Coluna

Cobrança do além

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27 de Novembro de 2019 às 11:39

Ouça o áudio:

Anoiteceu sozinha na casa, que ficava a uns dez metros de distância do início de um capão de mato. / Pixabay
Ouviu no meio do vento uma voz

Quando Zé da Cotinha morreu, muita gente chorou. Era um homem bom.

O enterro foi concorrido, com amigos e parentes comovidos. Até o Mané Marcelino, dono de uma venda na roça, tido como insensível para essas coisas, parecia muito abatido no cemitério.

E estava abatido mesmo, mas o motivo não era coisa de emoção, era que o finado lhe devia um dinheiro equivalente a uns mil reais de hoje. Logo que soube da morte do Zé ele foi falar com a viúva.

Dona Maria não renegou a dívida, ia pagar, mas o Mané tinha que esperar o inventário. Ficou inconformado, sabendo o tempo que isso demora na Justiça. Era essa a causa da sua cara sofrida.

Mas ele estava matutando um jeito de antecipar o recebimento.

Terminado o enterro, cada um procurou seu rumo e a dona Maria, chorosa, foi para sua casa. Queria ficar sozinha ali, onde viveu muitos anos com o Zé.

Anoiteceu sozinha na casa, que ficava a uns dez metros de distância do início de um capão de mato.

Lá pela meia-noite ela ainda estava acordada, quando ouviu no meio do vento uma voz que vinha aparentemente do matinho, mas com um sotaque igual ado do Mané Marcelino, que tinha a língua presa e pronunciava Jé e M’aria.

⸺ M’aria, ô M’aria… ⸺ gritava a voz tremida, ⸺ Aqui é o Jé… Eu tô no purgatório, M’aria… Shó entro no chéu quando pagá o cumpádi Mané, M’aria… Oxê tem que pagá ele, M’aria…

Isso se repetia a cada quinze ou vinte minutos, e durou a noite inteira.

No meio da manhã, a Maria foi à venda do Mané pagar o a dívida do marido.

O Mané estava todo sorridente, se achando esperto, mesmo diante da brabeza da mulher, que lhe jogava praga.

Ela puxou o dinheiro e falou:

⸺ Olha, Mané, taí o dinheiro. Num quero nunca mais ouvir a voz da assombração que escutei esta noite. Mas tenho certeza de que aquela voz não era de quem ia sair do purgatório pra ir pro céu, não. Era a voz de um excomungado que vai direto pro inferno. Mané. Vai pros quintos dos infernos, direto!

Fez cara mais braba ainda e imitou a voz do vendeiro:

⸺ O Jé e eu, M’aria, sabemos que era a voz de um esprito que não presta, M’ané. Um esprito lajarento.

O Mané não se importou. Mais tarde comentou com sua mulher:

⸺ A cumádi ficô braba… Me chamô de lajarento, mas funchonô, nhé… Me pagô.

 

Edição: Michele Carvalho