Coluna

Há seis décadas Israel nega ao povo palestino o direito de existir

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25 de Novembro de 2019 às 12:04
Escritor e ativista político palestino Ghassan Kanafani / Arte/Instituto Tricontinental
Regime israelense humilha sistemática e insensivelmente a população palestina

Dia 13 de novembro de 2019, como parte de seu ataque ao povo da Faixa de Gaza, as forças armadas israelenses bombardearam um prédio no bairro de Deir al-Balah, na cidade de Gaza. O atentado matou oito pessoas: Rasmi Abu Malhous (45), Miriam Asoarka (45), Yoseri Asoarka (39), Sim Mohamed Asoarka (13), Mohand Malhous (12), Moad Mohamed Asoarka (7), e dois bebês cujos nomes não foram identificados. As forças armadas israelenses alegaram ter atacado um local do comando da Jihad Islâmica, embora todos nos arredores afirmem que não há nenhum comando no prédio ou mesmo no bairro. “Era uma família muito simples e pobre, vivendo com muito pouco em um barraco de chapa de metal, sem água ou eletricidade e pastoreavam ovelhas”, disse um vizinho. Oficiais israelenses afirmaram que acreditavam que a casa estava vazia.

Uma estreita faixa de terra com saída para o Mar Mediterrâneo, Gaza não pode importar bens para sobreviver, muito menos para reconstruir a destruição causada pelos ataques israelenses. Em 2012, a Agência Palestina das Nações Unidas (UNRWA) argumentou que seriam necessários “esforços hercúleos” nas áreas de saúde, educação, energia, água e saneamento para tornar Gaza um lugar habitável. Três anos depois, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) sugeriu que o constante bombardeio israelense contra a infraestrutura de Gaza e o embargo israelense tornariam o território “inabitável até 2020”. Nenhuma tentativa foi feita para reverter a situação.

No ano passado, os Estados Unidos cortaram o financiamento da UNRWA, que agora não deve conseguir arrecadar os fundos necessários para escolas, clínicas, serviços de emergência, assistência e serviços sociais – principal apoio aos palestinos cujas famílias estão em campos de refugiados ou no exílio por cinco gerações. A UNRWA desempenha um papel importante para os palestinos, especialmente em Gaza. Durante o atentado israelense em meados de novembro, pelo menos 34 palestinos foram mortos. Entre eles estava Ameer Rafat Ayad, um aluno da Classe II da Escola Primária Zaitoon da UNRWA.

Por seis décadas é negado ao povo palestino o direito de ter um Estado e cidadania. Eles foram reduzidos, pela crueldade da História, a serem refugiados e a viverem sob ocupação. A promessa da chamada solução de dois Estados agora está completamente morta. As colônias na Cisjordânia, o conflito em Jerusalém Oriental e o cerco a Gaza tornaram impossível a soberania – e até a existência – de qualquer Estado palestino nesses territórios. Benjamin Netanyahu, o premiê mais longevo de Israel, falou inúmeras vezes sobre anexar a Cisjordânia. Agora o governo dos EUA disse abertamente que Israel pode reivindicar as colônias como parte de seu território, o que significa, na prática, que a Cisjordânia pode ser tomada. Esse é o desprezo demonstrado pelo Estado israelense – e seus facilitadores estadunidenses – em relação à solução de dois Estados. Eles querem uma solução de três Estados – expulsar os palestinos para a Jordânia, Líbano e Egito. É por isso que o regime israelense humilha sistemática e insensivelmente a população palestina diariamente.

 

Mashrou’ Leila, Cavalry, 2019

Essa humilhação sistemática ocorre nas buscas, nos insultos e na política de encarceramento; na devastação das oliveiras, no muro do apartheid que circunda a Cisjordânia e Gaza, e também nos postos de controle onde os palestinos rotineiramente são submetidos à humilhação.

A organização Stop the Wall acaba de publicar uma coleção online de ensaios, Build Resistance Not Walls [Construir a resistência, não muros], onde a feminista e jurista palestina Nadera Shalhoub-Kevorkian escreve sobre a firmeza de crianças palestinas que se recusam a aceitar a ocupação colonial; Hala Marshood e Riya Al’Sanah, do Who Profits from the Occupation, observam as bilhões de pessoas do mundo – incluindo palestinos – que “embarcaram em viagens exaustivas e muitas vezes mortais em busca de uma vida melhor”.

Um muro só existe se você não o desafiar. Se há resistência, o muro é apenas terra que pode desmoronar. Se houver resistência, não estaremos atrás de um muro. Os desumanos são os que se escondem atrás do muro. Os muros são deles, não nossos. Vivemos em um mundo sem muros.

