Liberdade

Após repercussão, juiz recua e manda soltar brigadistas presos em Alter do Chão

Investigações federais sobre os incêndios não apontam indícios de participação do grupo em incêndios florestais

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Brigadistas de Alter do Chão foram soltos nessa quinta-feira (28) / Reprodução

A repercussão nacional e internacional da prisão de quatro brigadistas por suspeita de participação em incêndios florestais na região de Alter do Chão (PA) causou uma reviravolta no caso nesta quinta-feira (28). O juiz Alexandre Rizzi que, na quarta-feira (27), havia mantido a prisão provisória do grupo, voltou atrás e determinou que os brigadistas fossem soltos. 

Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner foram detidos na operação "Fogo do Sairé", da Polícia Civil do estado, na última terça-feira (26). No entanto, de acordo com o Ministério Público Federal (MPF) em Santarém (PA), as investigações federais não trazem elementos que apontem a possibilidade de participação dos brigadistas ou de Organizações não Governamentais nas queimadas.

A principal hipótese analisada é que os crimes tenham relação com a especulação imobiliária, a grilagem de terra e a ocupação desordenada da região. 

Segundo a Polícia Civil do Pará, as suspeitas de participação dos brigadistas partiram da gravação de uma conversa entre um dos acusados e o diretor de uma ONG, mas não foi apresentado nenhum elemento pericial, imagem ou testemunho embasando essa tese. 

Os quatro trabalham voluntariamente com causas ambientais na região há alguns anos e as acusações causaram estranheza não apenas na comunidade ambientalista, mas também entre moradores, parentes e amigos. Caio Pereira Romano, irmão de João Victor, afirma que a ligação com a causa ambiental é parte do cotidiano da família. Ele conta que, durante uma viagem, o irmão conheceu um brigadista voluntário e ficou fascinado pelo trabalho de defender a floresta.

João Victor fez um curso de brigadista na Chapada dos Veadeiros e, quando foi morar em Alter do Chão  "resolveu fazer um trabalho parecido, porque Alter não tem um Corpo de Bombeiros", explica Caio.  Por ser um afastado de Santarém, "quando havia algum indício de queimada não havia tempo hábil para que os bombeiros chegassem. Então, eles procuraram os bombeiros, para ter uma formação e criaram essa brigada de incêndio” , conta.

Horas antes de o juiz determinar a liberação dos brigadistas, o governador do Pará, Helder Barbalho havia anunciado a troca do delegado que presidia o inquérito, José Humberto de Melo. No lugar dele, agora está Waldir Freire, diretor da Polícia Especializada em Meio Ambiente do estado.

“O caso requer atenção, toda a transparência necessária. Ninguém está acima da lei, mas ao mesmo tempo, também, ninguém pode ser vítima de prejulgamento ou ter o seu direito à defesa cerceado”, disse o governador em vídeo veiculado nas redes sociais.

O Ministério público Federal  também se manifestou sobre o caso e requisitou acesso integral ao inquérito que acusa os brigadistas.

Ao todo, o fogo em Alter do Chão consumiu uma área equivalente a 1.600 campos de futebol e levou quatro dias para ser debelado por brigadistas e bombeiros. Em nota de repúdio, mais de trinta organizações ligadas ao Meio Ambiente classificaram a prisão como abusiva, citando o caso como uma tentativa de criminalização de movimentos sociais e ativistas ambientais.

Edição: Julia Chequer