ENTREVISTA

Elisa Lucinda: A vida não tem ensaio, mas tem novas chances

Em evento na Feira do Livro de Novo Hamburgo, artista lançou campanha nacional da erradicação do racismo no Brasil

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

,
Elisa levou ao palco literário o espetáculo solo “Palavra é Poder” / Fotos: Fabiana Reinholz

“Não caibo nestas caixas

nestas definições

nestas prateleiras.

Quero andar na vida

sendo a vida pra mim

o que é para o índio a natureza.

Assim voo, pedalando solta

na estrada do rio da beleza

nos mares da liberdade alcançada, essa grandeza.

Em tal grandeza meu corpo flutua…

Nos mares doces e nas difíceis águas da vida crua,

minha alegria prossegue, continua.

Despida de armas e de medos

sou mais bonita nua.”

Poema de Elisa Lucinda

 

Autora de livros como A Lua que menstrua, Sósia dos sonhos, Contos de vista, A Fúria da beleza, Parem de falar mal da rotina, a multifacetada artista Elisa Lucinda esteve no último dia 20, Dia Nacional da Consciência Negra, no Rio Grande do Sul. Ela foi convida para a abertura da Feira do Livro de Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre, e trouxe para o palco literário o espetáculo solo “Palavra é Poder”. Na ocasião, ela lançou a campanha nacional da erradicação do racismo no Brasil.

Para ela, a campanha não é diferente das outras, de outras doenças. “Apesar de o corpo social brasileiro estar em metástase nessa doença, ainda há tempo. A primeira coisa que se tem que fazer é identificar a doença, admiti-la e ai começar a tratá-la com a consciência. Nada como o Dia da Consciência Negra para tratar esse assunto”.

E, segue ela, como qualquer doença, tem sintomas. “Você pode ter esvaziamento da alma e um efeito que você pode notar se você acha que as pessoas negras são inferiores. Temos muito trabalho a fazer para erradicação desse mal que mata o país. Toda vez que a gente não combate, a gente colabora com o racismo. Todo mundo suja a mão nesse sangue”, afirma. “A história foi um genocídio dos índios e dos negros que acontece até hoje, toda hora a gente ouve que mataram um guardião da floresta e mataram um jovem preto em algum lugar nesse país”.

Embevecida pela patronesse da 37ª Feira Regional do Livro de Novo Hamburgo, a senhora Maria Emília de Mendonça, 103 anos de uma biografia escrita aos 101, Elisa conversou brevemente com o Brasil de Fato RS, minutos antes do seu espetáculo de cerca de duas horas, que abriu com a música Promessa de Violeiro, de Monica Salmaso, e mesclou histórias, poesia e música com a importância do poder das palavras, que podem armar e desarmar, curar ou adoecer.

Brasil de Fato RS: O que significa o mês da consciência negra, avanços o que precisa ser feito?

Elisa Lucinda: É um mês muito diferente, nunca fomos tantos. Conceição Evaristo bombando, Djamila, eu, Mel Duarte, Preta Rara, tem tanta gente escrevendo, Eliana Cruz, tem uma mulherada preta potente que está na plataforma dos dias atuais. E tem o povo que entrou na universidade pelas cotas, tem os filhos da consciência negra, que estudam quilombo, quilombo moderno. Então eu acredito que essa geração que criou os filhos não querendo enfraquecer pra melhorar a raça, essa geração que está criando os filhos sem alisar o cabelo, essa geração que está criando a autoestima nessa criança e vendo se ela está sendo maltratada na escola, essa geração está sendo preparada para ser um quilombo que nunca houve.

BdFRS: Muitas manifestações feitas sobre essa data, afirmando que não é comemoração, mas resistência e afirmação da existência.

Elisa: Sim, porque o genocídio continua. Hoje eu vi cinco brancos e o menino preto, parecia que era um trabalhador entregador de alguma coisa, estava sendo acusado de roubo aparentemente, mas era assim, todo mundo segurando ele, uma covardia. Eu quis parar, eu queria ter parado, sabe, mas era uma ação também violenta e você não sabe, as pessoas podem estar armadas. Mas assim, aquelas cenas você nunca vê ao contrário. Se você ver cinco pretos e um branco, então está sendo assaltado por um arrastão. Há muito que fazer e a polícia ainda tem autoridade pra matar negro, para revistar negro, para não desconfiar do branco e pra ser conivente com seus crimes.

"O genocídio continua", afirma Elisa

BdFRS: Como tu analisas o contexto político atual?

Elisa: Temos um presidente que não gosta do nosso Brasil, não gosta do povo brasileiro, não tem preparo emocional. É uma pessoa que se fosse uma criança, com aquela personalidade dele, eu teria aconselhado um tratamento se fosse professora. Você vê que a pessoa tem um comprometimento e está comprometendo o país. Eu realmente espero a abreviação desses dias, ou dessas ações fascistas. Ele está, graças a Deus, esbarrando nas suas lições. Nós estamos em um país que Rodrigo Maia fica parecendo de esquerda.

BdFRS: Qual a importância da palavra?

Elisa: Toda. Agora eu posso perguntar quantas negras escritoras você conhece, mas você não saberia responder isso há dois ou três anos atrás. A não ser talvez eu, que você conhecesse. Então a palavra é que faz a diferença, a palavra é a minha libertação, minha alforria. Eu acessei as armas e os códigos brancos, para eu dentro desse código, poder circular e ser respeitada. Eu acho que a palavra é o plano de inclusão mais importante da cidadania.

BdFRS: Saiu esse mês a pesquisa do IBGE que aponta que a população negra ultrapassou os 50% nas universidades. Conversando com alunas e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, disseram que isso não representa a realidade, há o racismo, a solidão…

Elisa: Uma solidão que não começa na universidade, é uma solidão que começa na infância, uma criança negra brincando sozinha não chama atenção da escola, mas uma criança branca sim.

BdFRS: A questão do feminismo negro, a importância?

Elisa: Mulher negra é a mãe do feminismo, ela começou a trabalhar fora sem pedir.

BdFRS: Maria Firmina foi a primeira escritora negra que se tem registro… Há um apagão da história das mulheres negras, da história negra no Brasil.

Elisa: É a invisibilidade, o negócio é guerra, guerra da narrativa, sou branco, sou lindo e quem não for tem que morrer.

BdFRS: Como reverter?

Elisa: Estamos fazendo, mexendo nas escolas, transgredindo dentro da universidade, dentro da história narrativa oficial mentirosa, Lei Áurea, Princesa Isabel - A Redentora, um nome que ela não merece, e as escolas, os professores estão avançando. Nós vamos chegar a um Brasil, o país é muito novo, está acontecendo agora, a gente não conhece ainda, e ninguém pode dar ré nele.

Edição: Marcelo Ferreira