LITERATURA

O que tu indica? | Recordações do Escrivão Isaías Caminha

O livro de Lima Barreto nos faz questionar qualquer ideia de mérito que não leve em conta o peso do racismo

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O jornalista e escritor carioca publicou romances, sátiras, contos e crônicas, mas só teve o devido reconhecimento após sua morte / Reprodução

No início do século XX, quando Lima Barreto escreveu e publicou Recordações do Escrivão Isaías Caminha, os grandes nomes da literatura brasileira estavam inscritos “nos registros da livraria Garnier”. Na alvorada do século, o sonho de quase todos os que chegavam ao Rio de Janeiro para trilhar o caminho das letras era esse: adentrar no restrito e imponente círculo que habitava a Livraria Garnier. Ou mesmo os trilhos de se tornar doutor, médico ou advogado, alcançando “prestígio extra-terreste”, com todas suas prerrogativas. O sonho de Isaías Caminha, com seu “projecto de estudo”, era ser doutor, cursar medicina, indo contra “o pecado original do meu nascimento humilde” e “de minha côr”. Ser doutor e ter a propriedade do mundo, acreditava, andavam colados passo a passo. Era este o cerne do título, como uma “casta”, seu osso, sangue e carne.

Qual não foi o desgosto e a decepção de Isaías Caminha quando se deparou pela primeira vez com a “cidade bella e magestosa” do Rio de Janeiro, com suas ruas feias e lamacentas. Nem tudo possuía o brilho de que tinha ouvido falar e que o fez sair de sua aldeia de terceira ordem. Na afamada capital, se deparou com “fingimento de superioridade” e “gestos fabricados”; mais parecia o arraial das letras, para ficarmos com a expressão Orestes Barbosa.

Recordações do escrivão Isaías Caminha nos faz questionar qualquer ideia de mérito que não leve em conta o peso do racismo e da pobreza que tanto arrasa o país. A nova edição de Recordações, pela Expressão Popular/Adufc, vem reforçar a necessidade da leitura da obra de Lima Barreto, no exercício de difundir o livro e a leitura (Clube do Livro), vem reforçar o direito à literatura, como em Antonio Candido.

* Doutorando em história social pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

Edição: Marcos Barbosa