foi revistado por seguranças enquanto participava de uma feira que a escola levou para a Estação das Docas, região turística de Belém. "Ele entrou em prantos (...). Foi a primeira abordagem dele de ameaça mesmo, por ser negro e a partir daquele momento ele disse que ia se preparar mais para enfrentar essa sociedade ", contou.

O evento lançado um mês após o acontecido pode ser interpretado como uma forma de enfrentamento. Se hoje existe um Festival capaz de retratar isso é porque a luta dos foram excluídos no passado, corre nas veias de seus descendentes.

Programação

21/11 – Mesa sobre a produção audiovisual no Pará
Lucas Domires, Gustavo Godinho, Zienhe Castro, Carlos Raiol, Andrei Miralha e Roger Elarrat.
Mediação: Lorenna Montenegro
Local: Faculdade Estácio do Pará (Municipalidade, 839, bairro Reduto)
Hora: 19h

21 a 24/11 – Exibições e debates em cineclubes da cidade
Serão divulgadas nas redes do Telas em Movimento

23/11 – Mostra Telas no palco negro autoral 
Local: Estação São João de Pinheiro, Icoaraci
Hora: 9h30

25 a 28/11 – Vivência no Furo da Paciência, na Ilha do Combu
Facilitadores: Melé produções, Treme Filmes e Negritar

25 a 29/11 – Vivência em escolas públicas 
Local: Guamá / Facilitadores: Na Cuia e Cyn Produções
Local: Jurunas / Facilitadores: Negritar
Local: Terra Firme / Facilitadores: EÊ, Mana, Tela Firme e CineClube TF
Local: Cabanagem / Facilitadores: Mazô Filmes

MARATONA ENTROCAMENTO/ANANINDEUA: Seminário e Oficinas
Local: Faculdade Pitágoras, Almirante Barroso, 5569 – Entrocamento

*Oficinas:

27, 28 e 29/11: As formas do cinema documentário e sua história / Hora: 9h
Ministrante: Michel Ribeiro – antropólogo e filmaker

28 e 29/11 – Roteiro de Cinema / Hora 8h
Ministrante: Rodrigo Rodrigues das Neves

27 a 29/11 – Produção de vídeo com smartphone / Hora: 8h
Ministrante: Felipe Cortez

Seminário: “Cineclubismo em ação – filmes para engajar, empoderar e ampliar o olhar”
Hora: 14h às 18h

Mesa 1 – Experiências de curadoria e formação de plateia
Cine TF (Lilia Melo), Cine Diáspora, Cinefem (Carol Abreu)

Mesa 2 -Itinerância, circulação e memória dos cineclubes
João Cirilo (programador CLL), John Fletcher (professor e cineclubista ICA/UFPA), Januário Guedes (MIS-PA), representante do GT interiorização do CRIA
30/11 – MOSTRA FINAL DAS OBRAS PRODUZIDAS NAS ESCOLAS
Local: Cine Olympia
Hora: 17h

01/12 – Inauguração do cineclube no Furo da Paciência, na Ilha do Combu
Produtores: Melé Produções e Treme Filmes
Local: Bar do Boá
Hora: 17h
 

Edição: Julia Chequer