Novembro Negro

Artigo | A Pedra do Esquecimento

A Pedra do Esquecimento foi o primeiro processo, dentre os vários

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Há centenas de pessoas que não aceitaram as condições de serem escravas e lutaram com as próprias vidas / Rovena Rosa

Por quase 400 anos, seres humanos foram escravizados e trazidos para a costa do litoral brasileiro para cumprirem um destino ao qual não sabiam de fato. A Pedra do Esquecimento foi o primeiro processo, dentre os vários. O Povo Originário de África teve que mergulhar, para esquecer suas raízes, suas origens e reter sua força vital. Os 400 anos foram tempo suficiente para trazer cerca de 12 milhões de pessoas em estado de cárcere, privação total de qualquer ideia de direito. Os quatro séculos foram tempo suficiente, também, para mudar a rota de tubarões, que aprenderam a acompanhar os tais navios negreiros, dando que dali, em determinado momento, seria jogada uma grande quantidade de carne humana. 

Nossas tradições e destinos foram alteradas e depositadas nesta nação, denominada Brasil. Sendo  nossos ancestrais submetidos às mais cruéis modalidades de violações por meios de  torturas, aliás nunca nos contaram ou mesmo tiveram a dignidade de assumirem os inúmeros  e incontáveis  delitos, violações, estupros, assassinatos, atrocidades, genocídios, feminicídios. Ou seja, existiu um holocausto promovido pelos brancos e seus desejos insaciáveis de nos matar por diversão e, assim, golpes foram desferidos em nossos corpos, almas e na nossa ancestralidade.

O mês de novembro demarca a nossa Consciência e a necessidade da nossa contranarrativa sobre o processo colonial. É preciso falar sobre as reais intenções que, por exemplo, envolvem a implementação da Lei Áurea (Lei nº 3.353), sancionada pela Princesa Dona Isabel, filha de Dom Pedro II, no dia 13 de maio de 1888. A lei concedeu liberdade total aos escravos e escravas que ainda existiam no Brasil, pouco mais de 700 mil, abolindo a escravidão no país. Porém, a maior parte do movimento republicano fechou com os latifundiários para não mexer na propriedade rural. Assim, veio a aprovação da Lei Áurea, sem nenhuma compensação ou alternativa para os libertos se inserirem no novo Brasil livre.

 Este cenário histórico, baseado em compensação e apropriação de terras, serviu de base para o crescente sentimento de impotencialidade, firmando uma sociedade, na qual nos deixaram apenas com um papel na mão, com uma ideia de liberdade, que nada mais era que uma vida de incertezas e uma imensa interrogação. Uma sociedade de corpos vagueando pelo mundo na indigência, situação que atravessou os séculos e perdura até os dias atuais, mesmo que hoje estejamos vivos e correspondamos a mais de 54% da população brasileira. 

O que de fato vamos comemorar no mês da Consciência Negra? Vamos reafirmar que somos descendentes de escravos?! Vamos aplaudir pelas casas de detenção ou sistema penitenciário falidos, superlotados  e iguais, que jaz, mesmo parecendo vivo, sem alma? Vamos sorrir tendo os corredores dos hospitais lotados de mães e pais pretos desesperados, sem saúde e sem atenção? Vamos dizer pelos quatro cantos que somos minoria e que as coisas são  assim mesmo porque somos pretos e pretas? Vamos agradecer e louvar de joelhos, pedindo clemência e o perdão pelos pecados, que nunca cometemos, ao Deus impositor, hipócrita, racista e branco? Seu chicote não me assombra, seu ódio não me contamina, sua fórmula não me envenena, porque temos nossos corpos sagrados e fechados pelas luzes dos nossos ancestrais.

Embora a história insista em não nos revelar como protagonistas de lutas e conquistas, há centenas de pessoas que não aceitaram as condições de serem escravas e lutaram com as próprias vidas, a exemplo de Aqualtune, Dandara, Maria Felipa, Luiza Mahin, Zumbi, Felipe Gama, Ganga Zumba, Luiz de França, Albanise, o Poeta França, Albertinas, Amaros, Josés, Marias. Hoje presente em corpos e ações, como Mestre Meia Noite, Lia Menezes, Yabá Gercina de Oyá, Dito de Oxossi, Mãe Beth de Oxum, Vera Baroni, Denise Botelho, Poeta França, Luiz Lourenço e tantos outros protagonizam a resistência e a contranarrativa, quebrando paradigmas e furando as bolhas sociais, negritando esse país.

Mesmo que os tacanhos queiram nos ocultar, jamais conseguirão, porque nós somos e estamos em cada cidadão e cidadã, pretas e pretos, jogados no meio fio ou equilibrando - se no fio da navalha, pagando todos os dias, com sangue, suor e lágrimas, pelo pão de cada dia. Que Deus, Oxalá nunca nos falte, somos fortes e determinados na luta por nossa liberdade e não aceitamos a condição imposta por pessoas e governos que não nos respeitam enquanto povo que descende dos Povos Originários de África e dessa mestiçagem que decorreu entre europeus, africanos e povos originários do Brasil. 

* Núcleo de Comunicação Comunitária Caranguejo Uçá

Edição: Marcos Barbosa