Assentamento Mandacaru, em Petrolina (PE), produz toneladas de alimentos orgânicos

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Produtores trabalham em todos os processos, desde a semeadura até a venda da produção.
Produtores trabalham em todos os processos, desde a semeadura até a venda da produção. - Foto: Ozaneide Gomes
Trabalho das 70 famílias se tornou referência de produção limpa

Toneladas de uva, acerola, mandioca, banana, xique-xique. Moios fartos de alface, coentro, cenoura, beterraba. São seis toneladas de frutas e hortaliças orgânicas colhidas durante o ano inteiro nas terras do assentamento Mandacaru, em Petrolina.

A safra abundante é o maior motivo de orgulho e de celebração para as 70 famílias de agricultoras e agricultores que exatamente há vinte anos ocuparam os 482 hectares, até então improdutivos, no coração do Vale do São Francisco, em Pernambuco. A 700 quilômetros do Recife, o assentamento nasceu em abril de 1999. De lá para cá, se tornou pioneiro e referência na produção orgânica e certificada de hortaliças e frutas.

A cada safra, as 614 pessoas que vivem lá semeiam, cuidam, colhem, beneficiam, distribuem e comercializam três toneladas e meia de uva orgânica, nove toneladas de acerola, três mil moios de hortaliças como coentro, alface, cebolinha, hortelã e rúcula. 

Durante o ano são colhidas seis toneladas de frutas e hortaliças que são comercializadas em comércios na região. Foto: Ozaneide Gomes.

A história da agricultora Ozaneide Gomes dos Santos, de 39 anos, se mistura com a história de luta nas terras de Mandacaru. Nascida em Cabrobó, cidade que fica a duas horas de Petrolina, Ozaneide chegou por lá com a mãe e os irmãos aos dezenove anos, no ano da fundação do assentamento. Hoje é a presidenta da Associação das Agricultoras e Agricultores e Familiares do Assentamento Mandacaru (AAFAM). Ela conta os desafios encontrados no início para ocupar e produzir nessas terras de maneira agroecológica.

“O assentamento Mandacaru aqui no município de Petrolina, em Pernambuco, foi criado
em 6 de abril de 1999, pela necessidade dos agricultores e agricultoras que moravam nas periferias da cidade de Petrolina, que já eram agricultores e que saíram de suas comunidades em busca de emprego e não encontraram emprego e ficaram desempregados. 

Depois disso nós fizemos alguns trabalhos coletivamente com algumas parcerias, a exemplo da Univasf (Universidade do Vale do Rio São Francisco) e até hoje a gente tem essa parceria e uma das coisas foi a gente trabalhar a questão da agroecologia, sobretudo os produtos orgânicos. Aí foi muito difícil aqui na região porque é uma região conhecida nacionalmente e internacionalmente por ser uma região polo da fruticultura irrigada e aí muitos produtores grandes e médios produzem com um alto índice de agrotóxico”

Com as parcerias e as diversas capacitações com as famílias agricultoras, vieram as primeiras hortas de frutas e hortaliças plantadas e cultivadas sem nenhuma especie de veneno. Ozaneide conta que o segundo passo foi se organizar coletivamente e trabalhar em rede com a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape) para escoar a produção para o comércio e para a população da região. 

“E com isso a gente iniciou um trabalho de formação de feiras agroecológicas. Então hoje no município a gente tem um mercado de produtores orgânicos, que é uma parceria entre a associação, a gente também criou uma associação de produtores orgânicos que não é apenas os agricultores do assentamento Mandacaru e sim toda uma região que contempla esse mercado de produtores de orgânico que é o primeiro do Nordeste inclusive. E aí hoje a gente produz basicamente para as feiras aqui da região e nós fornecemos para rede de supermercados aqui no nosso município. E também já enviamos uva para o mercado de São Paulo”

Mulheres fazem a coleta do xique-xique para a produção da geleia, um dos principais produtos comercializados pelas famílias. Foto: Ozaneide Gomes.

A presidenta da Associação do Assentamento Mandacaru explica que a organização funciona através de arranjos produtivos e que todo mundo é beneficiado. Na prática é assim: um grupo de mulheres faz da uva suco e geleia. Outro grupo trabalha com as hortaliças, outras fazem artesanato da colheita da palha da bananeira e de sementes, outro grupo da mandioca faz biscoito e bolos. 

A lida com a terra faz com que as agricultoras do assentamento amadureçam na sabedoria dos tempos dos solos, dos climas, das safras, das estações, das colheitas, dos descansos necessários das plantações.

“A terra pra gente é o bem mais precioso que nós temos. Porque primeiro a terra, depois a água. No caso da gente, também teve uma luta com a Codevasf, inclusive, nessa área que produzimos de 35 hectares ela era totalmente irregular, só esse ano através de uma petição. 
Do Ministério Publico Federal foi que conseguimos a concessão da água e aí por isso estamos ampliando, mas assim a terra é o bem maior que nós temos e que com certeza será o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos, então essa terra para gente é tudo”

Para quem quiser conhecer ou visitar o Assentamento Mandacaru, é só entrar em contato pela página do assentamento no Facebook.

Edição: Camila Salmazio