Atentado

PMs que atacaram coletores de castanha no Pará podem estar a mando de grileiro

Policiais atiraram com balas de borracha; área é reivindicada por fazendeiro, mas considerada pública pela Justiça

Brasil de Fato | Belém (PA)

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Trabalhadores foram atingidos quando retornavam da floresta carregando as castanhas coletadas / Arquivo pessoal

Na última segunda-feira (2), trabalhadores de Eldorado do Carajás, no sul do Pará, que vivem da coleta da castanha, foram alvejados por balas de borracha da Polícia Militar (PM). A agressão ocorreu no Distrito Gogó da Onça, no município vizinho de Xinguara. Segundo fontes ouvidas pelo Brasil de Fato, a PM teria agido em cooperação com pistoleiros de uma fazenda local.

Os castanheiros, que voltavam carregados após uma manhã de trabalho, foram abordados por policiais militares da Patrulha Rural do 23º Batalhão de Polícia Militar (BPM) e, em seguida, atingidos por balas de borracha.

Os agredidos eram moradores do acampamento Osmir Venuto da Silva, da Liga dos Camponeses Pobres do Pará e Tocantins, e disputam a área de coleta de castanha com a fazenda Surubim.

Cinco trabalhadores foram feridos e afirmam não terem passado por exames de corpo de delito. A PM do Pará afastou os policiais envolvidos no caso.

Uma fonte que prefere manter sigilo – porque está ameaçada de morte após denunciar grilagem de terras no município – afirma que todos na região sabem que a PM de Eldorado do Carajás e Xinguara trabalha em parceria com os pistoleiros da fazenda.

Segundo ela, policiais e pistoleiros roubam as castanhas dos extrativistas. Há relatos de casos de agressão e até de assassinato de sem-terra da região.


Nós estamos com o poder no bolso, porque quem está no poder é Bolsonaro


Ela conta que, dessa vez, os trabalhadores decidiram não entregar a produção aos policiais e foram agredidos, mesmo sem reagir. A situação foi registrada com o celular de um dos castanheiros. "Os companheiros estavam saindo da mata e a polícia estava esperando por eles. A PM estava cumprindo esse trabalho para eles, para a fazenda [Surubim]".

“Hoje eles estavam no Gogó da Onça [os pistoleiros], parece que eles estavam dando gargalhada relembrando o fato que ocorreu e falando: - Enquanto o dinheiro mandar, ‘nós’ tá com o juiz, polícia, comando, nós estamos com o poder no bolso, porque quem está no poder é Bolsonaro”, completa.

Área pública

Os pistoleiros e a PM estariam atuando no local para impedir a atividade extrativista na área que é reivindicada pelo proprietário da fazenda Surubim. As famílias de trabalhadores afirmam realizar a coleta da castanha somente nas áreas públicas da floresta.

Na Vara Agrária de Marabá, o juiz Amarildo Mazuti proferiu, em fevereiro de 2018, decisão favorável aos trabalhadores com relação à coleta da castanha na fazenda Surubim. O magistrado justificou que o proprietário, Almikar Farid Yamim, só apresentou o georreferenciamento de 13,5 mil hectares da propriedade que diz ser de de 22 mil hectares.

"Por esse motivo, o restante da fazenda – fora do georreferenciamento – ficou definida como remanescente de áreas públicas. Logo, grilada", resume a camponesa.

 

Trabalhador mostra a ferida resultante do tiro de bala de borracha (Foto: Arquivo pessoal)

"Dessa vez os camponeses decidiram que não"

Nessa época do ano, famílias inteiras de extrativistas entram na mata para coletar os frutos das castanheiras. A venda do produto, em geral, representa sua principal renda anual.

Praticamente toda a castanha-do-Pará consumida no mundo sai das castanheiras nativas da floresta amazônica e depende do trabalho das famílias que, comumente, permanecem dentro da mata por longos períodos durante a coleta.

Para manter-se trabalhando na coleta, é necessário um investimento inicial em comida, mantimentos, medicamentos e instrumentos de trabalho. Arcar com esse custo significa, muitas vezes, endividar-se.

Trata-se de um trabalho extenuante em que é necessário abrir trilhas na mata, percorrer longas distâncias diariamente, quebrar com golpes de facão a centenas de ouriços (fruto casca dura que envolve as castanhas) e carregar nas costas balaios com até 100 quilos de castanhas.

Todas essas tarefas são realizadas sob os riscos relativos ao trabalho na floresta: picadas de cobra, aranhas, insetos, ataques de onça.

"Dessa vez os camponeses decidiram que não, que os trabalhadores não iam mais entregar a castanha, porque a castanha é difícil para você sair colhendo, caçando um ouriço aqui, outro ouriço ali. Depois você corta os ouriços todos para tirar a castanha de dentro para você trazer para casa para vender, para pôr o alimento na mesa para os filhos e simplesmente esses bandidos virem e tomarem", assinala a fonte ouvida pelo Brasil de Fato.

Violência crescente e disputa pela terra

Segundo a camponesa, a violência vem se acirrando desde 2009.

Ela relata que, no local, as agressões aos trabalhadores rurais são constantes e incluem até violência contra crianças. No dia 28 de junho do ano passado, um morador da comunidade, Eudes Veloso Rodrigues, foi assassinado por pistoleiros. Outro trabalhador rural teve a perna amputada depois de ter caído de moto ao ser atingido pelo carro de um pistoleiro. 

"Este ano, eles já prenderam um companheiro nosso, já atiraram em moto de outro companheiro que estava passando na BR e já botaram companheiro nosso sob a mira de fuzil. É tanta coisa que a gente não sabe nem por onde começar", relata.

Para Andréia Silvério, Coordenadora Regional da CPT no Pará e advogada da CPT Marabá, os passos agora são no sentido de reunir provas para dar apoio aos camponeses.

"Não é a primeira vez que acontece. Já houve outras abordagens da PM lá dentro, talvez não tão graves quanto essa. Mas, já aconteceram, e pra além disso os trabalhadores enfrentam cotidianamente situações de violência com relação à atuação da milícia – que eles chamam de empresa de segurança – que atua lá, contratada pela fazenda."

PM

A Polícia Militar do Pará disse, em nota, que instaurou um Inquérito Policial Militar, por meio da Corregedoria Geral da Corporação, para apurar a ação dos policiais militares e que afastou os agentes da Patrulha Rural do 23° Batalhão, envolvidos na ação.

Segundo a corporação, os policiais foram acionados para verificar ocorrência sobre furto e abate ilegal de gado na propriedade e, no momento em que realizavam incursões na área, se depararam com um grupo que apresentou resistência. 

"Houve a necessidade de disparos de elastômero (balas de borracha), conforme prevê as técnicas de uso de Instrumentos de Menor Potencial Ofensivo (IMPO). Dois homens foram atingidos. O caso foi registrado na Delegacia de Eldorado dos Carajás, sendo realizado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO)", diz a nota.

Edição: Rodrigo Chagas