2 de dezembro

No Dia do Samba, viva o Samba da Classe Trabalhadora

O projeto acontece todos os sábados, no Armazém do Campo, centro do Recife

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O Samba da Classe Trabalhadora nasceu junto ao próprio Armazém do Campo, na capital pernambucana / Rani de Mendonça

Sábado, sol e feijoada. Já parece ser uma combinação perfeita para relaxar. Mas, imagine adicionar um pouco de samba ao vivo e, para quem gosta, uma cerveja ou uma cachaça geladíssima. Some a tudo isso, ainda, ser no meio da rua, de frente para o rio Capibaribe, no meio do centro do Recife. Ficou muito bom, né? Ainda assim, com todas essas coisas, não se consegue descrever o que é o Samba da Classe Trabalhadora, que acontece todos os sábados, no Armazém do Campo do Recife. Além de música, comida e bebida, tem algo neste projeto que vai além das músicas, das coisas e das palavras. 

O Samba da Classe Trabalhadora nasceu junto ao próprio Armazém do Campo, na capital pernambucana. A ideia maior era possibilitar que os trabalhadores e as trabalhadoras do comércio pudessem aproveitar um samba logo após o expediente do sábado. E, claro, trazer o samba para o centro da mesa e da cidade. Mas, ao que parece, está sendo muito além disso. Atualmente, o projeto é também um reduto de cantores e compositores pernambucanos que insistem em sambar na terra do frevo. 

Um deles é Paulo Perdigão. Carioca da baixada fluminense e artesão, depois que veio morar em Pernambuco milita para que o estado pare de importar composições e canções do Rio de Janeiro para cá. “Há 15 anos nós criamos o Movimento dos Compositores de Samba de Pernambuco, para que a gente pudesse mostrar o nosso trabalho autoral. Nesse tempo o samba não era sequer reconhecido nos fundos de cultura do estado. Mas, já tínhamos muitos sambistas fazendo muita coisa boa aqui”, conta Paulo em tom saudoso e orgulhoso.

 

Para Paulo, que atualmente organiza a Roda de Samba autoral, o samba tem um papel político bastante importante. Não somente para disseminar ideias, mas também para dar oportunidades a diversos artistas, sobretudo locais. “Quando fui convidado para estar aqui no Samba da Classe Trabalhadora não pensei duas vezes, porque aqui nós defendemos o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Foi aqui que eu consegui me reunir com artistas comprometidos, com um olhar diferente para as questões sociais”, conta. 

E é nesse grupo de artistas comprometidos que compõem o Samba da Classe Trabalhadora que também está Jorge Riba. Recifense, nascido na Boa Vista e "criado" entre Casa Amarela e Rio Doce, é cantor, compositor, bailarino e multi-instrumentista. Bastante conhecido também entre a militância do movimento negro de Pernambuco, ele destaca que este espaço tem uma importância história não só para a popularização do samba, mas também das pautas que tocam a vida da classe trabalhadora.

“O samba é a nossa identidade cultural. E nada mais agregador do que termos o samba desmitificando o que é o MST para as pessoas da área urbana. E não podia ter dado mais certo do que ter feijoada feita com os produtos da Reforma Agrária junto com um samba do bom. Eu me sinto muito privilegiado em ter minha arte agregada ao Armazém do Campo. Talvez seja isso minha diferença, porque eu faço samba como muitos sambistas, mas tem um propósito no meu samba” conta. 

Além deles dois, a música do sábado fica por conta do cavaquinho, do pandeiro, do violão e do tantã do Grupo Néctar. O repertório é diverso durante toda a tarde, começando por volta das 13h, junto ao início do almoço, que sempre é feijoada. Não demora muito para o povo chegar. Vem gente de todos os cantos e lugares, comemoram aniversários, encontros de coletivos, amigos e afins. Não demora muito para as mesas lotarem e ficar gente em pé. 

No meio deles, estava um grupo de quatro amigas, que frequentam quase que semanalmente, aos sábados, o Armazém do Campo. Izabel, Luciana, Geogérlia e Mônica gostam de partilhar conversas da vida e das lutas no Armazém do Campo porque consideram um lugar democrático e livre de opressões. Para a artesã Mônica Granjeiro o ambiente conta muito. “Aqui eu me sinto como em um ambiente meu, porque é muito acolhedor. Eu desejo que esse lugar chegue em todo o Brasil, para que todo mundo possa frequentar lugares que tem samba de raiz e que não distingue raça, sexualidade, mas que acolhe todos”, ressalta. 



Com Mônica, estava também Maria Izabel de Albuquerque, professora aposentada, que muda o grupo de amigos e amigas, mas não muda de curtir o Samba da Classe Trabalhadora. “Além de ser um espaço de resistência, aqui a gente a gente se fortalece, porque é democrático em todas as esferas, também na parte musical. As pessoas chegam aqui na roda e simplesmente cantam, se confraternizam, é muito bom estar aqui, quando não consigo vir, sinto muita falta”.

O Samba da Classe Trabalhadora é um pouco isso, mas é também muita surpresa, que por vezes, ninguém espera. No sábado em que estávamos acompanhando, teve lançamento da mais nova música de Paulo Perdigão, “O operário do ABC”, composta para ser enviada como homenagem ao ex-presidente Lula. No refrão, “Sr Luiz Inácio, o senhor já entrou para história, está gravado em nossas memórias, o operário do ABC”. Como também teve a participação especial de Manezinho da Gigante, histórico compositor de sambas pernambucanos.

Por fim, como diz o samba de Paulo Perdigão, ecoado pela plateia que acompanhava as apresentações, “Já ouviu sinfonias como asa branca e luar do sertão? Paulo freire, Ariano. Capiba, Brennand e o nosso Gonzagão. Pernambucanidade pulsando nas veias e no coração. É, pois é no Capibaribe tambem tem maré”. E na beira dele tem o Samba da Classe Trabalhadora, de José, Maria, Sabrynna, Jorge, Gustavo, Vinícius, Paulos e quem mais quiser. Viva o samba! Viva o Samba da Classe Trabalhadora, nem que seja uma só vez.

 

Edição: Marcos Barbosa