MINAS GERAIS

Jornalistas protestam em BH para que registro profissional continue sendo exigência

Ato é contra a Medida Provisória 905 de Jair Bolsonaro, que retira vários direitos trabalhistas

Belo Horizonte

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Alessandra Mello, presidenta do sindicato, participa da campanha #JornalistasContraMP905 / Reprodução

Os jornalistas de Minas Gerais estão em ampla campanha contra a Medida Provisória 905, do presidente Jair Bolsonaro. A medida passa a permitir que as profissões de jornalista, radialista, sociólogo, secretário, publicitário, arquivista, artista, atuário, guardador e lavador de veículo não precisem mais ter registro para serem exercidas. Em Belo Horizonte, os jornalistas protestam na Praça Sete, Centro, desde as 17h, dialogando com a população.

A presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Alessandra Mello, lamenta que a MP esteja acabando com o controle sobre a função jornalística. “A partir de hoje não se tem mais nenhum tipo de controle sobre quem é jornalista, quem imprime jornais, uma arma tão poderosa como a informação. A gente tem a consciência de que hoje em dia as pessoas podem reportar seu cotidiano, seu fato. Mas estamos falando do jornalismo profissional, que tem que ser feito com critério, com técnica, com ética, com informação”, defende.

Os sindicatos de todo o país também realizam a campanha #JornalistasContraMP905, em que profisssionais tiram fotos com o cartaz “Não à MP 905! Jornalista só regulamentado”. Mais de 30 jornalistas mineiros já entraram na campanha, que foi proposta junto com a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj).

Na página do sindicato mineiro ainda é possível ler o manifesto “NÃO SE ACABA COM O JORNALISMO. A NÃO SER QUE O MUNDO ACABE”. “Querem acabar com o jornalismo para normalizar o absurdo. Querem acabar com o jornalismo para que o poço realmente não tenha mais fundo. Eles querem o nosso fim. Mas eles não podem querer tudo”, consta trecho da nota.

Jornalistas já não tem diploma exigido

Em 2009, os profissionais do jornalismo já tiveram uma grande perda. O diploma universitário passou a não ser mais exigido como requisito para se trabalhar com a notícia. Passava a ser exigido apenas o registro profissional. Agora, a MP 905 retira a última regulamentação para a profissão.

Leia o manifesto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais

NÃO SE ACABA COM O JORNALISMO. A NÃO SER QUE O MUNDO ACABE.

Não se acaba com os dias. Não se acaba com as noites. Ninguém para o mundo, ninguém impede os minutos e os segundos, ninguém controla tudo. Não se acabam as vidas, as causas, as consequências, os fatos e as notícias, não se pode tudo.

Ainda que os tempos sejam fáceis ou difíceis, ainda que as vozes sejam altas ou inaudíveis, ainda que a censura seja a manchete mais visível, não se pode tudo. Não se controla o mundo. Não há poder, por mais poder, que possa ser completamente absoluto. Não se decreta o indecretável, não se decreta que olhos sejam cegos e ouvidos sejam surdos. Ninguém pode tudo.

Querem que nós, jornalistas, de todos os lugares deste país, sejamos inviáveis, imóveis, impraticáveis, inexistentes. Querem que uma medida provisória, na covardia mais tacanha do autoritarismo, decrete o fim do jornalismo, das notícias, das denúncias, das descobertas e dos furos. Que as pautas sumam das TVs, das rádios, do dia a dia de milhões que vivem e morrem nesse pedaço de chão da América do Sul.

Querem acabar com o jornalismo para normalizar o absurdo. Querem acabar com o jornalismo para que o poço realmente não tenha mais fundo. Eles querem o nosso fim. Mas eles não podem querer tudo.

Resistiremos porque resistirão os dias e as noites, a sociedade e seus contrastes, as mentiras, mas sobretudo as verdades, as igualdades e desigualdades. Resistiremos porque os ditadores podem até controlar, às vezes, o que se conta. Mas não podem controlar o que se sabe. Continuaremos a saber, a cobrir, a apurar, a divulgar, a criticar, a fazer a parte que nos cabe.

Porque isso é o que queremos. Porque isso é o que gostamos. Porque não há decreto, nem medida provisória, nem prisão, nem tortura que nos pare. Não se acaba com o jornalismo porque ele é maior do que nós. Uma flor revolta, sob o concreto, que até pode ser cortada, mas que sempre nasce.

Hoje estamos aqui, em defesa do registro da nossa profissão e, ainda mais, em defesa dos que mais precisam de nós. Eles não querem, mas o jornalismo continuará ao lado dos mais fracos, dos que não têm voz ou foram silenciados pelo poder do dinheiro ou da violência. Nosso lado é o dos oprimidos, das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos trabalhadores, da população LGBT, das vítimas da exclusão social, de quem precisa de um contraponto diante da tirania dos covardes.

O bom jornalismo é o bom combate. O nosso compromisso é a verdade. Não há como nos tirar do ar. Não há nenhuma borracha ideológica que nos apague. Hoje estamos aqui para dizer que seguimos, que lutamos, que estaremos na ativa, informando, incomodando, fazendo jornalismo por toda parte.

Não se acaba com o jornalismo. A não ser que o mundo acabe.

Vamos à luta!

Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais

Belo Horizonte, 4 de dezembro de 2019.

Edição: Joana Tavares