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Na base, pela base, de base

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IV SULÃO das CEBs, realizado de 15 a 17 de novembro, reafirmou caminhos para uma Igreja lutando por transformação social
IV SULÃO das CEBs, realizado de 15 a 17 de novembro, reafirmou caminhos para uma Igreja lutando por transformação social - Reprodução
Em plena ditadura militar, um dos espaços de resistência eram as CEBs

“CONFIDENCIAL – Serviço Nacional de Informações. Data: 22 de ABR 83. ASSUNTO: VI ENCONTRO DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE DA ARQUIDIOCESE DE PORTO ALEGRE/RS. ORIGEM: APA/SNI. AVALIAÇAO: A-1. DIFUSÃO: SS-06. Realizou-se nos dias 19 e 20 MAR 83, no Salão Paroquial da Vila São Pedro/PA/RS, o VI ENCONTRO DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBs) da ARQUIDIOCESE, que contou com a presença de aproximadamente duzentas e cinquenta pessoas ligadas às CEBs da Região Metropolitana, as quais discutiram durante dois dias o tema ‘Povo, Semente de uma Nova Sociedade’.

Reunidos os doze grupos de cerca de vinte participantes cada um, eles analisaram a realidade em que vivem e trocaram ideias em plenário para finalmente chegarem ao consenso na conclusão do caminho a ser trilhado para melhorar as condições de vida da população: o esforço pela organização popular. Coordenaram o Encontro ALCINDO DALCIN, Frei MÁRIO ALOÍSIO SCHUH (da Pastoral da Periferia/Lomba do Pinheiro) e Pe. PEDRINHO ARCIDES GUARESCHI (do Clero Progressista).

Após o encerramento do evento, foi efetuada uma procissão até a Vila Nova São Carlos, local para onde foram transferidos os moradores de uma vila que deu lugar para a construção de uma estação de ônibus. O local escolhido deveu-se por ser ele ‘símbolo da situação vivida pelo povo’ e da luta pelo direito de terra e moradia, no ano passado, quando os moradores foram despejados pelo DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE HABITAÇÃO (DEMHAB), conforme a explicação de Frei MÁRIO SCHUH. Providências Decorrentes: 1. Ao analista do Clero. 2. Processar.” (O destinatário é responsável pela manutenção do sigilo deste documento. Artigo número 12, Regulamento para a Salvaguarda de Assuntos Sigilosos).”

É a transcrição, ‘ipsis literis’, do relatório do SNI sobre o VI Encontro Arquidiocesano de CEBs, em 1983. Aliás, este foi o único serviço positivo do Serviço de Informações da ditadura militar: guardar e facilitar a memória do que aconteceu naqueles tempos. Espionagem pura. Há muitos outros relatórios semelhantes, com mapeamento completo da atuação de religiosos no Rio Grande do Sul, de Semanas Teológicas, de Assembleias da CNBB, de presença em ocupações de terra, etc.

Ontem, 1983, como hoje. Em plena ditadura militar, um dos espaços de resistência eram as Comunidades Eclesiais de Base, CEBs, acompanhadas com lupa pelos olheiros da Secretaria Estadual de Segurança Pública, SNI, Polícia Federal e DOPS. As CEBs lutavam por direitos, por democracia, juntavam fé e realidade, com atuação política e compromissos concretos com os mais pobres e desassistidos, como revela o gesto concreto de solidariedade, em 1983, de uma caminhada até a Vila Nova São Carlos, e com trabalhadoras e trabalhadores.

Hoje, 2019, como ontem. As CEBs continuam sendo resistência e esperança, apontando para a utopia e o Reino já a partir deste mundo. De 15 a 17 de novembro aconteceu o IV SULÃO das CEBs, em Canoas, Rio Grande do Sul.

Diz a CARTA ÀS COMUNIDADES aprovada no SULÃO: “Ao redor de 400 participantes das Comunidades de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul se encontraram, refletiram e celebraram a morte e ressurreição de sua gente, em profunda comunhão com todos os povos da nossa América Latina e Caribenha em marcha na defesa dos seus Direitos, que vêm sofrendo grandes retrocessos. Também em comunhão muito afetuosa com o nosso irmão e Pastor Francisco, o bispo de Roma, que nos preside na caridade, inspirador do tema deste Encontro: IGREJA NA BASE NA PERSPECTIVA DO PAPA FRANCISCO. Como já refletiram os movimentos populares no seu Encontro com Francisco em julho de 2015, na Bolívia, está crescendo cada vez mais a consciência de que este sistema é insuportável para a grande maioria da população e também para a nossa irmã e Mãe Terra, e precisa ser mudado.

Reafirmamos, neste IV SULÃO das CEBs, assinalando as nossas digitais numa camiseta de Marielle Franco, os compromissos firmados durante o Concílio Vaticano II, especialmente no Pacto das Catacumbas, que foi renovado no Sínodo para a Amazônia, apontando novos caminhos que devem ser espraiados para toda a Igreja e para um Ecologia Integral, comprometida com o Bem Viver, rumo à Terra Sem Males.

Cheios de esperança, assumimos os compromissos de investir num processo permanente de formação, a partir da Palavra, do Ensino Social da Igreja e engajamento na defesa da Democracia e dos Direitos, compreendendo a política como uma das mais nobres formas de exercício da caridade e de construção do Bem Comum. Reforçamos principalmente o compromisso de fortalecer as organizações populares, valorizando especialmente o empoderamento dos povos originários, da juventude e das mulheres em todos os espaços da Igreja e da sociedade. Basta de feminicídio, basta da extermínio de jovens, basta de extermínio de negros e indígenas.”

As CEBs continuam na base, atuam pela base e são de base. Em tempos de perda de direitos e ameaças à democracia, estão do lado certo da história, amparadas nas palavras e gestos do Papa Francisco, e no seu compromisso de fé, em primeiro lugar com os mais pobres, com os esquecidos da história, e, a partir daí, lutando por transformação social, por justiça, liberdade, igualdade.

Edição: Marcelo Ferreira