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Mãos ao alto, isto é um partido!

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27 de Novembro de 2019 às 17:42

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O integralista Plínio Salgado não acreditaria se lhe contassem que os fascistas de hoje batem continência para a bandeira norte-americana / Evaristo Sá/AFP
Decaímos tanto que até nossa produção de fascismos piorou

Muito já se falou e escreveu sobre a novidade partidária de Bolsonaro e família. Aquela sigla que traz consigo um número que exalta a morte. Tem sido descrita como uma proposta fascista. Sim, é verdade. Mas é pior do que se imagina. 

Pode-se comprovar por meio de um breve estudo comparativo entre dois fascismos – o da Aliança pelo Brasil e o da Ação Integralista Brasileira (AIB) –, pela forma como são expressos em seus documentos fundadores.

O fascismo atual vem plasmado em um dos manifestos mais toscos e ineptos da história política do país. Comparado com os garranchos milicianos, o manifesto de criação da AIB, de 1932, ganha estatura de obra de excelência.

Como os Bolsonaro e o conhecimento vivem uma situação de insuperável incompatibilidade, produzir uma carta seria tarefa demasiada para suas aptidões. Logo, delegaram a missão a terceiros.

Em 1932, os integralistas tinham como mandachuva, bem ou mal, um escritor. E ele, Plínio Salgado, definiu as linhas mestras do texto. As diferenças começam aí.

Salgado publicou estudos de história, religião, sociologia, psicologia, política, relatos de viagens além de romances e poemas. São mais de 60 obras.

Independentemente de seus atributos literários, representam mais livros do que todos os Bolsonaro, mais o Lessa, o Élcio e o terceiro homem no carro, leram em toda a sua vida.

Mas não é só a qualificação superior da escrita. O manifesto de 1932, gostemos ou não, carrega um projeto de país. E se dirige à nação de forma ampla.

Tenta abarcar trabalhadores e patrões. Também brancos, negros e índios. Salgado reclama que os brasileiros da cidades  vivem “a amesquinhar as raças de que proviemos” e “envergonham-se também do caboclo e do negro de nossa terra”. E ainda “criaram preconceitos étnicos originários de países que nos querem dominar”.

Nada parecido com aquilo que descreve o papiro feroz do Boi, da Bala e da Bíblia. Ali, as únicas categorias exaltadas são os policiais e os militares com quem o Brasil teria “um grande débito”.

Em 1932, Salgado reclama “justiça social” e  “uma mais humana distribuição dos bens”. Nota que o Estado, dotado de poderes mais amplos, precisa intervir para “moderar os excessos do individualismo e atender aos interesses da coletividade”.

Nas redes sociais, um bozocéfalo o mandaria para Cuba…

Se Bolsonaro e seu partido falam para sua horda, Salgado dirige-se a todos.  “Pretendemos levantar as populações brasileiras, numa união sem precedentes, numa força jamais atingida, numa esperança jamais imaginada”, escreveu.

Na hora da ideologia, em vez da caça às bruxas como urram as milícias virtuais ou físicas, o fascismo alfabetizado de 1932 tenta se colocar equidistante do capitalismo e do comunismo.

Claro que brinda a União Soviética e os russos com os piores adjetivos, o que não o impede de advogar “uma campanha nacionalista contra a influência dos países imperialistas”.

Considera o direito de propriedade como “fundamental” mas adverte que “o capitalismo atenta hoje contra esse direito, baseado como se acha no individualismo desenfreado”.

Sim, pode ser conversa fiada mas não estamos tratando de ações e sim de enunciação de propósitos.

Salgado esbraveja contra os estrangeirismos, a adoção de costumes estrangeiros, o deslumbramento burguês diante dos Estados Unidos e da Europa. Não acreditaria se lhe contassem que os fascistas de hoje batem continência para a bandeira norte-americana…

A Aliança pelo Brasil, filha bastarda do integralismo, chega com uma narrativa ameaçadora. Parece ter sido escrita à bala como o escudo de cartuchos que a retrata.

Diante dela, a carta da velha AIB traz até laivos de humanismo. Quer dizer, decaímos tanto que até nossa produção de fascismos piorou…

O clã Bolsonaro aparenta ter criado uma sigla menos para concorrer do que para intimidar, como se fosse um revólver pronto para ferir de morte o Estado Democrático de Direito. Ou o que resta dele. 

 

Edição: Rodrigo Chagas