A solução de um Estado democrático para todos e todas é rejeitado pelo Estado israelense e por grandes setores da sociedade israelense, pois não permitiria mais a existência de um Estado judeu. Os palestinos seriam a maioria e essa democracia seria inaceitável em um Estado etno-nacionalista. O que Israel está dizendo é que está satisfeito em ser um Estado de apartheid e com a anexação de cinco milhões de palestinos nos territórios ocupados que se tornarão residentes de segunda classe da Grande Israel. Isso é apartheid, como disse um relatório das Nações Unidas há dois anos. É a situação com a qual nos confrontamos, encorajada pelo governo dos EUA e nossa realidade atual.

Nas Nações Unidas, há alguns dias, Andrew Gilmour, Secretário-Geral Adjunto de Direitos Humanos, observou que nada pode “justificar o frequente ataque de atiradores de elite [israelenses] que sabem exatamente o que estão fazendo e miram com imensa precisão – às vezes para matar, mais frequentemente para ferir, com ferimentos que mudam a vida, incluindo perda de visão e amputação de membros – milhares de crianças palestinas de forma muito frequente”. E completou: “De forma geral, é uma injustiça maciça e um exemplo sistemático de discriminação e humilhação”.

Enquanto Gilmour fazia sua apresentação, as forças israelenses atacaram jornalistas em Surif, perto de Hebron, na Cisjordânia. Muath Amarneh, um fotógrafo palestino, foi atingido no olho esquerdo enquanto retratava o roubo de terras palestinas pelos militares israelenses. “Os olhos da verdade nunca serão cegados”, cantaram seus colegas em uma manifestação em Bethlehem. Para os jornalistas, esse tiroteio traz de volta memórias do assassinato de Yaser Murtaja, enquanto fazia reportagens em Gaza no ano passado.

Atualmente, 5050 palestinos estão em prisões israelenses, muitos deles sob “detenção administrativa”, arbitrária e ilegal. Entre eles está Khalida Jarrar, da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), que havia sido presa em 2015 e em 2017, e libertada pela última vez em 28 de fevereiro de 2019. Foi detida novamente em 31 de outubro de 2019. Essa linguagem é uma farsa – detenção, juiz, tribunal, lei. Nada disso é real, já que Jarrar está detida à margem de todos os dispositivos legais e está sendo torturada em uma prisão israelense.

A crueldade vai das prisões israelenses às casas de militantes do Movimento ao Socialismo (MAS) na Bolívia, onde a violência incitada pelo golpe e seus líderes se intensificou. Seja o governo de Israel ou as forças políticas evangélicas racistas neofascistas da América do Sul, eles preferem a violência a humanidade. Não surpreende que o novo “governo” na Bolívia tenha expulsado às pressas a brigada médica cubana, preferindo esquadrões da morte a médicos.

Você sabia que o trabalhador do século 21 que fabrica o iPhone é 25 vezes mais explorado do que o trabalhador do século 19 das fábricas têxteis na Grã-Bretanha? Essa é a conclusão do nosso Caderno n. 2, O iPhone e taxa de exploração.

Em Déli, nossa equipe realizou um lançamento do documento na Universidade Ambedkar, onde o professor doutor Satyaki Roy, docente de Economia do Instituto de Estudos em Desenvolvimento Industrial, falou sobre a “arquitetura global da hegemonia nas redes de produção”. Por meio da fragmentação da produção, disse Roy, o capital global intensificou sua exploração do trabalho; nosso caderno esclarece essa tendência.

Enquanto o capital do Sul Global, como a Foxconn, explora mão de obra direta e intensivamente, a maior parte da mais-valia total é apropriada pelas empresas transnacionais, com mais frequência no Norte Global. Roy enfatizou a necessidade de se concentrar não apenas naqueles que trabalham no chão de fábrica, mas também no trabalho informal, que geralmente produz bens e serviços para a cadeia de valor.

O seminário ocorreu à sombra das tentativas do governo indiano de desmantelar a legislação trabalhista ainda existente. O governo dividiu as leis trabalhistas em quatro códigos – sobre salários, relações industriais, previdência social, saúde e condições de trabalho. Até agora, o governo divulgou as leis sobre os salários, que atacam diretamente a vida dos trabalhadores.

A economia da Índia está em crise, com taxas de crescimento baixas sem fim à vista. O governo da Índia procura aumentar o crescimento atacando o trabalho, uma clara demonstração da visão marxista de que a riqueza é criada a partir da extração da mais-valia. As principais federações sindicais do país disseram que mais de 200 milhões de trabalhadores entrarão em greve em 8 de janeiro de 2020.

Esses trabalhadores, como palestinos e bolivianos, saem às ruas com as palavras de Brecht em Elogio da dialética (1951) em seus ouvidos,

    Quando os dominadores falarem

    falarão também os dominados.

    Quem se atreve a dizer: jamais?

    De quem depende a continuação desse domínio?

    De quem depende a sua destruição?

    Igualmente de nós.

    Os caídos que se levantem!

    Os que estão perdidos que lutem!

    Quem reconhece a situação como pode calar-se?

    Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.

    E o “hoje” nascerá do “jamais”.

Edição: Julia Chequer